Mostrando postagens com marcador Técnica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Técnica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de abril de 2011

CONSTRUÇÃO CORDEL: UM PENSAMENTO POÉTICO!
Um texto de Maviael Melo

Começo citando o Mestre Pinto do Monteiro:
“O Poeta é aquele que tira de onde não tem e coloca aonde não cabe”.
A - Assim como tem alguém
B - Que quando perde alguém chora
C - Também tem alguém que age
B - Quando um amor vai embora
D - Com a mesma simplicidade
B - Que um pingo d‘água se tóra
Manoel Filó
Nos versos acima, do mestre Filó, reafirmo Pinto pela grandeza do poeta em conseguir tirar de um pingo d’água, um choro, uma separação, um corte, uma saudade e colocá-los numa sextilha. É a nossa poesia popular tão bem representada por grandes Poetas, Cantadores e Cordelistas, que trazem com muita naturalidade os seus versos, criados a partir das paisagens vivenciadas em seus distintos espaços.
A liberdade dos poetas com as palavras, a relação dos autores com cada frase, é quase que matrimonial, no que se refere a proliferação de palavras, o surgimento de novos versos e novas imagens, e também personagens capazes de inventa-lás, como Odorico, por Dias Gomes, e Talqualmente: “… no véu da prilugumia”, do grande Poeta Zé Limeira, memorizado por Orlando Tejo, em Zé Limeira, O Poeta do Absurdo. Essa intimidade com as palavras é o que facilita a criação poética e o relacionamento com cada espaço é o que alimenta, dia-a-dia a formação de novas palavras e novos versos.
É nessa concepção que acreditamos se basear a construção poética do cordel, citando por exemplo uma sextilha aberta, onde se sabe que os versos pares rimam entre si (B), ficando os ímpares livres (A,C,D), a partir daí imaginar o que falar sobre o tema dado. No exemplo acima, o poeta descreve as reações diversas das pessoas na hora de uma partida, ele sai costurando os versos entre si, linha a linha com o tema, o que facilita o encontro das rimas, no caso o poeta descreve ver alguém chorando com a partida doutro alguém, (Assim como tem alguém que quando perde alguém chora), e ver alguém simplesmente sorrindo, ou até mesmo indiferente com a mesma partida, (Também tem alguém que age quando um amor vai embora), nos fazendo observar que tudo é simples demais, pois é da relação com a vida, e a vida é simples e natural. (Com a mesma simplicidade que um pingo d’água se tora).
Tem algo mais natural e simples que a vida? A ligação entre os versos é proporcional as imagens que têm cada poeta de seus respectivos espaços de vida. Se um poeta cordelista segue um contexto rural, convivendo com cores, cheiros, flores e sonhos quando chega uma chuva no seu chão, já vislumbra a safra, recordando o que passou, é natural que se diga:
O rio se excita e transborda
Com a bonança das chuvas
Seguindo e fazendo curvas
Num trovejar que o acorda
E um sertanejo recorda
Das agruras do passado
Já sente o solo molhado
Ver o vergel no baixio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado.
Como também natural será, se for esse poeta por temas urbanos, discorrer sobre um final de tarde em uma estação de metrô e nos diga:
Alguns homens falavam em segredo
Vendo o tempo passar numa janela
E a tristeza presente no enredo
Era a única certeza da querela
Argumentos saiam dentro dela
No silêncio de tantos dissabores
E a mistura de sons formavam dores
No sereno da noite que chegou
Na estação do meu verso o trem passou
Recolhendo os irmãos trabalhadores. 
É o conhecimento sobre o tema (recursos naturais intrísecos a cada poeta), a liberdade com as palavras, a utilização das técnicas que normalizam a literatura de cordel, que referencia a construção poética de cada um. Nem todo cordel é poesia.
Aqui nos temos de tudo
Feijão, farinha e cachaça
Tudo que você precisa
Tá no Mercado da praça
Mercearia do Povo
O nosso preço é de graça.
Na sextilha acima, o tema descreve um comercial de uma determinada loja. A Mercearia do Povo. É comum acharmos diversos cordéis de propagandas comerciais e/ou políticas, que não necessariamente são poesias. Cordelizar uma bula de remédio, é um cordel simplesmente. Descrever uma imagem vinda por palavras do coração, da alma, do desejo real que cada verso encontre o seu outro verso. Isso sim é poesia de cordel.
Enfim, a construção poética do cordel está na alma do poeta cordelista, no coração, na mente e evidentemente no traço particular de cada um. Uns traçam a saudade, as lutas, os mitos, os amores, o tempo, etc., outros traçam o tempo, os amores, os mitos, as lutas, as saudades, etc…, não necessariamente na mesma ordem ou no mesmo sentido. O formato de junção das palavras e a formação da ideia em cada verso é que diferencia essa construção, é natural perceber concepções distintas de diversos poetas sobre um mesmo tema.
Seguir uma linha de raciocínio, um ideia formada, um desejo de ser verso, letra a letra, palavra por palavra, verso por verso, tijolo por tijolo. A CONSTRUÇÃO!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Poesia se aprende?



COMENTÁRIO DE ANIZÃO

Respondendo o post "Sextilha anônima", o poeta //Anizão, frequentador assíduo deste MundoCordel fez o seu comentário em verso. Vale a pena conferir. Boa, //Anizão, seja sempre bem vindo!


Versos não sei ensinar

Como eu aprendi eu não sei

Mas sem querer ensinei

A muitos temas glosar

É como ensinar amar

Que não existe uma escola

E nas provas não tem cola

Mas o coração aprende

E o amor nos supreende

As vezes até extrapola.


//Anizio, 27/02/2010

terça-feira, 10 de junho de 2008

A técnica de fazer cordel III

Figura obtida no Blog da Allan Campos:
(http://allancampos.wordpress.com/2008/04/08/governo-joga-mal-para-manter-professores-em-sala-de-aula/)

COMO FAZER CORDEL

A maioria das visitas a Mundo Cordel chega por meio de ferramentas de busca, tendo como argumento a expressão “como fazer cordel”. Não é para menos. Quando se digita essas três palavras no Google, e se clica “pesquisar”, a primeira URL da lista de resultados é o post “A técnica de fazer cordel”, de 02/07/2007. A segunda URL é “A técnica de fazer cordel II”, continuação da primeira.



Acredito que esses textos venham ajudando muita gente a elaborar os seus próprios cordéis, mas admito que eles me parecem mais úteis para mostrar as possibilidades de criação que para ajudar a criar.

Como fazer um cordel? Certamente, cada poeta tem o seu método de trabalho, mas deve haver pontos em comum. Falarei um pouco sobre o meu próprio método.
Quem nunca fez um cordel, pode tentar seguir esse caminho, e ver como se sai. À medida que for ganhando habilidade, pode ir adequando o método ao seu jeito próprio de fazer as coisas.

Penso que a primeira coisa a se fazer é escolher o tema. Não dá para desenvolver bem qualquer atividade escrita sem saber sobre o que se vai escrever; é claro que às vezes acontece de surgir uma idéia espontaneamente. Os fatos dos dia a dia são uma ótima fonte de inspiração, como destaco em “Uma visita inesperada”:

Para fazer os meus versos
Não falta matéria prima
Um elevador que desce
Um outro que vai pra cima
Uma van que vai parando
E nela alguém vai chegando
Atrasado pro trabalho.
Numa mesa improvisada,
Alguém vende, na calçada,
Caneta, isqueiro e baralho.

Mesmo assim, é preciso estar seguro quanto ao ponto central da obra, até para saber o caminho que se pretende seguir. Ao decidir fazer um cordel sobre um assalto ao qual assistiu na rua, você deve saber se o seu cordel terá como foco narrar o assalto, ou falar da violência urbana. Certamente que uma opção não exclui a outra. Em uma narração, sempre dá para fazer reflexões, e vice-versa, mas há que se definir a predominância.

Por falar em predominância, identifico alguns tipos de cordel:

a) Cordéis Narrativos, que contam uma história, um caso, um fato pitoresco. Podem ser subdivididos em:
1) Ficção, quando narra um fato criado pela imaginação humana, ainda que baseado em fatos reais (p.ex. “A chegada de Lampião no Inferno”), podendo ser:
i) Original, quando o próprio autor dos versos é também autor do enredo; e
ii) Adaptação, quando o autor dos versos aproveita um enredo já existente. Muito usada em relação aos clássicos da literatura.
2) Não ficção, quando o autor se propõe a narrar fatos efetivamente ocorridos (p.ex: “O ataque de Lampião a Mossoró”);
b) Cordéis dissertativos, quando o autor comenta, analisa, opina sobre determinados fatos. Muito usado para tratar de temas políticos e econômicos de interesse da população (p.ex: Cordel sobre as prisões brasileiras);
c) Cordéis descritivos, quando o autor “desenha” um cenário com seus versos. Jessier Quirino faz isso com maestria em “Paisagens do Interior” e “Parafuso de Cabo de Serrote”;
d) Cordéis em homenagem a algo ou alguém. Uma cidade, um herói, um mito, conforme se vê em “O Vôo da Patativa”, de Dideus Sales, homenageando Patativa do Assaré.

Definidos o tema e o tipo, já se pode estabelecer a mensagem central a ser transmitida, a qual pode se constituir em um “mote”. Mote é o tema sobre o qual o poeta desenvolve os seus versos, exposto no último verso da estrofe ou nos dois últimos, quando é mote de duas linhas.

Feito isso, é hora de escolher a forma. Aqui, o leitor pode buscar qualquer uma das formas relacionadas nos posts “A técnica de fazer cordel", I e II, ou criar uma nova – o que só é aconselhável para quem tem muita prática no assunto.

É bom lembrar as seguintes dicas: a) versos e estrofes mais longas funcionam melhor para temas mais complexos; b) o cordel fica melhor de ler quando cada estrofe encerra uma idéia completa, formando um conjunto harmônico.
Outra dica importante: versos curtos são melhores para situações em que se pretende dar idéia de velocidade.

Pronto. Se você já sabe o que vai dizer, quantas sílabas pode usar em cada linha e quantas linhas em cada estrofe, está com quase tudo pronto. Faltam só as rimas. Se você não tem muita prática em rimar, comece com sextilhas, rimando os versos 2, 4 e 6, e deixando os ímpares livres. Escreva a segunda linha pensando nas palavras que usará para terminar os outros dois versos pares, e deixe as idéias irem fluindo. Já há dicionários de rimas na Internet (Dicionário de Rimas; Rimador - SONETOS.com.br), isso pode ajudar, especialmente quem está começando.
Às vezes a necessidade de rimar nos afasta um pouco do que queremos dizer imediatamente; isso é normal; é aí que você vai descobrir o prazer de dizer as coisas de um jeito diferente, inesperado, algumas vezes inserindo palavras que não seriam necessárias, para fechar a métrica, outras, usando de muito poder de síntese, para dizer muito em um só verso. Gosto mais da segunda opção.
Para finalizar, não custa lembrar a “Receita para Cordel”, de Mundim do Vale, postada neste blog, na qual o poeta dá verdadeira aula prática, mostrando, em versos, todos os caminhos que um bom cordelista deve seguir.

Algumas palavras finais, mas não menos importantes: cada vez mais consolida-se o pensamento de que o cordelista deve buscar escrever corretamente. Como bem ensina Arievaldo Viana, um ou outro erro que passe, é porque o autor errou mesmo, pois todos estamos sujeitos a isso. O cordel tem ajudado muita gente a aprender a ler. Assim, se temos condição de escrever corretamente, devemos fazê-lo.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel

Gravura da capa do livro "Cantadores", de Leonardo Mota

A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL

Certa vez ouvi William Brito, da Academia dos Cordelistas do Crato, dizer que o cordel é uma daquelas coisas que a gente primeiro aprende a fazer e depois aprende como é que faz.

De fato, pelos tantos nomes importantes da Literatura de Cordel que tiveram pouco estudo, é possível perceber que muitos passam a vida fazendo – ou pelos começam a fazer - as poesias, sem nunca ter estudado a contagem das sílabas ou a estrutura das rimas. Essas pessoas simplesmente têm o dom da poesia, dom esse muitas vezes despertado ao ouvir as pelejas dos cantadores nos desafios, ou a declamação dos cordéis, lidos ou decorados.

Isso não quer dizer que não seja importante estudar as técnicas, pois mesmo aqueles que nasceram com o dom, ou que aprenderam a arte do versejar na prática, acabam por aprender o que é uma sétima, uma décima, ou um galope à beira-mar. Além do que, a Literatura de Cordel é extremamente exigente com a forma, somente sendo reconhecida como de boa qualidade quando atende aos requisitos de rima, métrica e oração, como bem observa Arievaldo Viana, no Acorda Cordel na Sala de Aula:

Porém, professor, cuidado!
Escute o que eu vou dizer:
Nem todo folheto serve,
Tem que saber escolher.
Observe com atenção:
MÉTRICA, RIMA e ORAÇÃO,
Todo cordel deve ter.

No mesmo livro, Zé Maria de Fortaleza, explica:
Métrica: é a medida das sílabas de cada verso, em determinado gênero.
Rima: é a correspondência entre sons, com palavras diferentes.
Oração: é a coerência, encadeamento, coordenação, precisão, objetividade e fidelidade ao tema.

Neste texto, dedicar-me-ei especificamente à métrica, deixando a rima e a oração para outros que ainda pretendo escrever.

De uma certa forma, é a métrica que define os vários gêneros de poesia utilizados pela Literatura de Cordel. Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, destaca os gêneros poéticos comumente utilizados pelos cantadores, cuja nomenclatura leva em consideração os seguintes conceitos: “obra é qualquer estrofe; é o verso, a linha”. Daí a denominação que se verá nos exemplos a seguir: “obra de seis, sete ou oito pés”.

Os estilos citados pelo autor são os seguintes, em cujos exemplos fiz correções na escrita, pois sou partidário do uso correto do vernáculo na Literatura de Cordel.

Obra de seis pés:

Agora vem-me à lembrança
Os passos do meu sertão
Pomba de bando, asa branca
Marreca, socó, carão,
Também pássaro pombinha
Arara e currupião.


Obra de sete pés:

Uma Carta de ABC
E uma velha Tabuada,
Um punhado de cordéis
Numa maleta encantada,
Me deram luz do saber.
Ali eu pude aprender
Até a História Sagrada.


Obra de oito pés

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.


Moirão de cinco pés:

Vamos cantar o moirão
Prestando toda atenção
Que o moirão bem estudado
É obra que faz agrado
E causa satisfação.


Moirão de sete (que é uma obra de sete pés):

Vamos cantar o moirão
Para o povo apreciar
Me diga logo o assunto
Em que nós vamos cantar
Meu colega, dê começo,
Que eu apenas me ofereço
Só mesmo pra acompanhar.


O martelo com versos de cinco sílabas, chamado de “embolada”:

Sou cobra de veado
Esturro de leão
Fiz pauta com o cão
Mato envenenado,
Sou desembaraçado,
Eu estruo gente,
Sou que nem serpente,
Rifle carregado,
Cantador lesado
Mato de repente.


O martelo com versos de sete sílabas, chamado “dez pés em quadrão”:

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio
Devido eu ser muito feio
As moças não me queriam
Quando prum forró eu ia
Com qualquer colega meu
Eles confiavam n’eu
Iam beber e brincar
No fim da fest’ia arengar,
Quem ia preso era eu.


O martelo com versos de dez sílabas, chamado “gabinete” ou "martelo agalopado". Neste, preferi usar uma estrofe minha como exemplo, do cordel "O viajante e o sábio":

Digo, ainda, com toda segurança,
Não se guarda a luz acesa num armário
Não se ensina padre nosso a vigário
A prudência é irmã da desconfiança
Não aceite o peso de qualquer balança
Pois nem todo rezador merece fé
Muita coisa parece mas não é
Muita coisa que é não se parece
Sob as vistas do dono a planta cresce
Um sapato não dá em qualquer pé.

Obra de nove por seis, estrofes de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas, os três restantes – o segundo, o quinto e o oitavo – têm três:

Querendo mudar agora
Sem demora
Noutra obra eu pego e vou!
O que eu quero é que tu digas
Que em cantigas
Eu sou formado doutor!
Vamos mudar de toada,
Camarada,
Quero ver se és cantador...


A ligeira, quadra bipartida, de versos de sete sílabas, com a rima obrigatória em “á” e precedida do refrão “Ai, d-a-dá”:

Ai d-a-dá
Colega, pinique a polda
Se quiser me acompanhar
Ai!
Essa minha bola velha
Quanto eu mais puxo mais dá...


O quadrão:

Meu povo preste atenção
Agora é que eu vou cantar
Eu vou te dar um ensino...
Eu é que vou te aquietar...

O galope que, segundo o autor, é uma sextilha de decassílabos. Mas deve ter havido algum engano ou erro gráfico, pois sabe-se que o galope é sempre em versos de onze sílabas, como ocorre com o “galope à beira-mar”, cujos versos são de onze sílabas, só que em estrofes de dez versos. Aliás, o exemplo oferecido por Leonardo Mota é em onze sílabas, pelo menos nas quatro primeiras linhas:

Josué, o que é isso? Amansa, mano,
Que eu creio numa coisa é quando vejo...
Uma onça para mim é uma pulga,
Um tubarão pra mim é um percevejo,
E um tiro de rifle é caçoada,
É merenda de vim, de doce e queijo...

Veja mais em: