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terça-feira, 15 de abril de 2008

Cordel internacional



Livro de ARIEVALDO VIANA na
Feira do Livro Infanto-Juvenil de Bolonha
Fonte: http://fotolog.terra.com.br/acorda_cordel

A literatura de cordel, descendente brasileira do trovadorismo medieval europeu,conquista seu espaço na 45ª. FEIRA DO LIVRO INFANTIL DE BOLONHA (45th BolognaChildren’s Book Fair 2008) o mais importante evento desse gênero em todo o mundo. O livro PADRE CÍCERO – O SANTO DO POVO, do poetapopular ARIEVALDO VIANA, ilustrado com xilogravuras de JOÃO PEDRO NETO eprojeto gráfico de ARLENE HOLANDA está presente no catálogo da FundaçãoNacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ (Brazilian Section of iBbY),comemorativo dos quarenta anos da Fundação, como um dos livros infanto-juvenis altamente recomendáveis.
PADRECÍCERO – O SANTO DO POVO é uma publicação das Edições Demócrito Rocha deFortaleza, editora que vem apostando cada vez mais na poesia popularnordestina. Outros livros do autor, dentro dessa mesma proposta, deverão serlançados em breve por essa grande editora.
ARIEVALDOtem livros publicados também pelas editoras IMEPH (O PAVÃO MISTERIOSO, A RAPOSAE O CANCÃO – indicado pelo MEC, PNBE 2008 e O BICHO FOLHARAL) e lançará embreve, pela CORTEZ, A AMBIÇÃO DE MACBETH E A MALDADE FEMININA, com ilustraçõesde JÔ OLIVEIRA.
Trechosda obra:

Euvou narrar a história
Deum grande brasileiro
Umcearense de fibra
Comfama de milagreiro
Patriarca dosertão
PadreCícero Romão
Osanto de Juazeiro.

É opastor do romeiro
Nessesertão nordestino
Conduziras multidões
Naterra foi seu destino
Sempremostrou vocação
Jágostava de oração
Noseu tempo de menino.

(...)

Com grande facilidade
Atraía as multidões
Que vinham diariamente
Dos mais longínquos rincões
Alguns traziam presentes
Outros traziam doentes
Para escutar seus sermões.

Terminadas as orações
O padre distribuía
Com pobres e maltrapilhos
Parte do que recebia
Praticando a caridade
A sua amada cidade
Rapidamente crescia.

(...)

Embora não seja santo
Perante a Cúria Romana,
O povo diz que ele é,
E seu poder inda emana.
Pois não é ditado novo:
Dizem que a voz do povo
É de Deus e não se engana.

Romeiros chegam a pé
De carro ou de avião
No túmulo do Padre Cícero
Fazem a sua oração
Visitam seu monumento
Pedindo a todo momento
Sua bênção e proteção.


Quem é ARIEVALDO VIANA

ARIEVALDO VIANA nasceu no Sertão Central do Ceará e foialfabetizado por sua avó Alzira de Sousa Lima, em 1974, com o valioso auxíliodos folhetinhos de feira, hoje conhecidos como Literatura de Cordel. Desde criança exercita sua verve poética,tendo recebido a princípio, as benéficas influências dos mestres Leandro Gomesde Barros e José Pacheco, dois pilares da poesia popular nordestina. Refletindo sobre a experiência vivenciada ao lado de suaavó, criou o Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que utiliza essa ricamanifestação na educação de crianças, jovens e adultos. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel -ABLC, onde ocupa a cadeira de nº 40. Tem mais de 100 folhetos já publicados e éautor de vários livros, dentre os quais destacam-se: O Baú da Gaitice (crônicas e anedotas), São Francisco deCanindé na Literatura de Cordel (ensaio), Acorda Cordel na Sala de Aula(didático), A Raposa e o Cancão (cordel infanto-juvenil ilustrado por ArleneHolanda), O Pavão Misterioso (cordel ilustrado, em parceria com o cartunista Jô Oliveira), além da HQ A Moça que Namorou com o Bode, em parceria com KlévissonViana.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Cordel e educação



A RAPOSA, O CANCÃO E AS CRIANÇAS QUE FAZEM CORDEL


Recebi ontem a lista de livros paradidáticos do meu filho e tive a alegria de encontrar entre as obras indicadas o cordel "A raposa e o cancão”, de Arievaldo Viana, editado pelo Instituto Meta - IMEPH. O livro, que foi aprovado pelo Ministério da Educação para integrar o Plano Nacional do Livro Didático – PNLA 2008 – fala da esperteza desses dois animais, deixando o leitor curioso para saber quem vai se dar melhor no final.

É muito bom ver o cordel ocupando seu merecido espaço na educação das crianças brasileiras. No caso de “A raposa e o cancão”, a obra ainda tem a vantagem de tratar de fábula cujos personagens são animais da nossa fauna (além da raposa e o cancão, participam uma rolinha e um pequeno pássaro conhecido como “lavadeira”), o que aproxima a narrativa da realidade de nossas crianças. Desde criança, eu achava estranho histórias com ursos e esquilos.

Ainda sobre o cordel na educação, o jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, do dia 17.02.2008, traz interessante matéria sobre oficina de cordel realizada na cidade de Pacatuba-CE, onde 22 crianças produziram um livro em formato de cordel. A matéria publicada no DN é praticamente toda em cordel. Vejamos o seu texto:


Versos de crianças
UM CORDEL PARA FÁBULAS E CONTOS
Em Pacatuba, 22 alunos produziram um livro em formato de cordel. Assim, o Regional conta essa história
Cultura renovada
Leitura entre a criançada
No município de Pacatuba
O cordel encontrou morada
A idéia, nas escolas públicas,
Ecoou entre a garotada.
Em fevereiro de 2007
O projeto veio funcionar
O mestre era Paulo de Tarso
Às crianças, foi ensinar
Das 120 que se inscreveram
22, um livro, iriam criar.
“Fábulas e Contos em Cordel”
Foi o nome da publicação
2.000 exemplares
Tirados para distribuição
Rimas dos próprios alunos
Do mestre, a orientação.
Aulas teóricas e práticas
Meninos do 5º ao 9º ano
Apostila e CD’s recebidos
O professor declamando
Kit com vários cordéis
E o jeito, eles iam pegando.
Mirtes Holanda do Vale
4 escolas nos quatro cantos
Tinha Nely de Lima e Melo
E Ana Albuquerque Campos
Joana Vasconcelos de Oliveira
Lá o cordel deixou encantos.
Patativa do Assaré
Uma fonte de inspiração
Leandro Gomes de Barros
E outros de grande expressão
Ajudaram a fazer as sextilhas
E observar a metrificação.
Seis estrofes em cada verso
Rimas no 2º, no 4º e no 6º
Paulo de Tarso dizia:
“Assim é mais fácil fazer o texto”
E as crianças cumpriam
Tudo dentro do contexto.
Entre os textos do livro
Há 20 adaptações
De obras já escritas
Após leituras e abstrações
Mais seis poemas autorais
Completam as composições.
Tem tema de gente grande
Criança sabe, sim senhor!
Exemplo de Adhalya Almeida
Que o racismo “condenô”
“Não discrimine o irmão”
Disse ela, com louvor.
O pequeno Fernando Dantas
Incentivou a preservar
“Vamos caçar papagaios”
Mas é pro campo levar
Cuidar do meio ambiente
A fauna na flora deixar.
Antigas histórias infantis
Agora viraram cordel
“A lebre e a tartaruga”
Em um pedaço de papel
O garoto Weverton Campos
Fez uma representação fiel.
Tem neo-cordelista
Que já quer ser escritora
Aos dez anos de idade,
Dayana Sousa é sonhadora
“É um objetivo”, diz ela
Das letras, admiradora.
Paulo de Tarso acredita
“Sairão alguns escritores,
basta um empurrãozinho”
Fala ele dos amadores
“Dos seus próprios textos,
podem virar criadores”.
Para o prefeito de Pacatuba
Que é Zezinho Cavalcante
O incentivo à leitura
É o ponto mais importante
Para a qualidade do ensino
Melhorar a cada instante.
Como em todo o Ceará
O prefeito reconhece
Dificuldade de leitura
Em Pacatuba acontece
“O ensino foi universalizado”
Essa conquista, esclarece.
Já Francisco Monteiro,
Secretário de Educação,
Diz que nos próximos anos
Vai haver universalização
E o projeto chegar
Às 33 escolas da região.
Inclusive em 2008
Já haverá novidade
Além dos quatro colégios
Entra mais uma unidade
Na Ângela Costa Campos
O cordel será realidade.
A partir de amanhã
Começam as inscrições
Cerca de 160 alunos
Devem fazer as lições
Do 5º ao 9º ano
O cordel despertará paixões.
Quem fez o curso em 2007
Este ano, poderá continuar
É mais uma chance pra eles
De o próprio cordel melhorar
E os novos colegas de turma
A ler e escrever, incentivar.
ÍCARO JOATHAN
Especial para o Regional

PAZ E UNIÃO
Diga não ao racismo
As origens do racismo
Tem fatores sociais,
Políticos e econômicos
Entre todos desiguais
Que não respeitam os outros
E pensam que são rivais

Por conta disso tivemos
Muito sangue derramado
Um Japão após a guerra
Quase todo destroçado
E hoje vemos um Bush
Atirando em todo lado.

Acredite com amigo
Faça-me esse favor
Divulgue por onde andar
Ninguém é superior
Precisamos é pregar
Nessa terra muito amor.

Não discrimine o irmão
Só porque é diferente
Racismo não leva a nada
Seja também consciente
Pregue a paz e a união
Viva assim bem mais contente.

Todo racismo é crime
Denuncia, faça valer
Todas as leis existentes
Que procuram combater
“Corte o mal pela raiz”
e não deixe isso crescer.

Muitos problema nós temos
Nesse torrão brasileiro
Mostre para seus amigos
Servindo de conselheiro
Que nada ganhará
Sendo ladrão ou gangueiro.

No projeto de cordel
Eu aprendi escrever
E aqui em Pacatuba
Eu irei, sim, combater
Mostrando para todo mundo
A que eu pude aprender.

Nosso Deus superior
Nos dotou com a verdade
Portanto, vamos pregar
Com toda boa vontade
Muita paz e união
Entre todos a amizade.

ADHALYA ALMEIDA
Especial para o Regional

DILETO CIDADÃO
Aventuras do Barão de Munchausen

Agora vou lhes falar
De um cara bem doidão
Munchausen é conhecido
Como um grande barão
Um sujeito muito bom
Que ajuda a população.

Quando os fiapos da barba
Começaram a crescer
No início da juventude
O mundo foi conhecer
Pois ele precisava na vida
Procurar o que fazer.

Encontrou no seu caminho
Uma mulher educada
Que disse: “A minha sede
Precisa ser saciada”
Eu cheguei pertinho dela
E disse: “Obrigado fada”.

Nossa viagem foi boa
Só tive um incidente
Uma forte ventania
Saiu levando a gente
Esbarramos numa árvore
Que nos deixou descontente.

Depois de muito ajudar
À toda população
Fio caçar com uns amigos
Ma um imenso leão
Apareceu na sua frente
Estava sem munição.

O leão tava com fome
Tinha sim que dá no pé
Mas só que tinha atrás
Um valente jacaré
O Barão feito um carro
Saiu sim, de marcha ré.

O Barão saiu correndo
Atrás da população
Tinha na mão um revólver
Mas faltava munição
Isso é mais que verdade
Não é nenhuma invenção.

Nisso podem acreditar
Foi um caso de verdade
O Barão além de bom
Usava sinceridade
Na Rússia fez para o povo
Uma imensa bondade.

Teve muitas coisas mais
Desse importante Barão
Homem que na sua época
Fez grande revolução
Mas era sim, com certeza:
Um dileto cidadão.

EDVAN AQUINO
Especial para o Regional

O QUE ELES PENSAM
Escola comemora o trabalho
“Escolhi escrever o cordel ´Ali Babá e os 40 ladrões´ porque o livro trouxe uma história que eu considerei como a mais legal entre os encontrados na biblioteca. Deu muito trabalho fazer todas as estrofes, mas o professor Paulo de Tarso me ajudou, ensinando direitinho. Ele foi aperfeiçoando o meu poema. Com certeza, vou continuar fazendo cordel, quero escrever mais”.
Diogo Sousa Pereira - Estudante
“A história que escolhi para fazer na forma de cordel foi sobre ´As aventuras do Barão de Munchausen´. Eu e meus colegas de turma visitamos a biblioteca várias vezes, onde havia vários livros, e gostei mais desse. Fiquei muito satisfeito em ver o meu nome publicado no livro. Meus pais também me disseram que era um bom desempenho e ficaram orgulhosos de mim”.
Edvan Aquino - Estudante
“Considero uma vitória muito grande que esses 22 estudantes tenham concluído o curso de Literatura de Cordel, visto que nem todos os que começaram gostavam de ler. No prefácio de ´Fábulas e Contos em Cordel´, produzido pelos alunos e lançado em janeiro deste ano, destaco que a semente foi plantada e, se as árvores forem regadas, darão bons frutos. Este é o nosso objetivo”.
Paulo de Tarso - Professor
“Li o livro ´A formiga e a cigarra´ e gostei muito, por isso, fiz meu versos de cordel sobre ele. Achei muito divertido o trabalho e mais ou menos fácil escrever os versos. Antes de fazer o curso, eu já gostava de ler. Minha tia tem um monte de frases de poemas, e eu sempre lia. Pretendo continuar lendo e escrevendo novas histórias. Meu objetivo é um dia ser uma escritora”. Dayana Maria Vieira – Estudante

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Cordel e educação



“MARTELO PERGUNTADO”, “NÓ APERTADO” E A "RÁDIO MUNDO CORDEL"

O post anterior, que fala das visitas de poetas ao Mundo Cordel, mereceu comentário do blogueiro e escritor GILBAMAR, autor do blog GILBAMAR, POESIAS E CRÔNICAS.

Em seu comentário, Gilbamar dá exemplo de humildade ao manifestar seu desejo de:

“registrar, muito feliz,que a receita de cordel feita pelo talentoso Mundim do Vale foi bastante proveitosa para mim. Embora os meus cordéis ainda não tenham esse tempero tão equilibrado e de qualidade, que torna a poesia pura e encantadora, vou aprendendo com vocês,os mestres. Grande abraço, extensivo ao vate Mundim do Vale”

Quem já visitou o blog de Gilbamar sabe o quanto ele é bom, tanto na prosa como na poesia.

Mas já que estamos falando de receita para fazer poesia, uma coisa interessante de se observar na poesia popular é a variedade de gêneros, com rigorosas regras de métrica e de rima, e até mesmo de oração. É como se os poetas criassem dificuldades para eles mesmos, apenas para testar sua capacidade de transmitir suas idéias e sentimentos em um formato rígido de escrita.

Por exemplo: o martelo perguntado, que é uma versão do martelo agalopado, mas no qual, em uma estrofe, um cantador faz perguntas, e na seguinte, o outro cantador as responde.

Não sei se o mais difícil é perguntar ou responder, mas fica muito interessante. Para mostrar um exemplo, implanto uma novidade em Mundo Cordel, a Rádio Mundo Cordel, e apresento um trecho de um MARTELO PERGUNTADO feito pelos Nonatos:



Outro exemplo interessante desse tipo de poesia é encontrado no CD “Acorda Cordel na Sala de Aula”, de Arievaldo Viana. É o “nó apertado”, que a Rádio Mundo Cordel mostra, na composição de Zé Maria de Fortaleza e Jocélio:



Dá pra imaginar a complicação de se fazer poesia dessa forma, mas a criatividade de nossos poetas está acima dessas coisas, e tudo acaba ficando muito divertido.
Veja outros posts sobre a técnica de fazer cordel: