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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Comentário de José Romero ao cordel de Antonio Francisco


As causas da fome na visão 
do cordelista Antônio Francisco
José Romero Araújo Cardoso
Geógrafo e Professor da UERN

A desnutrição crônica é um drama que aflige milhares de pessoas em todo mundo, sobretudo na mais carente região do planeta, conhecida por terceiro mundo desde que o demógrafo francês Alfred Sauvy enfatizou classificação conforme o grau de desenvolvimento dos países, tomando como referência os estamentos da Assembléia Nacional Francesa pré-revolucionária.


A voz de um brasileiro que se tornou cidadão do mundo denunciou o flagelo da fome como produto da exploração do homem pelo homem. Josué Apolônio de Castro se notabilizou pela intransigência com que defendeu o acesso pleno de toda a população do globo a uma quota alimentar diária compatível à dignidade humana, exigindo a abolição dos contrastes que separam ricos e pobres. Pregou ainda, com entusiasmo, a adoção de um modelo sócio-econômico que privilegiasse o verdadeiro desenvolvimento humano sem agredir o meio ambiente.


A Coleção Queima-Bucha de Cordel nº 21 destaca uma preciosidade da cultura popular com profundos vínculos com a mesma essência que marcou a produção científica de Josué de Castro. Tem o título de A Casa que a Fome mora, de autoria do menestrel da Literatura de Cordel mossoroense de nome Antônio Francisco.


Buscando o rosto da fome, o autor envereda nas trilhas da exclusão, intuindo encontrar àquela que tantos estragos tem causado à vida dos marginalizados. Em aglomerados sub-normais tenta a todo custo identificar o verdadeiro e real sentido que enfatiza suas causas, não o percebendo em razão deste não estar vinculado à decisão daqueles que estão à margem dos benefícios do processo e construção social.


Os efeitos são identificados através de semblantes destroçados pelo doloroso drama que assola a humanidade, mas a casa onde a fome mora passa longe dos guetos, becos e vilas das favelas tristemente célebres como cenários de dor e desilusão.


Há de ressaltar que quando da publicação de Geografia a Fome, em 1946 e da Geopolítica da Fome, em 1951, havia maior parcela da população terceiromundista habitando a zona rural, ao contrário de hoje, quando países como o Brasil apresenta mais de 80% de seus habitantes no espaço urbano, o que personifica verdadeiro caos em que a desnutrição assume papel preponderante dentro dos problemas sociais verificados na conjuntura.


Antônio Francisco, com invulgar brilhantismo, primando por sua indisfarçável preocupação humanitária, esboça o pavor de quem enxerga com clarividência as distorções interclasses como os mais graves distúrbios sociais responsáveis pela fome e pela miséria que encarcera seres humanos com sonhos e anseios nos grilhões da exclusão fabricada perversamente a fim de garantir a manutenção do status quo, dos privilégios de uma minoria acintosamente beneficiada.


O cordelista, afinal, consegue identificar a casa onde a fome mora, caracterizada pela opulência e pela ganância, estruturada na injustiça e no descaso com os dramas dos semelhantes. A fome aparece como uma mulher divinamente bem vestida, bem nutrida, ao contrário do que imaginava, não era magricela e nem desdentada, mas muito formosa e cheia de vida, alimentada com os frutos perniciosos auferidos com a corrupção e com a falta de amor ao próximo.


Não é nas favelas onde a casa da fome se localiza, mas na high society, no circuito poderoso que abriga os donos do poder, de cujos pensamentos se voltam plenamente à manutenção da continuidade da exclusão como forma de garantir privilégios, dando ênfase a métodos escusos e desprovidos a fim de implementar tal tendência universal.




A CASA QUE A FOME MORA
Antonio Francisco
Coleção Queima-bucha de Cordel, Mossoró-RN, Outubro de 2006


Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão,
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe vi a cor
Da casa que a fome mora:


Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmãos dos raios da lua,
Com as costas semi-nuas
Tatuadas de caliça
Pedindo um pão da justiça
Do outro lado da rua.


Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão


Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela,
O jejum numa janela
Dizendo: aquí ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas, não vi o rosto dela.


Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava
Amolecia e matava
E ninguém matava ela?


No outro dia eu saí
De novo á procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.


Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?


Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome.
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.


Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pros bolsos dos marajás
E me escondo por tráz
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população.


Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida,
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.


Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas
Nunca vão me encontrar,
Eu vou continuar
Usando meu terno xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da burrice de vocês.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Poeta da Saudade

Antônio Pereira de Moraes – O Poeta da Saudade
José Romero Araújo Cardoso

      Conhecido como o poeta da saudade, Antônio Pereira nasceu a 13 de novembro de 1891, no sítio Jatobá, hoje município de Itapetim, onde viveu até a morte, a 07 de novembro de 1982. Violeiro e poeta popular, ele mal assinava o nome e nunca fez da arte a sua profissão, tendo sobrevivido como modesto agricultor.

       Antônio Pereira participava de jornadas de improviso apenas com os amigos e os seus versos sobreviveram ao tempo porque eram repassados verbalmente pelos seus admiradores que os decoravam. Em 1980, com a ajuda de amigos, publicou seu único folheto, "Minhas Saudades", uma coletânea de sua poesia.

Alguns versos do poeta:

Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai.

Saudade tem cinco fios
Puxados à eletricidade,
Um na alma, outro no peito,
Um amor, outro amizade,
O derradeiro, a lembrança
Dos dias da mocidade.

Saudade é como a resina,
No amor de quem padece,
O pau que resina muito
Quando não morre adoece.
É como quem tem saudade
Não morre, mas adoece.

Adão me deu dez saudades
Eu lhe disse: muito bem!
Dê nove, fique com uma
Que todas não lhe convêm.
Mas eu caí na besteira,
Não reparti com ninguém.

No Silêncio da Saudade
Quem ama sofre calado,
Ausente de seu amor!
Tornando-se um sofredor…
Porque não ver ao seu lado,
Seu coração é magoado!

Pra viver não tem ação…
Seu mundo vira ilusão…
A tristeza a mente invade…
No silêncio da saudade!
Só quem fala é o coração.

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Se a saudade matasse/
No túmulo eu já vivia/
Há muito eu já residia/
Mas continuo no impasse/
Se o meu amor voltasse/
Essa saudade morria/
A mim não pertubaria/
A vida era um mar de rosa/
Cantando e falando prosa/
Na vida eu tinha alegria…/

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Quem ama sofre calado/
Seu peito é triteza e dor/
Tornando-se um sofredor…/
Porque não tem ao seu lado,/
Seu amor mais desejado/
Pra viver não tem ação…/
Seu mundo vira ilusão…/
A tristeza a mente invade…/
No silêncio da saudade!/
Só quem fala é o coração./
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