sábado, 6 de outubro de 2007

Cordel e música popular brasileira

GENILDO COSTA E O CORDEL DE LUIZ CAMPOS

Acabei de falar ao telefone com meu amigo Genildo Costa - o criador do Canto Potiguar - e fiquei surpreso com a coincidência. Eu ia pedir a ele autorização para por neste blog o áudio de ME ENGANEI COM MINHA NOIVA, junto ao cordel de Luiz Campos, quando ele falou que estava se dirigindo para a TCM - TV a CAbo Mossoró - para gravar uma entrevista junto com o poeta Luiz Campos, sendo que, no programa iria cantar exatamente essa música.
É coincidência demais para ser coincidência. Acho que são os deuses do cordel e da música popular que estão em paz conosco. Leia o texto abaixo, e não deixe de ouvir a música. Vale a pena!
ME ENGANEI COM MINHA NOIVA

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio,
Devido ser muito feio
As moça não me queria.
Quando pr’um forró eu ia
Com qualquer colega meu,
Eles confiava neu
Ia beber e brincar
No fim da festa ia arengar
Quem ia preso era eu.

E pra arranjar namoro
Eu toda via fui mole.
Eu cantei samba, eu puxei fole,
Usei um cabelo louro,
A boca cheia de ouro,
Chega brilhava de dia.
Quando pr’um forró eu ia
Cheirava que nem uma rosa,
Mas, se eu caçava umas prosa,
As moça não me queria.

Aí eu dizia: “É catimbó
Que alguém botou, mas não sai,
Que mamãe casou com papai,
Vovô casou com vovó,
Inté meu irmão Chicó,
Que é muito mais feio que eu,
Namorou, casou, viveu
Com duas mulher, inté,
Só eu não acho muié
Que queira se esfregar neu.

Um dia Deus descuidou-se,
O satanás se esqueceu,
Que Vicença olhou pra eu
Com uns oião de bico dôce,
Nossos ói se amisturou-se
Como feijão com arroz,
Se abufelemo nós dois
Num amor tão violento
Que marquemo o casamento
Pra quatro dias depois.

No dia de se amarrar,
Se arrumou, eu e ela.
Dei de garra na mão dela
E fui pra igreja casar.
Cheguei no pés do altar,
Recebi a santa bença,
Jurei não ter desavença
Entre eu e minha estposa,
O padre disse umas côsa
E fui viver com Vicença.

Cheguei em casa mais ela,
Fui logo me agasalhando
Que mermo que eu ia pensando
Que ia dormir na costela.
Vicença fez a novela
Por dentro da camarinha,
Quebrou uns troçim que eu tinha,
Me ameaçou na bala.
Ela foi dormir na sala
Eu fui dormir nca cozinha.

Da vida perdi o gosto
Porque Vicença fez isso.
De manhã fui pro serviço,
Mas pra morrer de desgosto.
Cheguei em casa, o sol posto,
Vicença me arrecebeu,
Inté um café freveu,
Botou pra nós dois cear,
Mas, quando foi se deitar,
Nem sequer olhou pra eu.

De Deus perdi a crença,
De nome chamei uns trinta,
Botei uma faca na cinta,
E fui conversar com Vicença.
Vicença deu uma doença
Quando falei em amor,
Aí ela me perguntou:
“Cê pensa que eu sou o que?
Eu me casei com você
Pra lhe fazer um favor”.

Bati com ela no chão,
Puxei a lapa de faca,
Cortei o cóis da casaca
E o elástico do calção.
Vicença tinha razão
De não querer bem a eu.
Não era com nojo deu,
Ou porque não fosse séria,
Sabe Vicença quem era,
Era macho que nem eu.

Eu muito me arrependi
Porque me casei com ela.
Falei logo com o pai dela
E de manhã devolvi.
Muito desgosto eu senti,
Que quase morri inté,
Homem trajo de muié
Tem muito de mundo afora,
Só caso com outra agora
Logo sabendo quem é.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel II



A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL (2ª Parte)


Prosseguindo em nossos estudos sobre a técnica do cordel, vejamos os gêneros destacados pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC. São eles:



Parcela ou Verso de quatro sílabas
- O mais curto conhecido na literatura de cordel. Observemos que o exemplo abaixo forma uma obra de dez pés.
Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu
o pau bateu
subiu poeira
aqui na feira
não fica gente
queimo a semente
da bananeira.

Verso de cinco sílabas
- Já citada na referência a Leonardo Mota, chamada redondilha menor. O exemplo dado pela ABLC é um trecho da peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, da autoria de Firmino Teixeira do Amaral. Nele percebe-se nitidamente que a métrica de Aderaldo era melhor que a de Zé Pretinho:

Pretinho:
no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala.

Cego:
Negro, és monturo
Molambo rasgado
Cachimbo apagado
Recanto de muro
Negro sem futuro
Perna de tição
Boca de porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão .

Estrofes de quatro versos de sete sílabas – Modalidade que evoluiu para a estrofe de seis versos, ou sextilha:

O Mergulhão quando canta
Incha a veia do pescoço
Parece um cachorro velho
Quando está roendo osso.

Sextilhas – Com estrofes de seis versos de sete sílabas, segundo a ABLC, “a modalidade mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Também muito usadas nas sátiras políticas e sociais. É uma modalidade que apresenta nada menos de cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado”. Essas variações, entretanto, dizem respeito à rima, razão pela qual não transcreverei os exemplos aqui. Mas estão todos à disposição do leitor no site da ABLC. Um exemplo da forma mais tradicional de sextilha:

Meu avô tinha um ditado
meu pai dizia também:
não tenho medo do homem
nem do ronco que ele tem
um besouro também ronca
vou olhar não é ninguém.
Setilhas – Já descrita como “obra de sete pés”:

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu.
- Quem é você, Cavalheiro -
- Moleque, sou cangaceiro -
Lampião lhe respondeu.

- Não senhor - Satanás, disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora
e já estou com vontade
de mandar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

Ainda segundo a ABLC, “esta modalidade é, também, usada em vários estilos de mourão, que pode ser cantado em seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas”. Exemplos:

Cantador A- Eu sou maior do que Deus
maior do que Deus eu sou

Cantador B - Você diz que não se engana
mas agora se enganou
Cantador A - Eu não estou enganado
eu sou maior no pecado
porque Deus nunca pecou.

Ou com todos os versos rimados, a exemplo das sextilhas explicadas antes:

Cantador A -Este verso não é seu
você tomou emprestado
Cantador B - Não reclame o verso meu
que é certo e metrificado
Cantador A -Esse verso é de Noberto
Se fosse seu estava certo
como não é está errado.
Oito pés de quadrão ou Oitavas – Estilo também já citado, feito de estrofes de oito versos de sete sílabas:

Diga Deus Onipotente
Se é você, realmente
Que autoriza, que consente
No meu sertão tanta dor
Se o povo imerso no lodo
apregoa com denodo
que seu coração é todo
De luz, de paz e de amor.

Décimas – Já apresentados aqui como”dez pés em quadrão”:
Eram doze cavalheiros
Homens muito valorosos
Destemidos, corajosos
Entre todos os Guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os doze pares de França.
Martelo Agalopado – Gênero também citado no post anterior, o Martelo agalopado, estrofe dez versos de dez sílabas, é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. Segundo o site da ABLC. “as martelianas não tinham, como o nosso martelo agalopado, compromisso com o número de versos para a composição das estrofes. Alongava-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. Como exemplo, vejamos estes alexandrinos”:

"Visitando Deus a Adão no Paraíso
achou-o triste por viver no abandono,
fê-lo dormir logo um pesado sono
e lhe arrancou uma costela, de improviso
estando fresca ficou Deus indeciso
e a pôs ao Sol para secar um momento
mas por causa, talvez dum esquecimento
chegou um cachorro e a carregou,
nessa hora furioso Deus ficou
com a grande ousadia do animal
que lhe furtara o bom material
feito para a construção da mulher,
estou certo, acredite quem quiser
eu não sou mentiroso nem vilão,
nessa hora correu Deus atrás do cão
e não podendo alcançar-lhe e dá-lhe cabo
cortou-lhe simplesmente o meio rabo
e enquanto Adão estava na trevas
Deus pegou o rabo do cão e fez a Eva."

O estilo caiu no esquecimento, com o desaparecimento do seu criador, professor Jaime Pedro Martelo, em 1727, até que em 1898, José Galdino da Silva Duda deu “à luz feição definitiva ao nosso atual martelo agalopado, tão querido quanto lindo. Pedro Bandeira não nos deixa mentir”:

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
quanto é grande o poder da Natureza.

Há, também, o martelo de seis versos:

Tenho agora um martelo de dez quinas
fabricado por mãos misteriosas
enfeitado de pedras cristalinas
das mais raras, bastante preciosas,
foi achado nas águas saturninas
pelas musas do céu, filhas ditosas.

Galope à Beira Mar
– “Com versos de onze sílabas, portanto mais longos do que os de martelo agalopado, são os de galope à beira mar, como estes da autoria de Joaquim Filho”:

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

Meia Quadra - Outra interessante modalidade é a Meia Quadra ou versos de quinze sílabas:

Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão
Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.

Só os exemplos relacionados neste post e no anterior, já mostram o quão variadas são as formas utilizadas pela Literatura de Cordel. Mas há outras, que ainda pretendo mencionar.

Por enquanto, chamo a atenção para o fato de que a formação de cada um desses gêneros depende essencialmente do manuseio de três variáveis: o emparelhamento das rimas (do que pretendo falar em outra oportunidade), a quantidade de sílabas em cada verso e a quantidade de versos em cada estrofe.

Aqui me valho, mais uma vez, da lição de Zé Maria de Fortaleza para esclarecer que verso é cada uma das linhas de um poema, enquanto estrofe é “um grupo de versos de um trabalho poético, em geral com sentido completo” (Acorda Cordel na Sala de Aula, p. 36).

Assim, combinando quantidade de sílabas em uma linha e quantidade de linhas em uma estrofe, vimos que são usados versos de cinco sílabas em estrofes de seis, sete, oito ou dez linhas, o mesmo ocorrendo com os versos de sete, dez ou onze sílabas.

Com relação à quantidade de sílabas em um verso, as variedades mais comuns são a redondilha maior – sete sílabas – e a redondilha menor – cinco sílabas, embora a forma preferida dos cantadores seja, sem dúvida, o decassílabo (dez sílabas), utilizada no martelo agalopado, considerado por muitos o vestibular do cantador. Os versos de onze sílabas do galope à beira-mar também tem o seu charme, e dão um ritmo bem interessante na execução, seja cantada ou declamada.

Penso que o domínio da métrica é um dos aspectos mais importantes na elaboração de um cordel, pois, como diz Arievaldo Viana:

Cordel desmetrificado
Não dá pra ler em voz alta.
Tem hora que sobra métrica,
Tem hora que a rima falta,
Inda tem pesquisador
Com diploma de doutor
Que esse mau “cordel” exalta.

E não é só uma questão de respeitar a métrica, pra não deixar o cordel de “pé quebrado”. O bom cordelista, assim como o bom cantador repentista, deve ter a capacidade de elaborar sua poesia na maior variedade possível de estilos, por pelo menos dois motivos. Primeiro, para dar à poesia um ritmo adequado ao tema que está sendo tratado.

Por exemplo, a redondilha menor funciona melhor para narrativas mais rápidas, enquanto a redondilha maior permite uma abordagem mais cadenciada. Vejamos, a seguinte estrofe, de minha autoria, em redondilha menor, narrando uma situação na qual um marido traído tenta matar a mulher, no meio de uma feira, e um tenente da polícia tenta impedi-lo:

O cabra valente
Puxou a pexeira,
No meio da feira,
Gritou pro tenente:
- Não fique na frente
Que você se fura!
Essa criatura
Agora me paga.
Hoje ela se apaga
Ninguém me segura.

A mesma narração poderia ser feita em redondilha maior, mas tem-se a impressão de que tudo está acontecendo mais lentamente:

O cabra era valente
E puxou logo a peixeira
Ali, no meio de feira,
Gritou para o tenente:
- Não fique na minha frente
Ou então você se fura!
Hoje essa criatura,
O que me deve me paga
Ela agora se apaga
Ninguém aqui me segura!

O segundo motivo pelo qual é importante variar de estilo, é não cansar o leitor ou o espectador. Quando um autor sempre escreve em sextilhas, só em ver a capa do folheto, o leitor já sabe como serão os versos, e isso o desvaloriza. Se os cordéis são reunidos em um livro, a repetição de um único estilo fica ainda mais entediante. Nas apresentações em declamações e cantorias – e agora, com a proliferação de CD’s de cordel – a variação de estilos ganha ainda mais importância, pois ficaria monótono ouvir todo um CD em sextilhas ou setilhas.

Por aqui encerro este post, cujo assunto ainda está por concluir, e logo devo voltar a ele, para falar da contagem das sílabas e de outros estilos, como o “martelo perguntado”.

Veja também: A técnica de fazer cordel (1ª parte)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Navegando no cordel




POESIA DE CORDEL EM ALTO MAR

Antes de retomar os estudos sobre a técnica de se fazer um cordel, mais um momento daqueles em que a gente faz um cordel meio de improviso, pra registrar um momento importante, agradável ou os dois.

Era fevereiro de 2006, e eu e minha esposa, Natália, estávamos viajando pelo litoral do Nordeste Brasileiro, no navio Pacific. Toda noite acontecia um show no salão principal do navio. Na última noite, o show era “O Turista é o Artista”, e era feito, obviamente, pelos próprios passageiros.

Quando soube disso, logo pela manhã, fiz imediatamente um cordel, registrando os principais pontos da viagem. À tarde, ensaiei com a banda, pois o mote seria apresentado como um refrãozinho cantado, e à noite apresentei a peça. O pessoal se divertiu um bocado.

Para minha maior alegria, Natália registrou tudo com nossa câmera digital. O clipe está aí em cima; o texto, abaixo:

NAVEGANDO
Por Marcos Mairton

Quando olhei para o navio
Atracado ali no cais
Eu pensei como seria
Muito bom, até demais,
Conhecer os litorais
As praias do meu Brasil
Aquelas que Cabral viu
Quando aqui foi chegando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Embarquei todo animado
Na maior felicidade
Mais feliz fiquei ainda
Quando vi minha cidade
Já olhando, com saudade,
Para o barco que partia
Dentro dele, eu lhe dizia:
– Logo estaremos voltando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Daquele dia até hoje
Navegamos um bocado
Do balanço do navio
Nunca fiquei enjoado
Fiquei foi maravilhado
De encontrar tanta beleza
Que Deus ou a Natureza
Por aqui foi espalhando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Foram tantas belas praias
Que daqui pudemos ver
Que na memória gravamos
Pra nunca mais esquecer
Que nem tento descrever
Com palavras o que vimos
Desde o dia em que partimos
Neste navio embarcando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Mas como nada acontece
Do jeito que a gente sonha
Não pude desembarcar
Em Fernando de Noronha
Moça, não fique tristonha,
Foi pra nossa segurança
Tenho muita esperança
De voltar, só não sei quando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

Aqui do lado de dentro
Desta bela embarcação
Recebemos o carinho
De toda tripulação
Vou dizer: - Ó capitão!
Comandante Antonio Pata
A vossa equipe me trata
Como um rei, tá me mimando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

É hora da despedida
Já começo a ter saudade
Do navio, das pessoas,
De cada nova amizade
Volto pra minha cidade
No próximo amanhecer
Mas nunca vou esquecer
Deste Salão Carousel
Do Lennon e do Iel,
Nem da Banda Salvatagem
De, durante a viagem,
Andar no Deck Riviera,
Aloha, Lido, quem dera,
Voltar aqui, novamente,
E encontrar toda essa gente
Que estou encontrando
Navegando, navegando,
No oceano a deslizar
E o Pacific me levando
Sobre as ondas do mar.

A técnica de fazer cordel

Gravura da capa do livro "Cantadores", de Leonardo Mota

A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL

Certa vez ouvi William Brito, da Academia dos Cordelistas do Crato, dizer que o cordel é uma daquelas coisas que a gente primeiro aprende a fazer e depois aprende como é que faz.

De fato, pelos tantos nomes importantes da Literatura de Cordel que tiveram pouco estudo, é possível perceber que muitos passam a vida fazendo – ou pelos começam a fazer - as poesias, sem nunca ter estudado a contagem das sílabas ou a estrutura das rimas. Essas pessoas simplesmente têm o dom da poesia, dom esse muitas vezes despertado ao ouvir as pelejas dos cantadores nos desafios, ou a declamação dos cordéis, lidos ou decorados.

Isso não quer dizer que não seja importante estudar as técnicas, pois mesmo aqueles que nasceram com o dom, ou que aprenderam a arte do versejar na prática, acabam por aprender o que é uma sétima, uma décima, ou um galope à beira-mar. Além do que, a Literatura de Cordel é extremamente exigente com a forma, somente sendo reconhecida como de boa qualidade quando atende aos requisitos de rima, métrica e oração, como bem observa Arievaldo Viana, no Acorda Cordel na Sala de Aula:

Porém, professor, cuidado!
Escute o que eu vou dizer:
Nem todo folheto serve,
Tem que saber escolher.
Observe com atenção:
MÉTRICA, RIMA e ORAÇÃO,
Todo cordel deve ter.

No mesmo livro, Zé Maria de Fortaleza, explica:
Métrica: é a medida das sílabas de cada verso, em determinado gênero.
Rima: é a correspondência entre sons, com palavras diferentes.
Oração: é a coerência, encadeamento, coordenação, precisão, objetividade e fidelidade ao tema.

Neste texto, dedicar-me-ei especificamente à métrica, deixando a rima e a oração para outros que ainda pretendo escrever.

De uma certa forma, é a métrica que define os vários gêneros de poesia utilizados pela Literatura de Cordel. Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, destaca os gêneros poéticos comumente utilizados pelos cantadores, cuja nomenclatura leva em consideração os seguintes conceitos: “obra é qualquer estrofe; é o verso, a linha”. Daí a denominação que se verá nos exemplos a seguir: “obra de seis, sete ou oito pés”.

Os estilos citados pelo autor são os seguintes, em cujos exemplos fiz correções na escrita, pois sou partidário do uso correto do vernáculo na Literatura de Cordel.

Obra de seis pés:

Agora vem-me à lembrança
Os passos do meu sertão
Pomba de bando, asa branca
Marreca, socó, carão,
Também pássaro pombinha
Arara e currupião.


Obra de sete pés:

Uma Carta de ABC
E uma velha Tabuada,
Um punhado de cordéis
Numa maleta encantada,
Me deram luz do saber.
Ali eu pude aprender
Até a História Sagrada.


Obra de oito pés

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.


Moirão de cinco pés:

Vamos cantar o moirão
Prestando toda atenção
Que o moirão bem estudado
É obra que faz agrado
E causa satisfação.


Moirão de sete (que é uma obra de sete pés):

Vamos cantar o moirão
Para o povo apreciar
Me diga logo o assunto
Em que nós vamos cantar
Meu colega, dê começo,
Que eu apenas me ofereço
Só mesmo pra acompanhar.


O martelo com versos de cinco sílabas, chamado de “embolada”:

Sou cobra de veado
Esturro de leão
Fiz pauta com o cão
Mato envenenado,
Sou desembaraçado,
Eu estruo gente,
Sou que nem serpente,
Rifle carregado,
Cantador lesado
Mato de repente.


O martelo com versos de sete sílabas, chamado “dez pés em quadrão”:

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio
Devido eu ser muito feio
As moças não me queriam
Quando prum forró eu ia
Com qualquer colega meu
Eles confiavam n’eu
Iam beber e brincar
No fim da fest’ia arengar,
Quem ia preso era eu.


O martelo com versos de dez sílabas, chamado “gabinete” ou "martelo agalopado". Neste, preferi usar uma estrofe minha como exemplo, do cordel "O viajante e o sábio":

Digo, ainda, com toda segurança,
Não se guarda a luz acesa num armário
Não se ensina padre nosso a vigário
A prudência é irmã da desconfiança
Não aceite o peso de qualquer balança
Pois nem todo rezador merece fé
Muita coisa parece mas não é
Muita coisa que é não se parece
Sob as vistas do dono a planta cresce
Um sapato não dá em qualquer pé.

Obra de nove por seis, estrofes de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas, os três restantes – o segundo, o quinto e o oitavo – têm três:

Querendo mudar agora
Sem demora
Noutra obra eu pego e vou!
O que eu quero é que tu digas
Que em cantigas
Eu sou formado doutor!
Vamos mudar de toada,
Camarada,
Quero ver se és cantador...


A ligeira, quadra bipartida, de versos de sete sílabas, com a rima obrigatória em “á” e precedida do refrão “Ai, d-a-dá”:

Ai d-a-dá
Colega, pinique a polda
Se quiser me acompanhar
Ai!
Essa minha bola velha
Quanto eu mais puxo mais dá...


O quadrão:

Meu povo preste atenção
Agora é que eu vou cantar
Eu vou te dar um ensino...
Eu é que vou te aquietar...

O galope que, segundo o autor, é uma sextilha de decassílabos. Mas deve ter havido algum engano ou erro gráfico, pois sabe-se que o galope é sempre em versos de onze sílabas, como ocorre com o “galope à beira-mar”, cujos versos são de onze sílabas, só que em estrofes de dez versos. Aliás, o exemplo oferecido por Leonardo Mota é em onze sílabas, pelo menos nas quatro primeiras linhas:

Josué, o que é isso? Amansa, mano,
Que eu creio numa coisa é quando vejo...
Uma onça para mim é uma pulga,
Um tubarão pra mim é um percevejo,
E um tiro de rifle é caçoada,
É merenda de vim, de doce e queijo...

Veja mais em:

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cordel e atualidades

Foto: FolhaOnLine

DEPOIS DA PREFEITURA SEM PREFEITO, O MINISTRO SEM MINISTÉRIO


Vejam como são as coincidências da vida. Mal acabei de postar a poesia PREFEITURA SEM PREFEITO, de Patativa do Assaré, logo me aparece um ministro sem Ministério. O jeito foi transformar isso em verso:


MINISTRO SEM MINISTÉRIO

Patativa um dia viu,
Mas não ficou satisfeito,
Prefeitura sem prefeito,
E seu protesto emitiu.
Mas, hoje, em nosso Brasil,
Acontece outro mistério,
Que talvez seja mais sério,
Ou talvez até mais triste,
Descobri que agora existe
Ministro sem ministério.

“Por não ter literatura”,
Patativa já dizia,
Não saber se existia
Prefeito sem prefeitura.
Nem eu, com minha cultura,
E anos de magistério
Conheci tal despautério
Que agora fiquei sabendo,
De em Brasília estar havendo
Ministro sem ministério.

O Ministério, em verdade,
Era uma Secretaria
Mas o Senado iria,
Mudar a realidade:
Extinguiu a entidade
Mandou para o cemitério.
Como efeito deletério
Pro Secretário-Ministro
Esse título sinistro:
Ministro sem ministério.

Assim como Patativa
Não vou mais me admirar
Se acaso eu encontrar
Alguma defunta viva,
Uma boca sem gengiva,
Satanás num monastério,
Carnaval no necrotério,
Macaco guiando trem,
Pois no Brasil sei que tem
Ministro sem Ministério.

Patativa do Assaré



PATATIVA DO ASSARÉ NÃO ERA ANALFABETO

Há alguns posts passados, mencionei aqui que
o poeta Arievaldo Viana teria dito em entrevista que Patativa não era analfabeto. Hoje, trago trecho do livro CORDÉIS, de Patativa do Assaré, o qual é iniciado com um texto de Luiz Tavares Júnior – professor do Curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal do Ceará – no qual o autor confirma essa afirmação de Arievaldo:

“Embora sua instrução formal tenha sido muito diminuta, seu contato com os livros foi constante e permanente, tendo convivido intensamente com a poesia de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves e a prosa de Coelho Neto, como afirma Luzanira Rego, a partir de uma visita à casa do poeta, ao se deparar com os livros desses escritores; e Rosemberg Cariry vai um pouco mais além, ao enunciar: ‘Patativa é homem que sabe ler, de muitas leituras e informações sobre o que acontece no mundo (...). Basta dizer que, mesmo quando Patativa era violeiro e encantava os sertões com o som de sua viola e a beleza de seus versos de repente, já estudava o tratado de versificação de Guimarães Passos e Olavo Bilac e lia Os Lusíadas’. Em face dessas afirmações e, se acrescentarmos que, de fato, estamos diante de uma pessoa de inteligência invulgar e espantosa memória, como sempre afirmam seus biógrafos, haveremos facilmente de compreender a grandiosidade de seu engenho e arte no manejo do verso e na criação de sua poesia, atestado por quantos se aproximam de sua obra, aqui, no Brasil, como no estrangeiro”.

Percebe-se, portanto, que Patativa agia deliberadamente quando escrevia na forma matuta presente em Aos Poetas Clássicos:

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

O fato é que Patativa foi realmente um fenômeno, desses que aparecem a cada século, quando muito. Basta fazer uma pesquisa com o nome “Patativa do Assaré” no Google para ver a imensa quantidade de páginas que se dedicam a ele. Eu, aliás, fiz isso hoje, e achei coisas interessantíssimas, como, por exemplo, o estudo
“Relações entre Estética, Hermenêutica, Religião e Arte”, de Cristiane Moreira Cobra.
Também encontrei o divertido poema da Prefeitura sem Prefeito:

PREFEITURA SEM PREFEITO
Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.
Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

A sua morte, em 08 de julho de 2002, deixou órfãos todos os poetas populares do Brasil. O poeta cearense Dideus Sales, em seu livro Veredas de Sol, retrata bem esse sentimento, no poema:

O VÔO DO PATATIVA

O sertão está de luto,
Sem sinfonia a aurora,
Pois a ave que cantava
O povo, a fauna e a flora
Sem sequer nos dar adeus
Alçou vôo e foi embora.

Calejado pelos anos,
Com noventa e três de idade
Mas com plena lucidez,
Muita sensibilidade.
Sua ausência nos cobriu
Com o véu frio da saudade.

Deu voz a uma lçegião
De rurícolas sem clareza;
Até falando em desgraça,
Seu canto tinha beleza
Porque recebeu as aulas
Do Mestre da natureza.

Sua poesia jorrou
Na viola e no repente,
Cantou saudade e tristeza
Miséria, seca e enchente.
Sua obra o transformou
Num símbolo da nossa gente.

Puro e simples como a flor,
Um gênio da raça humana,
Viveu como lavrador,
Morando numa choupana
Plantando e colhendo versos
Lá na terra de Santana.

Mesmo sem ter estudado
Não se fez ignorante,
Nutria um amor telúrico
Por seu torrão escaldante
Onde fez Triste Partida
A saga do retirante.

Sempre lutou para o povo
Não ser massa de manobra,
Teve humildade em excesso
Teve inspiração de sobra.
Não há quem saiba estimar
O valor de sua obra.

Mais que um poeta-maior
Um vate fenomenal,
Poesia genuína,
Improviso natural
Fazia das rimas arma
Na defesa social.

Cantou nossa gente simples
Do sertão com maestria;
Defendendo as injustiças,
Protestando a covardia,
Sua arma era o verso,
Munição, a poesia.

Guardo viva a sua imagem
Fazendo versos com esmero,
Glosando com muita prática,
Rimando sem exagero
Que da poética matuta
Só ele tinha o tempero.

Sua mensagem profética
Encheu o sertão de amor,
Sua genialidade
Trouxe a lume o seu valor,
O sertão chora a saudade
Do seu eterno cantor.

Voa, Patativa, voa
Para o céu de Jeová.
Vou ficando por aqui
Poetizando o Ceará.
Você no céu, eu na terra,
Cante lá que eu canto cá.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Cordel e repente III


A OPINIÃO DE CRISPINIANO NETO

Ainda no tema “Cordel e Repente”, lembrei de uma entrevista que Crispiniano Neto deu à Revista Preá, em sua edição de março de 2004, número 5 da revista, e aborda, ainda que levemente a questão.

É interessante ver também a opinião dele acerca de Zé Luís e Ivanildo Vilanova, também citados no post anterior como grandes repentistas.

Quem quiser ver a entrevista inteira,
clique aqui e acesse a Revista Preá. Segue o trecho:

Preá – Quem são os grandes nomes do Nordeste em
cantoria de viola?
Crispiniano Neto – O nome mais completo da
cantoria nordestina é Ivanildo Vilanova. Eu acho que ele
continua imbatível. Ele não é o maior poeta, agora é o
maior cantador. Mas temos vários grandes nomes: Pedro
Bandeira, Otacílio...
Preá – E “Louro Branco”?
Crispiniano Neto – “Louro Branco” é o maior
repentista. Existem umas distinções sutis entre poeta,
cantador, repentista e violeiro. É tudo a mesma coisa, mas
tem suas diferenças. Quem são os cantadores poetas? É
Diniz Venturino, Manoel Xudu, Zé Luís, João Paraibano,
foi Severino Ferreira...
Preá – E Luís Sobrinho?
Crispiniano Neto - Luís foi um cantador bom, mas
não se enquadraria nos que citei acima. Cantoria tem um
problema sério. Seja Luís Sobrinho, eu, Apolônio Cardoso
- se você dividir com outra profi ssão, não progride. Ela
exige dedicação exclusiva e pós-doutorado. É uma
atividade intelectual extremamente exigente. Ivanildo
Vilanova passou no vestibular de Direito e optou por não
fazer a faculdade, porque achava que seria um advogado
fraco. Já meu irmão fez o contrário, acho até porque ele
levou uma “surra” de Ivanildo e fi cou meio frustrado. Mas
Ivanildo disse a mim e a ele que ou dava aquela “surra”, ou
apanhava e se acabava.

(Zé Luís e Ivanildo Vilanova, em Mossoró, junho de 2006, no lançamento de meu livro "Uma sentença, uma aventura e uma vergonha")

Preá – Tem um diálogo acerca de música clássica, que é
mais ou menos o seguinte: Quem foi Mozart? Mozart foi
o maior gênio da música clássica. Quem foi Beethoven?
Beethoven foi o maior compositor da música clássica.
Quem foi Bach? Bach foi a música. Há condições de se
fazer esse tipo de comparação com relação à cantoria de
viola?
Crispiniano Neto – Sim. Você pode dizer que Manoel
Xudu foi a poesia. Já Ivanildo é o mais técnico, canta
bem, não tem uma voz bonita, mas é uma voz afi nada,
é perfeito na rima e na métrica. É muito difícil Ivanildo
cometer uma desmetrifi cação e desenvolve bem qualquer
assunto de cantoria, que são mais de cinqüenta. Tanto faz
você pedir a Ivanildo para cantar uma sextilha, um mote,
um gabinete, um galope à beira mar; ele canta todos os
estilos.
Preá – No gabinete o cantador tem de dizer aquele verso
“quem não canta gabinete não é cantador”?
Crispiniano Neto – Tem. Porque alguns estilos têm
uma parte fixa. O “gabinete”, o “mourão voltado”, o
“perguntado”, o “Brasil caboco”.
Preá – Quais as diferenças existentes entre o violeiro, o
cordelista, o repentista e o poeta?
Crispiniano Neto – O cantador é aquele que é bom
em tudo. Toca bem, pelo menos para o consumo, como
é o caso de Ivanildo. Canta bem, afinado, tem uma boa
dicção, canta qualquer assunto, qualquer estilo. Você
tinha, por exemplo, um Lourival Batista, irmão de Dimas
e Otacílio, que era um grande poeta, mas não sabia sequer
afi nar a viola e a voz era insuportável. Não me comparo
com ele como poeta, mas do lado fraco dele, de voz ruim
e de não saber afi nar a viola eu era igual. Uma vez tive a
honra de cantar com ele. Eu terminei dizendo um verso,
que ele parou a viola para decorar. Eu disse: “Comigo e
com Lourival o destino foi perverso/Entre o verso e a voz
aconteceu o inverso/Dois urubus na toada/Dois Castro
Alves no verso”. Você tinha um Severino Ferreira, aqui
do Rio Grande do Norte, que era um grande cantador,
além de ser poeta, porque ele tinha a voz boa, tocava
bem, inclusive era um dos maiores violeiros. Certa vez
eu assisti Severino Ferreira cantando sobre “Cancão”,
um poeta de São José de Egito, que morreu. Quase vi o
cinema de Patos vir abaixo. Ele terminou dizendo: “Pra ele
eu rezo novena/Morreu um ‘Cancão’ sem pena/Deixando
pena pra nós”. Ainda como bom cantador, poderia citar
Oliveira de Panelas, João Paraibano, esse é o que coloca
mais poesia... Manoel Xudu, este era tão poeta... é muito
difícil fazer verso de louvação, elogiar quem pagou a você,
na bandeja, se fazer um verso bom. Mas uma vez o pai de
uma moça muito bonita mandou a moça botar o dinheiro
na bandeja e Manoel Xudu terminou, eu não lembro a
estrofe toda, mas ele terminou dizendo assim: “É tão linda
essa mulata/Que a morte vindo matá-la/Volta chorando e
não mata”. Das mulheres que cantam, Mocinha de Passira
é aquela que é mais poeta, enfrenta qualquer cantador em
pé de igualdade. Entre os violeiros citaria ainda Edísio
Calixto, Zé Maria, do Ceará.