quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Cordel e comunicação (Marcos Mairton e Paulo Benz)



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FAZENDO POESIA COM O AMIGO PAULO BENZ

A Rádio Mundo Cordel traz hoje, ao som do violão de Nonato Luiz, com a música "Rio Reno", uma poesia inspirada em e-mails que troquei com o poeta Paulo Benz.
Na verdade, parte da poesia é dele, pois aconteceu em um dia no qual conversávamos em versos.


A “Quinta de Poesia” à qual a poema se refere é mera ficção, mas que importância tem isso? O que importa um fato ter ou não acontecido, um lugar existir ou não, se no mundo dos poetas a realidade e a fantasia se misturam, e eles nunca sabem direito distinguir uma coisa da outra.


E quem sabe distinguir a realidade da fantasia?

CONVERSA DE POETA
(ou e-mails trocados entre dois poetas, combinando uma reunião)
Autor: Marcos Mairton, com participação muito especial de Paulo Benz

– Ó poeta, meu amigo,
Escrevo pra lhe avisar
Que a “Quinta de Poesia”
Que costumo organizar,
E ocorre toda vez,
Sempre e sempre, a cada mês,
Na primeira quinta-feira,
Vai cair em outro dia.
Porque senão ficaria
Pra mim, muito complicado.
Mas na terça dará certo.
Vá de coração aberto
E com o verso preparado.

– Olha, que interessante,
A quinta na terça-feira.
É possível que alguém queira,
Ter uma idéia brilhante,
Pra, de agora em diante,
A segunda ser na sexta.
E eu, que não sou nem besta,
Atraso o domingo um dia,
O sábado ficaria
Com quarenta e oito horas
Pra contemplar fauna e floras
Fazer amor e poesia.

– Fazer amor e poesia,
Era isso que eu queria.
Pegava, no calendário,
Só a folha do domingo,
Tirava cópias a esmo,
Sem da tinta perder pingo,
Renumerava o mês todo
Só com folhas desse dia.
E ficava olhando o povo
Na sua vã correria,
Enquanto eu, descansado,
Repetiria meus versos,
Só pra conversar fiado,
Na praia, c’os pés imersos.

– Na praia, c’os pés imersos
Na água fria do mar
Sentado numa cadeira
Dessas de se balançar,
Lendo “O direito à preguiça”,
Onde Paul diz, com justiça,
Que ela é mãe das invenções.
Por isso, as intenções,
Que tenho agora em meu ser
São de achar um paraíso
Onde não será preciso
Trabalhar nem escrever.

– Trabalhar nem escrever?
Não é um pouco demais?
Como poderás ter paz,
Suspendendo teus escritos?
Os teus amigos, aflitos,
Irão à tua presença,
Talvez, sem pedir licença,
Adentrarão em teu lar
Chegarão a implorar
Que voltes a escrever
E tu, já posso prever,
Começarás a chorar!

– Já comecei a chorar,
Só de ler tua poesia.
Eu não imaginaria
Resposta dessa maneira.
Era só uma brincadeira
O que há pouco eu escrevia.
Parar de fazer poesia
Não depende de eu querer
Me desculpe por dizer
Que pensei nisso algum dia.

Poesia de Marcos Ferreira


A HORA AZUL DO SILÊNCIO

Recebi ontem convite para o lançamento do livro A HORA AZUL DO SILÊNCIO, do poeta Mossoroense MARCOS FERREIRA. A obra foi premiada na primeira edição nacional dos ‘Prêmios Literários Cidade de Manaus’, categoria Melhor Livro de Poesia – 2006.

Eu já peguei meu exemplar ontem mesmo, e dei uma boa lida antes de dormir. Com a permissão do poeta, transcrevo

O MENDIGO

Esse que você vê tão sem destino
feito carta jogada de um baralho
já foi muito benquisto e muito fino,
apesar dessa forma de espantalho.

Esse velho cansado peregrino
também teve seu lar e seu trabalho.
Não viveu toda a vida em desatino,
como triste e perdido rebotalho.

Pois quem diz há mais tempo conhecê-lo,
me garante que tanto desmantelo
tem alguma mulher por responsável...

Sendo assim, nós o vemos todo dia
carregando a suposta fantasia
por aquela que o fez tão miserável.


O lançamento ocorrerá hoje, às 18 horas, na Livraria Café & Cultura, em Mossoró. Veja o convite abaixo, que, aliás, é uma réplica da bela capa do livro:

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cordel e repente...


Desenho obtido no site http://www.stickel.com.br/atc/coisas/2711, de Fernando Stickel
LÁGRIMAS DE UM CANTADOR CEGO

Uma bem curtinha, do colaborador RICARDO PIAU, de Juazeiro do Norte:

Não sei se já te mandei isto, mas acho uma das estrofes mais bonitas que já vi. Ouvi em um programa do Dílson Pinheiro.

O Dílson conta que um determinado cantador era cego, e estava numa cantoria homenageando sua mãe, que completava noventa anos naquela data.

Depois de muitas homenagens, um amigo chegou ao ouvido do cantador e falou que sua mãe estava chorando de tão emocionada.

O cantador pegou a viola e mandou:

Tão vendo aquela velhinha
Enrolada no seu manto
Com os olhos rasos d'água
Lavando a mágoa em seu pranto?
Cantava quando eu chorava
Hoje chora quando eu canto


Ricardo Morais

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A poesia de Jessier Quirino



JESSIER QUIRINO EM FORTALEZA

Acabo de saber que o grande poeta Jessier Quirino estará em Fortaleza neste fim de semana e fará show, sábado, dia 8, no BNB Clube, na programação do BNB Clube de Cultura.

Mais que um poeta, Jessier é um intérprete de mão cheia, que leva o público às lágrimas e às gargalhadas em seus recitais. Basta ver os seus versos e
m:
AGRURAS DA LATA D'ÁGUA

...E eu que fui enjeitada
Só porque era furada.
Me botaram um pau na boca,
Sabão grudaram no furo,
Me obrigaram a levar água
Muitas vezes pendurada,
Muitas vezes num jumento.

Era aquele sofrimento,
As juntas enferrujadas.
Fiquei com o fundo comido.
Quando pensei que tivesse
Minha batalha cumprido,
Um remendo me fizeram:
Tome madeira no fundo
E tome água e leva água,
E tome água e leva água.
Daí nasceu minha mágua:
O pau da boca caía,
Os beiços não resistiam.
Me fizeram um troca-troca:
Lá vem o fundo pra boca,
Lá vai o pau para o fundo.
Que trocado mais sem graça
Na frente de todo mundo.
E tome água e leva água
E tome água e leva água.
Já quase toda enfadada,
Provei lavagem de porco,
Ai mexeram de novo:
Botaram o pau na beirada.
E assim desconchavada,
Medi areia e cimento,
Carreguei muito concreto
Molhado duro e friento,
Sofri de peitos aberto,
Levei baque dei peitada.
Me amassaram as beiradas,
Cortaram minhas entranhas.
Lá fui eu assar castanha,
Fui por fim escancarada.
Servi de cocho de porco
Servi também de latada.
Se a coisa não complica,
Talvez eu seja uma bica
Pela próxima invernada.
E inverno é chuva, é água,
E eu encherei outras latas
Cumprindo minha jornada.

Para conhecer melhor sua obra, vale a pena fazer uma visita ao seu site:
www.jessierquirino.com.br.

Mas como a poesia de Jessier fica ainda melhor "dizida" que lida, a Rádio Mundo Cordel traz hoje “Miss Feiúra Nenhuma”, do livro/cd “Bandeira Nordestina”.


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Cordel e repente





POESIA INDO E VOLTANDO

Ainda sobre grau de dificuldade dos estilos das poesias, devo confessar que também tenho atração por esses desafios. Outro dia me deu na idéia de fazer uma estrofe de martelo agalopado que pudesse ser cantada tanto de cima para baixo como de baixo para cima, ou seja, que os versos pudessem ser cantados na ordem inversa, sem perder o sentido. Aí fiz o seguinte:

Poesia pra dizer indo e voltando
Não é coisa para qualquer um fazer.
É preciso o poeta conhecer
O mistério de falar sempre rimando,
Com destreza as palavras ir juntando,
E falar da sua dor com alegria,
Misturar realidade e fantasia,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente.
É preciso um poeta inteligente
Pra dizer indo e voltando a poesia.

Pra dizer indo e voltando a poesia,
É preciso um poeta inteligente,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente,
Misturar realidade e fantasia,
E falar da sua dor com alegria,
Com destreza as palavras ir juntando.
O mistério de falar sempre rimando,
É preciso o poeta conhecer .
Não é coisa para qualquer um fazer,
Poesia pra dizer indo e voltando.

Passaram-se vários dias, acho que uns dois meses, e voltei a abrir o arquivo para ver o que havia nele. Quando li os versos acima, senti como se fosse outro poeta que os houvesse escrito. Então respondi:

O poeta mostra do que é capaz
Ao fazer a poesia desse jeito.
Quando eu não sabia nem falar direito,
Já cantava assim como você faz.
Já rimava para a frente e para trás,
Já sabia fazer versos recuando.
Eu já tinha das palavras o comando,
Antes de fazer três anos de idade.
Não me causa a menor dificuldade
Essa sua poesia indo e voltando.

Essa sua poesia indo e voltando
Não me causa a menor dificuldade.
Antes de fazer três anos de idade,
Eu já tinha das palavras o comando.
Já sabia fazer versos recuando,
Já rimava para a frente e para trás,
Já cantava assim como você faz,
Quando eu não sabia nem falar direito.
Ao fazer a poesia desse jeito
O poeta mostra do que é capaz.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Cordel e educação



“MARTELO PERGUNTADO”, “NÓ APERTADO” E A "RÁDIO MUNDO CORDEL"

O post anterior, que fala das visitas de poetas ao Mundo Cordel, mereceu comentário do blogueiro e escritor GILBAMAR, autor do blog GILBAMAR, POESIAS E CRÔNICAS.

Em seu comentário, Gilbamar dá exemplo de humildade ao manifestar seu desejo de:

“registrar, muito feliz,que a receita de cordel feita pelo talentoso Mundim do Vale foi bastante proveitosa para mim. Embora os meus cordéis ainda não tenham esse tempero tão equilibrado e de qualidade, que torna a poesia pura e encantadora, vou aprendendo com vocês,os mestres. Grande abraço, extensivo ao vate Mundim do Vale”

Quem já visitou o blog de Gilbamar sabe o quanto ele é bom, tanto na prosa como na poesia.

Mas já que estamos falando de receita para fazer poesia, uma coisa interessante de se observar na poesia popular é a variedade de gêneros, com rigorosas regras de métrica e de rima, e até mesmo de oração. É como se os poetas criassem dificuldades para eles mesmos, apenas para testar sua capacidade de transmitir suas idéias e sentimentos em um formato rígido de escrita.

Por exemplo: o martelo perguntado, que é uma versão do martelo agalopado, mas no qual, em uma estrofe, um cantador faz perguntas, e na seguinte, o outro cantador as responde.

Não sei se o mais difícil é perguntar ou responder, mas fica muito interessante. Para mostrar um exemplo, implanto uma novidade em Mundo Cordel, a Rádio Mundo Cordel, e apresento um trecho de um MARTELO PERGUNTADO feito pelos Nonatos:

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Outro exemplo interessante desse tipo de poesia é encontrado no CD “Acorda Cordel na Sala de Aula”, de Arievaldo Viana. É o “nó apertado”, que a Rádio Mundo Cordel mostra, na composição de Zé Maria de Fortaleza e Jocélio:

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Dá pra imaginar a complicação de se fazer poesia dessa forma, mas a criatividade de nossos poetas está acima dessas coisas, e tudo acaba ficando muito divertido.
Veja outros posts sobre a técnica de fazer cordel:

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Poetas em MundoCordel



VISITAS DOS POETAS AO MUNDO CORDEL

Uma das coisas boas de se manter um blog como este, destinado à divulgação da cultura, é receber dos visitantes, e dos próprios autores, comentários acerca do material divulgado, inclusive sugerindo novas postagens.

Rouxinol do Rinaré e Flávio Martins, do IMEPH, nos deram essa alegria. Postei sobre os livros de cordel ilustrados do IMEPH, voltados para o público infantil, um deles de autoria de Rouxinol, e eles me presentearam com o comentário:

Poeta Marcos Mairton
Eu sinto ser necessário
Agradecer-te a atenção
Quando fazes comentário
Aos meus versos e remete
Nas ondas da internet
Num blog extraordinário.

Sou ciente que você
É juiz e menestrel
E grande divulgador
Dessa cultura fiel
Às raízes populares
Plantando entre os potiguares
A semente do cordel.

Flávio Martins do IMEPH
Te manda um muito obrigado
Pela atenção e espaço
Que você tem dispensado
No seu blog, sobre tudo
Os livros e o conteúdo
Que você tem divulgado.
Nonato Luiz também nos deu esse prazer, quando, a respeito da declamação de OS CINCO SENTIDOS ao som de Rubi Grená, disse:

Olha já visitei o seu blog e achei realmente uma maravilha a sua poesia "OS CINCO SENTIDOS" junto a minha música "RUBI GRENÁ. Para seu contrôle gostaria de te falar que achei perfeito o ritmo, a colocação(entonação) e o timbre da voz no momento em que você declama os belíssimos versos com a música rolando ao fundo. Meus parabéns.

Depois foi Mundim do Vale, que também teve poesia exposta por aqui:

Mairton.

Ricardo me falou do seu interesse por cultura popular e por isto eu tomei a liberdade de enviar em anexo alguns trabalhos. São da minha autoria e responsabilidade pode usá-los da forma quelhe convier.
Abraço.

Mundim do Vale. Do Vale do Machado.
Ou Raimundinho Piau. Da terra do arroz.

Encerro, portanto, com mais uma das várias poesias que Mundim do Vale nos enviou. Como muita gente trafega por aqui em busca de dicas para escrever um bom cordel, segue uma muito instrutiva:

RECEITA PARA CORDEL
Mundim do Vale

O verso para cordel
Fica bem em septilha,
Mas faltando ingrediente
Pode ser feito em sextilha,
Faça por essa receita
Que fica uma maravilha.

Não esqueça de botar
Um pouco de alegria,
Humor é fundamental
Para a boa poesia,
Se o colega duvidar
Confirme com Zé Maria.

Não queira fazer volume
Não force a inspiração,
O cordel tem que ter arte,
Rima e metrificação,
Lembre que o melhor sabor
É da pequena porção.

Desenvolva seu cordel
Com humildade e amor,
Coloque tempero bom
Para agradar o leitor,
Pois ele é quem avalia
A receita do autor.

Se você tem esse dom
Só precisa aprimorar,
Se nasceu pra ser poeta
A rima não vai faltar,
Você acha inspiração
Sem precisar se esforçar.

Uma pitada de rima
Você tem que acrescentar,
Métrica se faz relevante
Para o verso não quebrar,
Na cobertura uma capa
Para melhor ilustrar.

Para o cordel não queimar
Faça a receita segura,
Acrescente a construção
E o enredo na mistura,
Depois faça a impressão
Em média temperatura.

Faça sozinho a receita
Pra ser personalizada,
Não é bom fazer cordel
Com ajuda atrapalhada,
Panelas que muitos mechem
Ou fica insossa ou salgada.

Não bote muita pimenta
Controle também o sal,
O cordel precisa ser
Espontâneo e natural,
Que depois de concluído

Tem seu valor cultural.

A receita de cordel
Tem que ser bem coerente,
Se o colega quer fazer
Procure um tema decente,
Para não ficar vulgar
Obedeça a sua mente.

A receita pede ainda
A responsabilidade,
O cordel é um projeto
Que requer capacidade,
Para não ficar restrito
Somente a maioridade.

Fazendo pela receita
Sabendo metrificar,
Botando a rima perfeita
No seu devido lugar,
Nenhum catador de pulgas
Vai ter erros pra catar.

Faça toda essa receita
Bem distante de fascismo,
Não deixe se aproximar
De onde houver o machismo,
Procure evitar também
Contato com o racismo.

Bote os temperos com calma
Cada um na sua vez,
Não esqueça de botar
Dez gramas de sensatez,
Que quando o leitor olhar
Já sabe quem foi que fez.

Bote um pouco de equilíbrio
Pra manter a disciplina,
Não vá repetir temperos
Para não virar rotina,
Depois coloque o aroma
Da essência nordestina.

Quando a mistura apurar
Polvilhe sinceridade,
Enquanto ela descansa
Faça o molho da amizade,
Para depois ser servida
Com o recheio da verdade.

Coloque tudo na ordem
Antes de botar na mesa,
Verifique a aparência
Para servir com certeza,
Que a receita ficou
Ilustrada com pureza.

Mexendo bem devagar
Vá botando sentimento,
Bote a ética gradual
Conforme o seu pensamento,
E para não embolar
Bote todo o seu talento.

A receita também mostra
O cordel como mensagem,
O autor vira um ator
Do seu próprio personagem,
E assim o poeta faz
Mais perfeita a sua imagem.

Depois da receita pronta
O leitor vai degustar,
E autor sem vaidade
Fica a se perguntar:
Será que eu contribuí
Pra cultura popular?

Não deixe que o orgulho
Altere seu proceder,
Não alto se valorize
Mantenha o jeito de ser,
Pois quem julga seu cordel
È o leitor depois de ler.

Se você tá começando
Leia a receita também,
Que um dia você será
Um cordelista de bem,
Mas cresça com humildade
Sem atropelar ninguém.

Se o leitor já é poeta
Desculpe a intervenção,
Não sou nenhum professor
Para querer dar lição,
Eu também ando na busca
Da fonte de inspiração.

Aqui termino a receita
De um cordel confeitado,
Espero que os poetas
Recebam bem o recado,
Assino Mundim do Vale
Da região do Machado.