terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cordel em Prosa III




A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton
Parte III
(Clique para voltar para a Parte I ou Parte II)



Pois era Maria mesmo a mulher que ali estava, e, na praça, com seu filho, sob as árvores brincava. Luzinete, ao ver Maria e o filho naquele dia, quase não acreditava. Ficou entre o receio e a curiosidade de ir falar com Maria. Era grande a sua vontade, mas também sentia medo de revelar o segredo da sua nova identidade.



Entre o medo e a vontade, esta é que prevaleceu. Foi falar com Salomé para saber como viveu ela nos últimos anos. Funcionaram os seus planos: Maria não percebeu; nem notou que Luzinete era o mesmo Zé Luando. Então ficaram as duas lá na praça, conversando.


Sobre a vida de Maria, Luzinete, aos poucos, ia mais e mais se informando. Inventou que tinha vindo há pouco de Fortaleza, para abrir uma boutique ou um salão de beleza, e iria precisar de alguém para lhe ajudar nos trabalhos da empresa. Maria, interessada pela oportunidade, foi logo lhe orientando sobre as coisas da cidade, querendo lhe demonstrar que queria trabalhar e tinha capacidade.


Luzinete perguntou se o marido de Maria seria a favor ou contra que ela passasse o dia trabalhando em seu salão. Maria disse que não, que marido não havia. Que há mais de cinco anos o esposo tinha ido embora pra algum lugar que era incerto e não sabido, e que ela, desde então, tomara a decisão de não ter outro marido. Disse:


– Já gostei de homem, mas hoje não quero mais. Prefiro viver sozinha, levar minha vida em paz, trabalhando honestamente. Caminho sempre pra frente e evito olhar para trás.


Luzinete então falou:


– Sua história é parecida com o que tenho passado ao longo da minha vida. Eu também vivo sozinha. Toda esperança que eu tinha, para sempre está perdida.


Então Salomé lhe disse:


– Vou dizer para a senhora: eu poderia viver como já vivi outrora, se meu marido voltasse, e voltando me chamasse para ir daqui embora. Pois, embora Zé Luando também não fosse perfeito, ele era um homem bom, que me aceitava do meu jeito. Tratava-me com amor, me dava muito valor, e por mim tinha respeito. Se um dia foi embora, eu lhe dou toda razão, porque eu me aproveitei de sua boa intenção. Maldosamente menti, mas depois me arrependi daquela injusta traição. Mas, mudemos de assunto. Estou lhe incomodando, falando do meu passado e também de Zé Luando.


Então Maria olhou para Luzinete e notou que ela estava chorando. Maria disse:


– Senhora, o que está acontecendo? Me explique, por favor, o que a deixa assim, sofrendo? Eu fiz algo de errado? Mexi com o seu passado com o que estou dizendo?


– O homem de quem tu falas, hoje em dia não existe. Mas eu choro de emoção, não penses que estou triste. Fico feliz de te ver agora se arrepender de trair como traíste.


Luzinete disse isso olhando bem para Maria, que, olhando também pra ela, nessa hora percebia que estava conversando com o mesmo Zé Luando que foi seu marido um dia. Quando viu que Luzinete era o mesmo Zé Luando, Maria não se conteve, foi logo lhe abraçando e dizendo:


– Que saudade! Será, meu Deus, que é verdade, ou será que estou sonhando?


Luando disse baixinho:


– Não é sonho não, Maria. É apenas um momento de prazer e de alegria, que talvez lá no passado tenha sido programado para acontecer neste dia.


Prosseguiram na conversa, quando o abraço acabou, e Zé contou pra Maria muitas coisas que passou, desde quando ele partiu e pelo mundo saiu, até que um dia voltou. Falou-lhe do seu trabalho e da vida que vivia. Das coisas que aprendeu e dos lugares onde ia. Finalmente, ele contou que em mulher se tornou depois de uma cirurgia.


– É por isso que eu lhe disse que já não existe mais o homem que se casou com você tempos atrás. Eu acho que, hoje em dia, a Luzinete e a Maria são pessoas quase iguais. Mas tenho uma proposta, você topa se quiser. Como eu não quero mais homem, e você também não quer, peço que você me diga, se quer que eu seja sua amiga, ou então sua mulher. De um jeito ou de outro, uma coisa eu lhe digo: você me fará feliz, se vier morar comigo, e traga sua criança, pois tenho muita esperança, que ele seja meu amigo.


Maria ficou surpresa com a proposta formulada, mas a verdade é que ela ficou muito interessada. E disse:


– Eu nunca pensei em um dia virar gay, essa vida é engraçada. Mas, antes de lhe dizer qual a minha decisão, eu lhe peço que agora preste muita atenção, pois tenho algo a dizer. Também tenho que fazer a minha revelação. O menino que você está vendo ali, brincando, não é o mesmo menino que você está pensando. Não é filho do pastor, é fruto do nosso amor, é filho de Zé Luando. Não sei se você se lembra de todo o acontecido, quando me jogou na cama e ficou enfurecido, no dia que eu confessei o meu erro e revelei que havia lhe traído. Caso você não se lembre, eu vou lhe dizer agora, que seu lado masculino despertou naquela hora. Depois que me possuiu, você se virou, dormiu e de manhã foi embora. Aquele é o nosso filho, acredite se puder. Revelar isso pra ele, você só faz se quiser. Mas eu posso ensinar ele a lhe respeitar, seja você homem ou mulher.


Zé Luando, ouvindo isso, não continha a emoção. Olhou bem para Maria, segurou a sua mão, e disse:


– Pegue o menino. Aqui o nosso destino tomou outra direção! E quanto ao seu outro filho, vá buscar ele também. Viveremos todos juntos, uma família de bem. O que houver de diferente é problema só da gente, não interessa a ninguém.


Nesse ponto, a história começou a terminar. Luzinete e Maria foram para outro lugar levando as duas crianças, e com muitas esperanças de a vida recomeçar.


Pelo que fiquei sabendo, Luzinete e Maria são hoje muito felizes, vivendo em paz e harmonia. Os filhos estão criados, em breve estarão formados em Direito e Engenharia. Foi um deles, aliás, quem me contou tudo isso, e apenas pediu que eu assumisse o compromisso de colocar no papel, procurando ser fiel a tudo o que me contou.


E assim vou terminando a história de Zé Luando, que muito me impressionou.


POETA ARIEVALDO VIANA NO PROGRAMA "OUVIR DIZER"

Foto: Odilon Camargo e Arievaldo Viana (por Juliana Araújo)


"OUVIR DIZER" é um espetáculo de leituras dramatizadas de textos de autores da literatura brasileira e universal, apresentado pelo ator ODILON CAMARGO no Centro Cultural BNB - Fortaleza-CE.

O escritor/cordelista Arievaldo Viana é o destaque nesse mês de FEVEREIRO 2010. A apresentação do OUVIR DIZER será no dia 23, terça, de 15h30 às 16h30. A platéia apreciará a leitura dramatizada de trechos da obra do poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário Arievaldo Viana Lima, por Odilon Camargo. 60min.

MARQUE NA SUA AGENDA.

COMPAREÇA! PASSE ADIANTE!!!


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cordel em Prosa II




A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton


Parte II
(para ver a Parte I, clique aqui)


O tempo ia passando, e o Zé daquele jeito. Com nada se agradava, já não falava direito, até que, um certo dia, ele disse pra Maria:




– Não estou nada satisfeito. Desde o dia em que você disse pra mim que estava com a barriga crescendo, pois um filho carregava, passei a imaginar, e até desconfiar, que você me enganava. Eu me casei com você por eu ter acreditado que do homossexualismo Deus havia me curado. E você vê como eu tento, mas o nosso casamento ainda não foi consumado. Já falei com o pastor, que me disse pra ter fé. Mas preciso que você me explique como é que esse menino nasceu. Pois, se ele não é meu, quem é o pai, Salomé?



Nessa hora, Salomé não teve como se opor à pergunta do marido, e disse:


– Seja o que for que agora você faça, já está feita a desgraça. Esse filho é do pastor!


Zé Luando, nessa hora, sofreu uma transformação. Rasgou a roupa que usava, ajoelhou-se no chão, levantou-se de um salto, deu um grito – um grito alto – ficou virado no cão. Jogou Maria na cama, arrancou-lhe o vestido, deu meia dúzia de tapas, na cara e no “pé-do-ouvido”, dizendo:


– Sua desgraçada! Você estava combinada com aquele cabra atrevido!


Você se casou comigo para esconder seu pecado. Era amante do pastor e dele tinha emprenhado. Casou só pra esconder que um filho ia ter daquele cabra safado!


Depois disso, não se sabe direito o que aconteceu. Se Luando desmaiou ou se ele adormeceu, mas, de cima de Maria, só saiu no outro dia, depois que amanheceu. Depois de se levantar, disse:


– Tenho que partir. Vou só botar uma roupa e em seguida vou sair.


Maria não entendeu quando ele escolheu um vestido pra vestir. Vestiu-se com a roupa dela, usou sua maquiagem, passou creme no cabelo, numa espécie de massagem, despediu-se de Maria. Disse que não voltaria e foi-se sem levar bagagem.


Maria ficou olhando enquanto Zé ia embora. Vestido com sua roupa, saiu pela rua afora. Então disse, bem baixinho:


– Deus clareie o caminho que você tomou agora.


Dizem que no mesmo dia Zé deixou sua cidade. Partiu para Fortaleza em busca da liberdade de viver como mulher, sem ninguém por a colher em sua sexualidade.


Mais uma vez a história poderia terminar. Começando outra vida, morando em outro lugar, selava-se o destino do Zé, que nasceu menino, para mulher se tornar. Mas, como já disse antes, nada disso eu invento. Apenas conto o que chega até meu conhecimento. É por isso que prossigo, pedindo ao leitor amigo que permaneça atento.


Cinco anos se passaram desde que aconteceu de Luando ir embora da cidade onde nasceu. O povo ainda comentava, às vezes se perguntava, se era vivo ou se morreu. Enquanto isso, Luando arranjou em Fortaleza emprego de manicure em um salão de beleza. Só andava maquiado, com o cabelo arrumado, parecia uma princesa. Ali, ninguém lhe chamava por seu nome original. Luzinete foi o nome que adotou na capital. Tinha até um namorado, servidor aposentado da Receita Federal.


Mas, apesar dessa vida que ele agora levava, uma parte do seu corpo ainda lhe incomodava. Pensava, então, consigo:


– Pra ser mulher, meu amigo, se pudesse, eu lhe cortava.


Comentava com as amigas que já guardava dinheiro, pois mesmo que precisasse viajar para o estrangeiro, um dia ainda faria a sonhada cirurgia pra ser mulher por inteiro. Acabou achando um médico pra fazer a cirurgia. Cortou de onde sobrava, fez furo onde não havia, com o serviço terminado, disse que foi transformado em mulher naquele dia.


O que ele não sabia, nem podia imaginar, era que o seu destino novamente ia mudar. O que houve, na sequência, até hoje a ciência não conseguiu explicar.


Depois de passar um tempo curtindo o resultado da sonhada operação que tinha realizado, Luzinete percebeu que em seguida aconteceu um fato inesperado. Pois se deu que Luzinete, que um dia foi Luando, do antigo namorado foi aos poucos desgostando. Ao invés de se entenderem e de em paz conviverem, estavam sempre brigando. Até que não deu mais certo e o namoro acabou. E Luzinete gostou quando tudo terminou. Alguns dias mais à frente, com a sua confidente, Luzinete comentou:


– Não sei o que aconteceu depois da operação. Eu fiquei toda feliz com minha transformação. Mas, depois que eu me virei em mulher, eu abusei a homem. Quero mais não! Você pode até achar que isso não faz sentido. Que meu juízo era pouco e agora está perdido, mas, comigo, até parece que quase tudo acontece ao contrário ou invertido. De uns dias para cá, o que me deu foi vontade de em algum feriado ir ver a minha cidade. Do jeito que estou agora, ando por lá e venho embora ocultando a identidade.


A amiga lhe falou que não fosse tão ousada. Que talvez essa viagem fosse muito arriscada. Se fosse reconhecida, bagunçava sua vida que estava tão arrumada.


Aconselhar Luzinete de nada adiantava. Quando queria uma coisa, ninguém mais lhe segurava. Em uma sexta imprensada, Luzinete, na estrada, pelo sertão viajava. Guiando seu automóvel, foi entrando na cidade e foi logo percebendo que estava com saudade do lugar onde nasceu, e também onde viveu um trecho da mocidade. Percorreu algumas ruas e parou para descansar na praça em frente à igreja, onde pôde observar as pessoas que passavam e ali se acomodavam ficando a conversar. Lembrou de tempos atrás, quando também lá esteve, e dos momentos felizes que ali um dia teve. Tomada de emoção, pôs a mão no coração, de chorar não se conteve.


Estava assim Luzinete, curtindo sua nostalgia, quando viu que ali chegava uma mulher, que sorria brincando com um menino. Então pensou:


– Mas que destino! Aquela não é Maria?


domingo, 31 de janeiro de 2010

SORTEIO - URGENTE

INGRESSOS PARA "O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS"
Atenção, frequentadores do blog!
MundoCordel está sorteando um kit com um memoboard e dois ingressos para o filme "O homem que engarrafava nuvens" para vocês!
Para concorrer, basta enviar um e-mail para marcos.mairton@uol.com.br, respondendo à pergunta: "O filme 'O homem que engarrafava nuvens' fala sobre a vida e a obra de qual compositor brasileiro?".
O prazo para concorrer se encerra às 18 horas do dia 05.02.2010, sexta-feira, e o sorteio será sábado, dia seis.
ATENÇÃO: OS INGRESSOS VALEM PARA QUALQUER CINEMA ONDE O FILME ESTEJA SENDO EXIBIDO.
Veja o vídeo abaixo e consiga dicas para a resposta:

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Humberto Teixeira - O filme



O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS




Já está nos cinemas, desde 16 de janeiro, o filme "O homem que engarrafava nuvens", sobre a vida de Humberto Teixeira. Mas, quem foi esse Huberto Teixeira?

Bem, o trailer do filme dá uma noção, mas acho que precisa ver o filme todo para entender um pouco porque tantos artistas famosos o reverenciam...




domingo, 17 de janeiro de 2010

Cordel em prosa



A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton(*)
Parte I


Era uma vez Zé Luando, que um dia nasceu menino, cresceu, casou, descasou, mas, por obra do destino, não ficava à vontade, nem tinha felicidade, no seu corpo masculino. No sertão do Ceará dizem que ele nasceu. Numa pequena cidade, estudou, brincou, cresceu. Todo mundo o conhecia, mas ninguém esperaria ocorrer o que ocorreu.

Esse nome “Zé Luando” veio de um combinado do nome de sua mãe com o de seu pai ligado. Luana a mãe se chamando, e o pai, José Fernando, o nome assim foi formado.

Desde que era pequenino, muita gente já notava que brinquedo de menino a ele não agradava. Soltar pião, jogar bola, brincar de luta na escola, nada disso ele gostava. Mas logo se alegrava se chegava à sua mão um batom ou um espelho que achasse pelo chão. Com a boca toda pintada, deixava a mãe intrigada com a sua animação. O pai não tinha noção do que estava acontecendo. Ou estava trabalhando, ou em algum bar, bebendo. O menino delicado, e o pai, sempre ocupado, nada ia percebendo.

Assim ele foi crescendo com seu jeito diferente. De menino em rapaz tornou-se rapidamente. Mas, arranjar namorada era coisa complicada, que lhe deixava doente. Quando ia a uma festa, bem que ele até tentava. Aproximava-se das moças, conversava, conversava, mas, só de imaginar a sua boca beijar, seu estômago embrulhava. Na verdade, nessas horas, quando estava perto delas, olhava era para as roupas usadas então por elas. Ficava a imaginar, algum dia desfilar, usando uma daquelas.

Na cidade, àquela altura, todo mundo comentava, pois chamava a atenção Zé Luando onde passava. Fosse na volta da missa ou no bar da Dona Ciça, assunto é o que não faltava.
Assim, foi grande a surpresa quando chegou a notícia:

– Zé Luando vai casar com a filha de Dona Eunícia! E não pode ser boato, pois quem me contou o fato foi um cabo da polícia!

Segundo o cabo, ele esteve na Igreja Transversal, conversou com o pastor, explicou o principal e perguntou:

– Terá cura para uma criatura que nasce homossexual?

O pastor disse:

– É claro! O milagre é dos pequenos! Basta só você ter fé, e os resultados são plenos. Mas, pra mostrar devoção, faça uma doação de cem reais, pelo menos.

Zé Luando acreditou e fechou logo o negócio. Entregou os cem reais ao chefe do sacerdócio, que lhe disse:

– Tenha fé, pois Jesus agora é, além de amigo, seu sócio.

A partir daquele dia, Luando ficou mudado. Só vivia na igreja rezando, ajoelhado. Um dia o pastor falou:

– A maldição acabou. O irmão está curado. Você agora é homem para o que der e vier. Vai casar e ser feliz, ter os filhos que quiser. Espere que, amanhã, apresento-lhe a irmã que vai ser sua mulher.

Zé Luando, emocionado, quase não acreditava no milagre que o pastor então lhe comunicava. Por ele, no mesmo dia, a noiva conheceria e com ela se casava.

É aí que entra na história a Maria Salomé, filha de Dona Eunícia com Seu João Buscapé. Uma mocinha faceira que trabalhava de obreira na mesma igreja de Zé. Era ela a dita noiva que o pastor lhe arranjou, e depois disse que ela por José se apaixonou. Entre Luando e Maria, na noite do mesmo dia o noivado começou.

A notícia do noivado foi uma grande surpresa. Lá no bar da Dona Ciça, era assunto em toda mesa, porque, mesmo namorando, ninguém via em Zé Luando qualquer sinal de macheza. Ficava até esquisito, quando o casal passava. Saía gente na porta, todo mundo olhava, olhava... Luando até parecia mais mulher do que Maria, e ela nem se incomodava.

E assim foi o namoro e o tempo do noivado. O dia do casamento também foi logo marcado. Quando esse dia chegou, o povo se ajuntou pra ver Luando casado. No casório, o pastor sorria todo contente. O milagre de Luando encheu a igreja de gente. E a arrecadação de dízimo e doação aumentava de repente.

A história poderia acabar neste momento. Um “felizes pra sempre”, logo após o casamento, e a história de José, com Maria Salomé, terminaria a contento. Mas tenho que prosseguir narrando o que aconteceu, pois, sete meses depois, o filho de Zé nasceu, mas, em vez de animado, Zé ficou acabrunhado, com cara de “já morreu”.

Os amigos visitavam o bebê recém nascido, que, apesar de prematuro, era grande e bem nutrido, mas o Zé continuava alheio ao que se passava, de alegria desprovido.

(*) Saiba um pouco sobre esta obra:
Ano passado, participei do concurso "Arte da Magistratura", uma iniciativa muito interessante da Associação Paulista da Magistrados, abrindo espaço para os juízes que, apesar da complexidade e seriedade de seu trabalho, conseguem manter viva em seu espírito a chama da arte e da sensibilidade. O concurso era aberto a juízes estaduais de São Paulo, mas juízes federais e do trabalho poderiam ser de qualquer estado da federação, o que permitiu que eu concorresse.
Havendo duas categorias - artes plásticas e obra literária - Claro que participei da segunda. Para minha felicidade, dois de meus escritos ficaram entre os 24 semi-finalistas: a crônica "Uma confissão apaixonada" e o conto "A história de Zé Luando, o homem que virou mulher". No finalzinho de 2009, foi divulgada a lista dos dez finalistas e, para minha alegria, lá estava meu nome entre eles, com a obra "Uma confissão apaixonada". Resolvi postar as duas neste MundoCordel, começando pela "História de Zé Luando", que tem uma peculiaridade: originalmente, o conto foi escrito em cordel, mas, para concorrer como conto, achei que a apresentação em versos poderia confundir a cabeça da comissão julgadora. Afinal, como o cordel poderia concorrer como conto, se os contos são em prosa e os cordéis em verso? Perguntei a uma amiga, Juliana, prima de minha esposa, doutora em letras, o que fazer. Segundo ela, o cordel é poesia. Poesia épica, como a "Ilíada" a "Odisséia" e "Os Lusíadas". Enchi-me de orgulho diante de tal parecer - ainda mais vindo de quem entende do assunto - mas, continuei achando que, na categoria poesia, a coisa seria complicada. Além disso, eu lia o texto e continuava vendo um conto. Foi aí que veio a idéia de apresentá-lo como um texto escrito em prosa, inclusive abrindo mão da rima e da métrica de vez em quando, se necessário fosse para melhorar o resultado final. Afinal, são técnicas diferentes de escrita, então, algumas construções muito boas em verso não ficam bem quando em prosa, e vice-versa. Bem, o resultado está logo acima. Como ficou um pouco longo, está dividido em três capítulos. Espero que esses comentários não tenham cansado o leitor, a ponto de fazê-lo desistir da leitura dos próximos capítulos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um conto de natal

Fecho o ano com esse lindo conto de natal de Luís Campos. Feliz 2010!
Ainda Há Esperança!
(Um Conto de Natal)
Um conto de Luís Campos (Blind Joker)
Estava quase à hora da ceia e Armando não sabia onde se metera oYuri. Perguntou à sua mulher, mas ela também não sabia do menino. Rosa indagou à pequena Miucha sobre o paradeiro do irmão e ela disseque não sabia dele. O vira sair em direção ao Campo Grande, por voltadas quatro horas.
Armando e rosa sentaram-se num dos bancos. Nada diziam, apenas olhavam para o nada ou, quando muito, para o céu estrelado. Miucha, alheia à preocupação dos seus pais, nos seus oito anos, brincava com sua boneca.
O homem recordava o sítio. Por que o vendera? Por que viera para Salvador atrás de um sonho que talvez nem fosse o seu? Mas ele tinha certeza que fizera essa bobagem pensando em dar um futuro melhor para as crianças. Aqui elas poderiam estudar, ser alguémna vida e quem sabe, dar-lhes uma velhice tranqüila! Por ele, ficaria no sítio. Cuidar da horta, da rocinha de feijão, milho e mandioca, ordenha Gabiroba, ver Rosa cuidar das galinhas e da Cabriolé e do Fantoche, seu casal de porcos. Sentia agora o cheiro da comida gostosa que Rosa fazia tão bem. Seu colchão de palha, suas noites de lua cheia no terreiro da casa, proseando com sua Rosa. Aquele delicioso café com tapioca toda manhã. Nada disso voltaria!
A mulher também pensava. Nunca condenou o marido e estaria disposta aseguir com ele este caminho do inferno. Procurava não pensar no que ficou pra traz. Ele lhe contara seu sonho e Rosa quis sonhar com ele!
No dia em que chegaram aqui, foram morar num barraco cedido pelopatrão. Rosa procurou uma escola próxima e matriculou as crianças. Com nove e sete anos, ainda não tinham freqüentado uma escola, embora soubessem ler, pois tanto Rosa quanto Armando lhes ensinara. Quase todas as crianças da redondeza do sítio, na idade dos seus, eram analfabetas. Em grande parte da zona rural desse País, até hoje, não há escolas. Também não há professoras. Como poderia haver professoras ou escolas se não existem estradas? A maioria dos sítios e pequenas fazendas são interligadas por caminhos estreitos e esburacados que mal dão para passar uma carroça. Assim acontecia no interior onde vivia Armando. O acesso ao seu sítio e dos vizinhos era tão estreito que quase não dava para ele passar com sua carroça, puxada por Café, seu jeguinho, quando precisava ir à"cidade" levar seus produtos para vender na feirinha e, na volta,trazer açucar, café, farinha de trigo e biscoitos para os meninos. Na região passava um pequeno rio, o que dava alguma tranqüilidade aos moradores. Também havia muitas árvores frutíferas, o que contribuía para que a alimentação das crianças fosse mais saudável. Quando a coisa "pegava", Armando saía em busca do alimento na mata. Como ainda havia alguns animais de pequeno porte por ali, Armando, devez em quando, se aventurava pela mata para caçar, acompanhado de Geléia que, aos latidos, acuava os animais, deixando-os à mercê do tiro certeiro da espingarda-de-socar que o próprio Armando fizera. Com o "almoço" da família garantido, ele retornava para casa e, pelo caminho, pegava algumas raízes e folhas para que Rosa fizesse os "santos remédios" que, nem só matavam as "bichas", como serviam para os ungüentos, usados nos machucados, bem como para os chás e xaropes.
Nem completara dois anos como frentista e fora despedido. Teve que deixar o barraco, tirar as crianças da escola e procurar onde abrigar os seus. Arrependia-se de ter vendido seus bens para vir à Capital em busca de oportunidade para seus filhos. Estava tão aéreo em suas divagações que não percebeu dois carros da Polícia Civil que se aproximavam. Quando as viaturas pararam, Armando nem imaginava a que vinham!
Vez por outra, elas estavam por ali. Algumas vezes paravam, davam uma olhadinha e iam embora. Noutras, apenas passavam devagar, olhando para um lado e para o outro.
Destas desceram quatro mulheres e três homens. Elas traziam algumas sacolas e se aproximaram deles e uma delas perguntou:
- O Senhor é o Armando Jaguaripe?
Armando olhou as mulheres. Elas sorriam. Os homens ficaram à parte, mas observavam a cena e os arredores. Miucha levantou-se do chão e veio ficar junto aos pais. Rosa também olhou aquelas mulheres muito bem vestidas e bonitas. Outros moradores se aproximaram. Armando, antes de responder, pensou em como são curiosas as pessoas.
- Sou eu sim, Senhora...
A mulher, que parecia ser a "mandona", falou para um dos homens:
- Coimbra! Trás o Yuri!
O homem foi até uma das viaturas e voltou trazendo o menino pela mão. A mulher que havia dado a ordem, disse:
- Seu Armando, pegaram o Yuri roubando umas coisas num supermercado. Ele nos contou a história de vocês e então resolvemos trazê-lo atéo Senhor!
Armando olhou para o filho carinhosamente, mas, com ar de reprovação na voz, perguntou-lhe:
- Filho, por que você fez isso? É essa a educação que lhe damos? Você viu alguma vez seu pai ou sua mãe pegar qualquer coisa de alguém?
Yuri, entre soluços e abraçando-se ao pai, respondeu:
- Me perdoe, Paizinho! Eu só queria que a gente tivesse um Natal...
- Que Natal seria esse, filho?
- Pai, um Natal de gente e não de bicho... como agente tinha na roça!
Disse o menino ainda chorando. Armando, com os olhos encharcados, replicou:
- Filho, antes um Natal de bicho a ver meu filho roubando!
- Me perdoe, Paizinho... perdoe, Mãezinha!
A esta altura, todos que estavam presentes à cena, tinham lágrimas nosolhos, até mesmo os "durões" policiais. A Delegada interrompeu esse diálogo, dizendo:
- Bem, Seu Armando... nós viemos cear com vocês e trouxemos algumas coisinhas!
Uma das moças tirou da sacola que trazia, duas toalhas de mesa com desenhos natalinos e as estendeu no chão. As outras colocaram sobre estas alguns panetones, bolos, refrigerantes de dois litros, um queijo-cuia, três frangos assados, uma vasilha com farofa e outra com arroz, além de caixinhas de passas. Um dos homens foi até a viatura. Pegou duas garrafas de "cidra", pratinhos, copos e talheres plásticos e veio juntar-se aos demais. A Delegada, sentando-se no chão, falou para os curiosos:
- Todos vocês que moram aqui na praça, podem sentar-se conosco!
E complementou, indicando um lugar:
- Venha, Seu Armando... sente-se aqui com sua família!
Então todos sentaram-se no chão, em torno das toalhas, inclusive os policiais. As quatro mulheres prepararam os pratinhos e distribuiram entre os presentes, colocando nestes, um pouco de cada coisa. Brindaram com a cidra e depois da ceia beberam refrigerante. E aqueles desafortunados que moravam na praça, nesta noite, tiveram um Natal menos indigno...
Meia hora depois, felizes, os policiais retornavam à Delegacia! Nesta noite, brilhou entre os homens a estrela da solidariedade e dacompreensão!
Ainda há esperança!
FIM