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terça-feira, 2 de março de 2010

Glosa de Maviael Melo

MAVIAEL MELO GLOSANDO O MOTE:
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

Quando a noite acordou tava cansada
A Rainha chamou seu Malaquias
Ele veio depois de treze dias
E chegou já na alta madrugada
Vendo o Rei conduzindo uma boiada
Virgulino correu para o Capão
Na boleia de um velho caminhão
Vendedor de vassouras piaçava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão



Vi Orlando chamando a princesa
Disfarçada de jia na lagoa
E correndo voltou pra João Pessoa
Josemar tropeçou no pé da mesa
Uma luz se apagou, ficou acesa
Uma vela fingiu ser lampião
Pé de Serra só presta no São João
Com cachaça, feijão, mulher e fava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão


Já chegando quase em Serra Talhada
Eu comprei um jumento meio môco
Num desvio da estrada veio um louco
Me vendendo um prato de coalhada
Vomitado de uma vaca malhada
Três galinha, um guiné e um pavão
Faltou lenha, trás água pro fogão
Quando eu disse que tava, já num tava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

João Batista um dia andou de trem
Quando ainda estudava na católica
Jubilou-se por causa de uma cólica
Que ganhou em prato de xerém
Na janela do velho armazém
Fez teatro imitando um azulão
Deu um salto e caiu de um mosquetão
De um menino zambeta que atirava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

Meia noite a coruja de seu Bento
Que ainda nem Papa era formado
Acordou com o olho esbugalhado
E pediu um asilo num convento
Na poeira que trouxe o pé de vento
Papagaio era um velho capitão
Tomou duas bicadas no balcão
E uma muda pra ele insinuava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

Comovido com a falta de vergonha
Porque Pedro negou a sua origem
Se trancou em quarto com uma virgem
E fumou quase um quilo de maconha
Doze meses depois uma cegonha
Tava a venda no mêi de um sacolão
Um pepino, uma cenoura e um pimentão
Enterrado numa velha que gritava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

Quando Pedro segundo era o primeiro
Sua pernas corriam pra danar
Acordou com vontade de mijar
Deu a volta no Rio de Janeiro
Sua mãe, dona Helena o dia inteiro
Aprendia a dançar xote e baião
Foi donzela num meio de um salão
Quando alguém lhe pedia ela não dava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão

Jesus Cristo ainda era um menino
Quando viu a primeira gravidez
Três vez sete contando é vinte e três
Badaladas sem rimas de um sino
Na trombeta do tempo o destino
Guia as bestas cantando em procissão
São Miguel dedilhava o violão
E o padre João Paulo nem cantava
Eu pequeno meu pai já me ensinava
Zé Limeira era o Rei desse sertão.


Fonte: Jornal da Besta Fubana (http://www.luizberto.com/?p=105741)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Poesia se aprende?



COMENTÁRIO DE ANIZÃO

Respondendo o post "Sextilha anônima", o poeta //Anizão, frequentador assíduo deste MundoCordel fez o seu comentário em verso. Vale a pena conferir. Boa, //Anizão, seja sempre bem vindo!


Versos não sei ensinar

Como eu aprendi eu não sei

Mas sem querer ensinei

A muitos temas glosar

É como ensinar amar

Que não existe uma escola

E nas provas não tem cola

Mas o coração aprende

E o amor nos supreende

As vezes até extrapola.


//Anizio, 27/02/2010

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cordel e repente...


Desenho obtido no site http://www.stickel.com.br/atc/coisas/2711, de Fernando Stickel
LÁGRIMAS DE UM CANTADOR CEGO

Uma bem curtinha, do colaborador RICARDO PIAU, de Juazeiro do Norte:

Não sei se já te mandei isto, mas acho uma das estrofes mais bonitas que já vi. Ouvi em um programa do Dílson Pinheiro.

O Dílson conta que um determinado cantador era cego, e estava numa cantoria homenageando sua mãe, que completava noventa anos naquela data.

Depois de muitas homenagens, um amigo chegou ao ouvido do cantador e falou que sua mãe estava chorando de tão emocionada.

O cantador pegou a viola e mandou:

Tão vendo aquela velhinha
Enrolada no seu manto
Com os olhos rasos d'água
Lavando a mágoa em seu pranto?
Cantava quando eu chorava
Hoje chora quando eu canto


Ricardo Morais

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Cordel e repente





POESIA INDO E VOLTANDO

Ainda sobre grau de dificuldade dos estilos das poesias, devo confessar que também tenho atração por esses desafios. Outro dia me deu na idéia de fazer uma estrofe de martelo agalopado que pudesse ser cantada tanto de cima para baixo como de baixo para cima, ou seja, que os versos pudessem ser cantados na ordem inversa, sem perder o sentido. Aí fiz o seguinte:

Poesia pra dizer indo e voltando
Não é coisa para qualquer um fazer.
É preciso o poeta conhecer
O mistério de falar sempre rimando,
Com destreza as palavras ir juntando,
E falar da sua dor com alegria,
Misturar realidade e fantasia,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente.
É preciso um poeta inteligente
Pra dizer indo e voltando a poesia.

Pra dizer indo e voltando a poesia,
É preciso um poeta inteligente,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente,
Misturar realidade e fantasia,
E falar da sua dor com alegria,
Com destreza as palavras ir juntando.
O mistério de falar sempre rimando,
É preciso o poeta conhecer .
Não é coisa para qualquer um fazer,
Poesia pra dizer indo e voltando.

Passaram-se vários dias, acho que uns dois meses, e voltei a abrir o arquivo para ver o que havia nele. Quando li os versos acima, senti como se fosse outro poeta que os houvesse escrito. Então respondi:

O poeta mostra do que é capaz
Ao fazer a poesia desse jeito.
Quando eu não sabia nem falar direito,
Já cantava assim como você faz.
Já rimava para a frente e para trás,
Já sabia fazer versos recuando.
Eu já tinha das palavras o comando,
Antes de fazer três anos de idade.
Não me causa a menor dificuldade
Essa sua poesia indo e voltando.

Essa sua poesia indo e voltando
Não me causa a menor dificuldade.
Antes de fazer três anos de idade,
Eu já tinha das palavras o comando.
Já sabia fazer versos recuando,
Já rimava para a frente e para trás,
Já cantava assim como você faz,
Quando eu não sabia nem falar direito.
Ao fazer a poesia desse jeito
O poeta mostra do que é capaz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Rap e repente


ENCONTRO DE RAPPERS E REPENTISTAS

Chegou às minhas mãos hoje, por obra do meu amigo Eduardo Moreira, o folder informativo do RAP-REP, I ENCONTRO NACIONAL DE RAPPERS E REPENTISTAS, marcado para os dias 26 a 28 de outubro deste ano de 2007.
Achei a idéia muito interessante. Afinal, embora haja diferenças quanto à forma, em ambas as manifestações estão presentes a improvisação e a temática popular.
Os interessados eM maiores informações podem clicar no link
Rap Rep - Encontro Nacional de Rappers e Repentistas.
Segue um trecho do site do evento:

Rap & Rep

Os beats do hip-hop se encontram com os motes da cantoria entre os dias 26 a 28 de outubro, em Campina Grande, na Paraíba. Conhecida pelo Maior São João do Mundo e pelo internacional Encontro Para Nova Consciência, Campina, a 120 km da capital João Pessoa, irá sediar o I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas, que ganhou o apelido de 'Rap & Rep'.O evento, o primeiro do gênero no país, é promovido pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Governo da Paraíba, por meio da Subsecretaria de Cultura do Estado e com apoio cultural da Petrobras.Em quatro dias, estarão em Campina Grande, no Spazzio, nomes importantes do universo do hip-hop, como Zé Brow, Nelso Triunfo, Marechal, Z`Africa Brasil, Gabriel O Pensador e Gog, e da cultura popular, como Oliveira de Panelas, Cajú e castanha, Cabruêra, Selma do Côco e As 'Ceguinhas' de Campina (as irmãs protagonistas de 'A Pessoa É Para o Que Nasce'), entre tantos outros.A idéia do I Rap & Rep é mostrar que gêneros aparentemente tão distintos têm muito mais em comum do que nós pensamos. Assim a rima e a poesia, a dança de rua, a discotecagem e o graffiti irão coexistir junto com a embola, o cordel e o próprio repente.Tudo isso em meio a uma grande feira de música e informação, com shows, oficinas e debates, com acesso gratuito ao público.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cordel e atualidades

Foto: FolhaOnLine

DEPOIS DA PREFEITURA SEM PREFEITO, O MINISTRO SEM MINISTÉRIO


Vejam como são as coincidências da vida. Mal acabei de postar a poesia PREFEITURA SEM PREFEITO, de Patativa do Assaré, logo me aparece um ministro sem Ministério. O jeito foi transformar isso em verso:


MINISTRO SEM MINISTÉRIO

Patativa um dia viu,
Mas não ficou satisfeito,
Prefeitura sem prefeito,
E seu protesto emitiu.
Mas, hoje, em nosso Brasil,
Acontece outro mistério,
Que talvez seja mais sério,
Ou talvez até mais triste,
Descobri que agora existe
Ministro sem ministério.

“Por não ter literatura”,
Patativa já dizia,
Não saber se existia
Prefeito sem prefeitura.
Nem eu, com minha cultura,
E anos de magistério
Conheci tal despautério
Que agora fiquei sabendo,
De em Brasília estar havendo
Ministro sem ministério.

O Ministério, em verdade,
Era uma Secretaria
Mas o Senado iria,
Mudar a realidade:
Extinguiu a entidade
Mandou para o cemitério.
Como efeito deletério
Pro Secretário-Ministro
Esse título sinistro:
Ministro sem ministério.

Assim como Patativa
Não vou mais me admirar
Se acaso eu encontrar
Alguma defunta viva,
Uma boca sem gengiva,
Satanás num monastério,
Carnaval no necrotério,
Macaco guiando trem,
Pois no Brasil sei que tem
Ministro sem Ministério.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Cordel e repente II


DE JUAZEIRO DO NORTE A BRASÍLIA, CORDEL E REPENTE SEMPRE ENCONTRAM SEU ESPAÇO, QUALQUER QUE SEJA A TECNOLOGIA


Volto ao tema “Cordel e Repente” para dizer que o que, dentre os aspectos comuns dos do cordel e do repente, observa-se é que cordelistas e repentistas utilizam-se das mesmas formas, ou seja, decassílabos, sextilhas, sétimas e outras formas (O site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC - relaciona as principais).


Além disso, assim como as cantorias, o cordel tem uma grande tradição oral, pois, em uma época na qual poucos tinham a habilidade da leitura, muitos decoravam os versos e repassavam declamando ou cantando, como testemunha o poeta Arievaldo Viana ao contar que a avó Alzira de Souza Lima costumava ler os folhetos em voz alta "para deleite de crianças e adultos" (Acorda Cordel, Editoras Tupinanquim e Queima Bucha, 2006, p. 15).


Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, define estes como “poetas populares que perambulam pelos sertões, cantando versos próprios ou alheios; mormente os que não desdenham ou temem o desafio, peleja intelectual em que, perante o auditório ordinariamente numeroso, são postos em evidência os dotes de improvisação de dois ou mais vates matutos” (Cantadores, ABC Editora, 2002, 7ª Edição, p. 3).


De fato, o que se observa é que, mesmo os cantadores versados na arte da improvisação, costumam cantar versos “decorados”, ou seja, guardados na memória. Na medida em que esses versos são vertidos para o papel, nos já comentados folhetos, transformam-se em Literatura de Cordel.


Há quem diga, porém, que todo cordelista tem um pouco de repentista. O poeta Napoleão Maia Filho me disse isso certa vez, e não duvido, pois conheço cordelistas, como o já aqui citado Valdir Fernandes Soares, que, mesmo sem se declarar repentista, faz versos dos mais variados temas, em poucos minutos.


Eu mesmo, já tive algumas experiências bem interessantes, principalmente em abertura e encerramento de eventos, como na solenidade de Revitalização da Lira Nordestina, quando, ao receber a palavra, que me foi passada pelo amigo André Herzog, Reitor da Universidade Regional do Crato, me expressei assim:



É grande a alegria
Que me invade nesta hora,
Quando já se foi o dia
E a noite não fez demora.
Pois não fosse a poesia,
O que mais é que faria
Estarmos aqui, agora?

Porque os versos são mais
Que tinta sobre papel.
São emoções que abrandam
Todo esse mundo cruel.
Brilhando em nossa cultura,
Quem mais que a literatura,
Do nosso lindo cordel?

Por isso, caros amigos,
Aqui me faço presente,
Pra falar da emoção
Que todo poeta sente
Quando vê autoridades
Unirem suas vontades
Em favor da nossa gente.



Outra oportunidade interessante ocorreu em março de 2006, quando estive em Brasília, para participar de um programa de televisão. Chegando ao hotel onde iria ser gravada a entrevista, lá estava o ator cearense José Wilker, que estava na Capital Federal gravando a minissérie “JK”, na qual ele interpretava Presidente Juscelino. Ao vê-lo, a repórter Rafaela Vivas Cardoso, que me entrevistaria, perguntou se eu faria versos tendo o presidente como tema. Perguntei: “O presidente ou o ator?”; e ela respondeu: “Os dois”. Menos de uma hora depois que a entrevista terminou, estavam prontos os versos abaixo, os quais pus em um envelope e pedi ao rapaz de recepção que entregasse a José Wilker:



Eu estava em Brasília, outro dia,
Divulgando a poesia de cordel,
Quando, na recepção de um grande hotel,
Percebi que um artista ali havia,
Cuja arte não é bem a poesia,
Mas nos toca igualmente a emoção.
No teatro ou na televisão,
Era um grande ator que ali estava,
Sendo que, pelo seu jeito, aguardava
A equipe que faria a gravação.

Mas o fato que fez a situação
Se tornar ainda mais interessante
Foi sentir que, naquele mesmo instante,
Ocorreu-me a seguinte impressão:
Que, olhando para aquele cidadão,
Ao invés de ver apenas o artista,
Era como se eu pousasse a minha vista
Na pessoa desse grande personagem
Que o ator representa na filmagem
Para que, na TV, a gente assista.

De quem falo, já foi capa de revista,
Só novela já fez bem umas cinqüenta.
Hoje, numa minissérie, representa
Um mineiro que foi grande estadista;
Que na sua trajetória progressista
Nos mostrou como um homem competente
Fez o nosso Brasil andar pra frente,
Dirigiu o país com muito amor.
Olhei para José Wilker, o ator,
E enxerguei JK, o presidente.

Alguém tinha me falado, antigamente,
Que um grande ator é desse jeito.
Atuando de um modo assim perfeito,
Faz confusa dessa forma nossa mente.
Mesmo quando o ator, fisicamente,
Não parece tanto assim com o personagem,
Ele adota a postura e a linguagem
E mergulha na história com fervor.
Foi assim que José Wilker, o ator,
Se tornou de Juscelino a imagem.

Para ir finalizando essa homenagem
A Zé Wilker e também a Juscelino,
Eu aplaudo o sorriso de menino,
O sucesso, o trabalho e a coragem.
Quando eu iniciei essa viagem
Não pensei que estaria reservado
Um encontro assim, tão inusitado
Entre eu, o ator e o presidente.
José Wilker, parabéns pelo presente.
Juscelino, parabéns pelo passado.



Versos assim são feitos realmente em alta velocidade, mas nada que se compare aos repentes de Ivanildo Vilanova, Zé Luís (de Mossoró), ou dos Nonatos, que já fizeram repente até com o mote “O planeta movido à Internet/ É escravo da tecnologia”, criando maravilhas como:


O visor como tela de TV,
O teclado acessível como book
Pra maiúsculo ou minúsculo é Caps "Look" (Lock)
Pra mandar imprimir é Control P
Com o micro'' Sansung e LG
e os programas que a Apple financia
A indústria da datilografia
nunca mais vai fazer máquina Olivetti
E o planeta movido a internet
é escravo da tecnologia



Quem se pluga em milésimo de segundo
E se conecta ao portal e seus asseclas
Basta apenas tocar numa das teclas
que o visor nos transporta a outros mundos
Desde a terra dos solos mais fecundos
Ao espaço onde o vácuo se inicia
Quem formata depois cola, copia
e prende o mundo na grade de um disquete
O planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

A indústria se auto-destruindo
Descartou o compacto e LP
Veio o surto da febre do CD
e DVD mal chegou e já está saindo
MD não há mais ninguém pedindo
Nu''a DAT gravar ninguém confia
Fita BASF tem pouca serventia
e ninguém quer mais nem ver videocassete
E o planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Brasil SAT é mais uma criação
que nos nossos vizinhos deu insônia
O Sivam espiona a Amazônia
evitando que haja outro espião
É por via satélite a transmissão
que não tem transmissão por outra via
Uma antena seqüestra a sintonia
pra DirecTV, Sky e Net
O planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Transatlânticos no mar fazem cruzeiros
E pelos micros das multinacionais
Hoje tem conferências virtuais
com os executivos estrangeiros
O email é correio sem carteiros,
tanto guarda mensagem como envia
Os robôs usam chip e bateria
e videogame é brinquedo de pivete
E o planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Cibernética na prática e no papel
deixa os seres online e ganham IBOPE
Com Word tem Palm e laptop
e ainda mais PowerPoint e Excel
É possível quem mora em Israel
pelo Messenger teclar com a Bahia
Se os autômatos ganharem rebeldia
tenho medo que a máquina nos delete
O planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Pra prever terremotos e tufões
os sismógrafos têm números numa escala
E o trem-bala é veloz como uma bala
numa linha arrastando dez vagões
No Japão e na China as construções
já suportam tremor e ventania
Torre, ponte, edifício, rodovia
são perfeitos do jeito da maquete
E o planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Nosso pouso na lua foi suave,
um robô foi a Marte e se deu bem
Estão querendo ir ao Sol, mas o Sol tem
de calor um problema muito grave
Mas a NASA não tem espaçonave
que suporte essa carga de energia,
Se for feita de fibra, se desfia,
e de alumínio o monstrengo se derrete
O planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Motorola trocou técnica e conselho,
Nokia e Siemens galgaram patamares
Já estão fora de moda os celulares
que têm câmera e visor infravermelho
Reduzindo o tamanho de aparelho,
a Pantech fez mais do que devia
Que a memória de um chip não podia
ser mais grossa que a lâmina de um Gillete
E o planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

Hoje a Bombardier não fere as leis
e a Embraer mãe de Sênecas e Tucanos
Invísivel aos radares há dois anos,
já existe avião que a Sukhoi fez
É da Nasa o XA-43
que voando tem mais autonomia
Um piloto automático opera e guia
o Airbus e o 747
O planeta movido a internet
é escravo da tecnologia

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Cordel e repente



O DESAFIO DA PACA CARA, DE CEGO ADERALDO

Outro dia alguém me perguntou a diferença entre cordel e repente. Respondi, sem pensar muito, que o cordel é a poesia popular que se caracterizou como tal pelo fato de ser publicada em folhetos, enquanto o repente é a poesia feita pelos cantadores, os quais geralmente recebem da platéia um tema, chamado MOTE, e o desenvolvem na hora. Também é muito comum os repentistas fazerem desafios, nos quais cada um exalta suas qualidades e depreciam o colega.

Um desafio famoso é aquele que teria ocorrido entre o Cego Aderaldo e Zé Pretinho, quando Aderaldo deixa difícil a situação de Zé Pretinho com o trava língua da “Paca Cara”. Vejamos um trecho:


Zé Pretinho (P.)

— Eu vou mudar de toada,

Pra uma que mete medo

— Nunca encontrei cantador

Que desmanchasse este enredo:

É um dedo, é um dado, é um dia,

É um dia, é um dado, é um dedo!


Cego Aderaldo (C.).

— Zé Preto, esse teu enredo

Te serve de zombaria!

Tu hoje cegas de raiva

E o Diabo será teu guia

— É um dia,é um dedo, é um dado,

É um dado, é um dedo, é um dia!

P.
— Cego, respondeste bem,

Como quem fosse estudado!

Eu também, da minha parte,

Canto versos aprumado

— É um dado, é um dia, é um dedo,

É um dedo, é um dia, é um dado!


C.
— Vamos lá, seu Zé Pretinho,

Porque eu já perdi o medo:

Sou bravo como um leão,

Sou forte como um penedo

É um dedo, é um dado, é um dia,

É um dia, é um dado, é um dedo!

P.
— Cego, agora puxa uma

Das tuas belas toadas,

Para ver se essas moças

Dão algumas gargalhadas

— Quase todo o povo ri,

Só as moças 'tão caladas!

C.
— Amigo José Pretinho,

Eu nem sei o que será

De você depois da luta

— Você vencido já está!

Quem a paca cara compra

Paca cara pagará!

P.
— Cego, eu estou apertado,

Que só um pinto no ovo!

Estás cantando aprumado

E satisfazendo o povo

— Mas esse tema da paca,

Por favor, diga de novo!

C.
— Disse uma vez, digo dez

— No cantar não tenho pompa!

Presentemente, não acho

Quem o meu mapa me rompa

— Paca cara pagará,

Quem a paca cara compra!

P.
— Cego, teu peito é de aço

— Foi bom ferreiro que fez

— Pensei que cego não tinha

No verso tal rapidez!

Cego, se não é maçada,

Repete a paca outra vez!

C.
— Arre! Que tanta pergunta

Desse preto capivara!

Não há quem cuspa pra cima,

Que não lhe caia na cara

— Quem a paca cara compra

Pagará a paca cara!

P.
— Agora, cego, me ouça:

Cantarei a paca já

— Tema assim é um borrego

No bico de um carcará!

Quem a caca cara compra,

Caca caca cacará!

Eis aí um desafio, feito no Repente, que, salvo engano, depois foi publicado em cordel.
O fato que as duas expressões da poesia popular - cordel e repente - têm muito em comum, usando muitas vezes as mesmas formas, com decassílabos ou sextilhas, e abordando toda espécie de assuntos. Sem contar que às vezes o cordel é feito em tal velocidade, que é quase um repente.

Voltarei ao tema no próximo post.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O cordel e os clássicos da literatura


GLOSA E MOTE DE LUÍS DE CAMÕES


Depois de pedir a benção de Dante Alighieri, não posso deixar de render homenagens ao grande português, em cuja obra encontram-se motes, glosas, redondilhas, oitavas e tantas outras formas que até hoje influenciam a literatura de cordel e o repente.


Vejamos, por exemplo, o mote:
De vós quererdes meu mal
Me vem podê-lo sofrer.


Mote duplo, em sete sílabas, em cuja glosa observar-se-á que o glosador faz duas estrofes, a primeira fechando com o primeiro verso e a segunda com o segundo. Faço esse destaque porque, em nossa literatura de cordel, é mais comum encontrarmos o mote duplo ocupando as duas últimas linhas de cada estrofe. Vamos à glosa de CAMÕES:


De tantas penas cercado

Gozo de um bem que já tive

Que o que me é menos pesado

É ponderar que ainda vive

Um amor tão mal pagado,

A causa deste tormento,

Sem vós, me fora mortal;

Daqui vem que, em dano tal,

Só tenho o contentamento

De vós quererdes meu mal.


De vós quererdes meu mal

Vem o querer esta vida,

Porque a dor de tal ferida,

Posto que em si é mortal,

Fica assi[m] menos sentida.

Eu tenho a dor desta pena

Que me vós fazeis querer,

E, posto que me condena,

De ver que se me ordena

Me vem podê-la sofrer.


E, pra quem ainda não sabia, ele também criava em castelhano. Vejamos o mote:

Ojos, herido me habéis,

Acabad ya de matarme;

Mas, muerto volved a mirarme,

Por que me resucitéis.


Pues me diste[i]s tal herida

Con gana de darme muerte,

El morir me es dulce suerte,

Pues con morir me dáis vida.

Ojos, ?qué os detenéis?

Acabad ya de matarme;

Mas, muerto, volved a mirarme,

Por que me resucitéis.


La llaga, cierto, ya es mía,

Aunque, ojos, vos no queráis;

Mas si la muerte me dáis,

El morir me es alegría.

Y así digo que acabéis,

Ojos, ya de matarme;

Mas, muerto, volved a mirarme,

Por que me resucitéis.


Leio essas maravilhas e fico feliz de ver como é rico o nosso cordel. Como tem história, valor, poesia... É preciso que as pessoas conheçam melhor a poesia, para aprender a dar valor a essa arte tão forte em nossa cultura.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Versatilidade do cordel


CORDEL MATEMÁTICO E SAUDAÇÃO A ESTUDIOSOS DO DIREITO
Uma das coisas que mais chama a atenção na literatura de cordel é a sua capacidade de se adequar a todas as situações que aparecem. Serve para contar histórias, transmitir preceitos éticos, protestar contra a má atuação dos políticos. Serve até para ensinar matemática, como mostram os versos de RAIMUNDO ADRIANO, colhidos por ARIEVALDO VIANA no livro "Acorda Cordel na Sala de Aula":


Os anos de existência

Que essa garotinha fez

Podem ser cinco mais dois

Três mais quatro, um mais três

A metade de quatorze

Ou então dez menos três.


Este ano, por exemplo, fui convidado pelos meus amigos LEONARDO CARVALHO e SABINO HENRIQUE, organizadores do DIREITO 2007, um dos maiores eventos jurídicos do país, para fazer um pequeno recital, que aconteceria entre um painel jurídico e outro.

Percebendo a peculiaridade daquele momento, quando tantos estudiosos do Direito abriam espaço para a poesia popular, fiz a saudação inicial assim:


Boa noite a senhoras e senhores,
Como é grande a minha satisfação
De encontrar-me aqui, nesta ocasião,
Entre mestres, estudantes e doutores.
Grandes nomes, por demais conhecedores
Da Ciência do Direito que nos guia.
Não pensei, eu lhes confesso, que algum dia
Eu viesse, ante platéia tão seleta,
Exercer o meu ofício de poeta
Misturando o Direito e a poesia.

É por isso que aceitei com alegria
O convite tão gentil que me foi feito
Para entre estudiosos do Direito,
E profissionais da advocacia,
Vir mostrar que a lei não é letra fria,
Que é preciso em cada interpretação,
Por um pouco de amor e de emoção.
Que é usando nossa sensibilidade
Que aos poucos vamos, na realidade,
Construindo o direito da nação.

Neste encontro cuja coordenação
Foi entregue a Leonardo Carvalho
Meu amigo, eu conheço seu trabalho,
E também a sua organização.
Sei que é grande a sua preocupação
Em fazer com que em todo o evento
Tudo esteja acontecendo a contento
Para todos, bacharéis e estudantes
Convidados, assistentes, palestrantes
Estou certo, vai ser tudo cem por cento.

Eu percebo, olhando este documento
Que são muitas aqui as autoridades
Poderia até dizer celebridades
Que vieram pra este acontecimento.
Sendo assim, pra não haver constrangimento
Não vou mais dizer o nome de ninguém
Pode ser que eu esqueça de alguém
E esse alguém se aborreça assim comigo
Leonardo, em seu nome, meu amigo,
Eu saúdo a todos que aqui vêm.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

CIDADANIA CEARENSE DE ARIANO SUASSUNA

Foto: Marcos Campos, publicada no Jornal O POVO, de 18.08.2007.
SUASSUNA E O MOTE “SEU JOVENTINO É LADRÃO”

Na semana passada, dia 17 de agosto de 2007, o escritor Ariano Suassuna recebeu o título de Cidadão Cearense. Uma honra para o povo cearense ter um escritor dessa categoria entre seus cidadãos. Uma alegria para os escritores do Ceará tê-lo como conterrâneo.
Certa vez, eu estava assistindo TV, mudando de canal em busca de alguma programação interessante, quando me deparei com Ariano Suassuna, em uma palestra proferida em Fortaleza. Fiquei impressionado com o conhecimento e a capacidade de transmitir esse conhecimento, com alma, com emoção.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a declamação de duas poesias, uma bem curta, uma glosa, e a outra, a “Cantiga do Vilela”, que narra as valentias de um homem chamado Vilela, que desafiava a polícia no sertão nordestino.

Deixemos a Cantiga do Vilela para o próximo post.
Falemos agora da glosa, a qual, segundo narrou Suassuna, ocorreu em uma fazenda, no interior de um Estado do Nordeste, onde se apresentava um cantador. Todos sabem que, para um glosador, a maior vergonha que existe é receber um mote e não glosar. Não fazer a poesia correspondente. E estava lá o cantador se exibindo, quando chegou Seu Joventino, bêbado, com um revólver na cinta, e sentou na primeira fila. Aí, um desses “inimigos da humanidade”, como bem disse Suassuna, que estava sentado lá na última fila, gritou:

“Seu Joventino é ladrão!”.

O cantador ficou pálido. Fazer a glosa daquele mote era morte certa, pois o Seu Joventino, ali, na primeira fila, não deixaria barata uma ofensa. Mas o cantador começou o seu verso, “comendo pelas beiradas”, e deu no seguinte:

Assim, só se eu não glosar
Embora seja um defeito,
Mas não tendo outro jeito
Pode alguém se melindrar.
Agora vou me arriscar
A ofender um cidadão
Que com tanta educação
Podia ser meu amigo
Você diz, mas eu não digo:
SEU JOVENTINO É LADRÃO!