segunda-feira, 9 de abril de 2012

Centro Cultural Banco do Nordeste




AGENDA CULTURAL ABRIL 2012

Recebi e-mail da leitora Simone Pessoa divulgando eventos a serem realizados no Centro Cultural do BNB neste mês de abril, o qual entendo relevante repassar:

Gente,

No mês de abril, o Centro Cultural do BNB vai promover uma série de eventos, palestras e troca de ideias em torno da Literatura. Como sei que vocês são da turma dos que gostam de escrever, estou destacando esses dois eventos para vocês anotarem em suas agendas:

- Dia 14/4 (17 hs) – Troca de Ideias: O ciclo de livro, da criação à edição (debate com escritores sobre o processo criativo e os caminhos para a publicação);

- Dia 26/4 (16 hs) – Bate papo com José Castello (escritor, crítico literário, articulista do O Globo) sobre literatura e lançamento do seu livro RIBAMAR, contemplado como o melhor romance pelo Prêmio Jabuti.

Repassem essa dica a quem vocês imaginem que possam se interessar.

Abraço,

Simone

O Centro Cultural do BNB funciona nos primeiros quatro andares do edifício Raul Barbosa, Rua Floriano Peixoto, 941 – Centro, Fortaleza-CE

terça-feira, 3 de abril de 2012

Cordel e Educação



"MEU TRABALHO PARA A ESCOLA 
É FAZER UM CORDEL"
Marcos Mairton

Quase todo dia recebo neste Mundo Cordel manifestações como essas:

“Ai eu tô presisando de um cordel para um trabalho da escola, eu ñ sei fazer e por isso pesso a ajuda de vcs por favor me manda um ainda hoje!!!!!!!”

“eu não sei fazer um cordel pois minha Professora de Lingua Portuguesa quer que eu e meus colegas de sala passem um cordel mais ninguem sabe tem como voçes mim ajudarem um pouco ou então da uma dica de como é um cordel ?”

“ahhhhhhh ate vc (...) a prof de poRTUGUES Passou esse mtrabalho!!!!!!!!!!!!!poiser gente nao tenho a minima como criar um cordel me ajudemm...........por favor”

“n sei fazer cordel presiso pra 2 trabalho de arte”

Longe de querer tripudiar sobre a dificuldade que essas pessoas demonstram para a comunicação por meio da Língua Portuguesa - até porque em geral são crianças, que dão seus primeiros passos na linguagem escrita - pretendo chamar a atenção para um fato que parece estar relacionado com a popularidade que a Literatura de Cordel vem reconquistando nos últimos anos.

Bem se sabe que atualmente, nas escolas brasileiras, é comum se falar de Cordel na sala de aula, seja para o estudo da Literatura de Cordel como manifestação artística, seja usando o Cordel para estudar outros temas, como ecologia, história e até matemática.

Para mim, que sou cordelista - e penso que, para os cordelistas em geral - é animador ver o Cordel ocupando esse espaço na educação, seja de crianças, seja de jovens e adultos. A linguagem simples e direta, associada ao ritmo da escrita rimada e metrificada, sem dúvida são fatores que ajudam no aprendizado, e, ao que tudo indica, os resultados já são sentidos pelos educadores que lançam mão do Cordel em seu trabalho.

A par disso, parece-me estranho que alguns professores estabeleçam a criação de um Cordel, tratando desse ou daquele assunto, como trabalho a ser desenvolvido pelos alunos, valendo nota. Quando recebo os pedidos de ajuda dos estudantes internautas, pergunto-me: “É razoável exigir de um estudante, especialmente uma criança, que aborde determinado tema em versos, observando as regras de rima e de métrica características da Literatura de Cordel?”.

Ainda não cheguei a uma posição definitiva, mas, até agora, o estabelecimento da criação de um Cordel como tarefa válida para obtenção de nota, tem me parecido um tanto forçado. Chego a pensar se os professores que agem assim vêem o Cordel com algo banal, que qualquer pessoa poderia criar. Por outro lado, não posso crer nisso, pois sei que os professores que utilizam o Cordel como ferramenta educativa são exatamente aqueles que o valorizam e admiram, e quem estuda a Literatura de Cordel sabe que não é fácil escrever rimando, metrificando e, ainda por cima, sintetizando o conteúdo para desenvolver ideias, às vezes complexas, em estrofes de seis, sete ou dez linhas.

Aliás, até se torna relativamente fácil para quem tem o dom, o que não depende de educação e cultura, pois muitos são os cordelistas de renome que praticamente não tiveram estudo, embora a maioria reconheça que a leitura enriquece o vocabulário e amplia as possibilidades para a abordagem de assuntos mais variados.

Sabendo disto, parece-me natural que, em um grupo de estudantes, um ou outro tenha condições para escrever em forma de Cordel, mas boa parte simplesmente não conseguirá. Afinal, é de arte que se está a tratar, e arte requer um mínimo de talento.

“Mas, crianças não fazem atividades com tintas e pincéis, sem ser artistas plásticos?”, é a pergunta que me vêm à mente. E junto me vem uma resposta: “É verdade. Como é verdade também que crianças fazem pequenas dramatizações sem ser atores e atrizes, mas, não é comum que crianças componham canções ou executem peças musicais ao violino”. No final, salvo os casos de crianças-prodígio, nem o quadro será arte plástica, nem a dramatização será uma peça de teatro, mas alguma coisa será feita. Já a canção, pode ser que nunca fique pronta. Quanto ao violino, além de ser complicado até para músicos, o ruído que faz quando mal utilizado é simplesmente insuportável.

Talvez as coisas sejam assim mesmo. Algumas manifestações artísticas suportam bem que pessoas que não têm vocação para elas brinquem com suas ferramentas, outras nem tanto. Pelo que tenho visto nos pedidos de ajuda que chegam ao Mundo Cordel, parece-me que, tendo como ferramenta a palavra, e sendo necessário que o uso da palavra observe algumas regras rígidas, a Literatura de Cordel é muito divertida para ser lida, declamada, interpretada, mas a sua criação costuma deixar em pânico aqueles que não têm pelo menos um pouco de habilidade inata para fazê-lo.

Nessa linha de pensamento, creio que até faça sentido adotar como atividade escolar a tentativa de elaboração textos em forma de Cordel, como trabalho de grupo, mas sem o dever de se chegar a um resultado final muito elaborado. Isso daria oportunidade para que cada um desenvolvesse o seu talento e criatividade, mas sem gerar pressão sobre os que não conseguissem chegar a um resultado apresentável.

Claro que essa é a minha visão, como cordelista, sem qualquer garantia de que outros cordelistas pensem assim, e sem saber o que pensam os educadores sobre o assunto. Estes talvez tenham explicações que afastem totalmente essas minhas ponderações, e eu bem que gostaria de conhecê-las.

sábado, 31 de março de 2012

Poesia de Dalinha Catunda



SERTÃO DE ROUPA NOVA
Dalinha Catunda
Pescado da coluna "EU ACHO É POUCO", 
que a autora mantém no Jornal da Besta Fubana
A foto também é da autora.

Os açudes estão cheios
A natureza faz festa.
A flora sorvendo chuvas
O seu verdor manifesta.
Flores bordam a campina,
E a natureza se anima
Ao fulgor que a chuva empresta.


É o sertão de roupa nova,
É a caatinga reflorida.
Reaparecem as flores
O verde traz nova vida.
É o brotar da esperança
É a chegada da bonança
É a caatinga colorida.


A chuva faz seu milagre,
Quando molha meu rincão.
A vida brota em cores
Com a umidade do chão.
A paisagem é tão bela
Abrolha nova aquarela,
Colorindo meu sertão.

terça-feira, 27 de março de 2012

No Jornal e na Revista

Voltando de viagem de férias no domingo passado (25.03.2012), encontrei em minha correspondência um pacote que muito me alegrou. Eram exemplares do jornal "Ceará em Brasília", cuja edição de fevereiro de 2012 contém matéria de página inteira sobre minhas atividades como juiz federal e cordelista. O material me foi remetido pelo Diretor de Comunicação Social da Casa do Ceará em Brasília, J. B. Serra e Gurgel, a quem ainda não conheço pessoalmente, mas pretendo conhecer na próxima vez que for à Capital Federal.Quem quiser conferir a matéria, pode baixar o jornal no site da Casa do Ceará em Brasília (www.casadoceara.org.br).

Parece que os ventos estavam favoráveis, porque no dia seguinte (ontem, 26), Flávio Novaes, editor-executivo da Poderes em Revista, me passou a informação de que a edição de março da revista estava pronta e contendo matéria de oito páginas sobre meu ofício de escritor, em paralelo à minha função de magistrado. E que trabalho o do Flávio Novaes! Fiquei emocionado a ler a reportagem.

Agradeço a todos os que ajudam a divulgar a Literatura de Cordel, e envio um abraço especial a Fernando Gurel e J. B. Serra e Gurgel, da Casa do Ceará em Brasília, e a Hélio Santana e Flávio Novaes, da Poderes em Revista. Segue trecho da matéria sobre A Vida Além do Direito:

Foto: Chico Javali

CORDELISTA ENCANTADO
Flávio Novaes

O estalo pode acontecer a qualquer momento, basta surgir uma boa história. E que seja ali mesmo, na mesa de audiência: pelo inusitado do pedido, do contraditório inconsequente ou, ainda, da postura folclórica do réu.

Não parece fácil transformar episódios do cotidiano em textos criativos, com pitadas de elementos do mundo jurídico. Mas o juiz federal Marcos Mairton tira isso de letra. Da comarca de Quixadá, no interior cearense, produz relatos divertidos da experiência forense por meio de contos narrados em verso, os cordéis. Uma paixão.

Arte especial, inconfundível. “Uma das diferenças entre o cordelista e o repentista é que enquanto o repentista faz os versos na hora, de repente, conforme o tema do qual é incumbido pela platéia ou pelo patrocinador, o cordelista faz os seus versos em prazo maior, reservadamente, e depois os apresenta. Daí ser chamado também de poeta de gabinete”, explica Mairton, mestre em Direito Público pela Universidade Federal do Ceará.

Os prazos são implacáveis, sabem aqueles que vestem togas. E os cordelistas, assim como os zelosos operadores do Direito, não querem cair em mora. “Os bons cordelistas costumam ser rápidos e, embora não façam de imediato, conseguem escrever em versos na mesma velocidade que escreveriam as mesmas coisas em prosa”, diz.

É como um desafio a ser superado. Mas para alcançar tal nível de rapidez nas respostas, leva tempo. Hoje, aos 45 anos, o juiz relembra dos tempos de criança, quando participava, em Pirambu, bairro de Fortaleza, do ritual de malhação do Judas no Sábado de Aleluia. O pequeno Mairton, desde os oito anos, também fazia os seus testamentos para o mais famoso dos traidores, com as pequenas rimas tradicionais, para a alegria da família. “A lembrança mais antiga que tenho. Depois fiquei um bom período sem fazer nada parecido”, diz.

Leia a íntegra da matéria em PoderesemRevista.com.br, ou melhor, faça gratuitamente o download da revista, que está muito bonita.

domingo, 25 de março de 2012

Poesia de Carlos Aires


VIDA E MORTE DE CHICO ANYSIO
Carlos Aires
Pescado da coluna "Proseando na Sombra do Juazeiro", 
do Jornal da Besta Fubana 


O Senhor Francisco Anysio
De Oliveira Paula Filho
Astro luzente na arte
Sua estrela tinha brilho
Gestor de muitas imagens
E de tantos personagens
Cada um com sua pose
O cidadão incomum
Veio ao mundo em trinta e um, (1931)
Partiu em dois mil e doze


Ceará foi seu Estado
Maranguape onde nasceu
Foi ao Rio de Janeiro
E lá se estabeleceu.
Exímio radialista
Que se tornou humorista
De sucesso nacional
Em diversas emissoras
Tendo as fases promissoras
No universo “Global”


Foi em vida um grande astro
Com sua mega estrutura
Inventivo habilidoso
De vasta desenvoltura
Dando vida as criações
Viveu mendigos, vilões.
Celebridades, plebeus
Fez: pastores, sacerdotes.
Soube explorar bem os dotes
Que ganhou das mãos de Deus


Chico Anysio foi o nome
Que lhe elevou as alturas
Ao longo do seu trajeto
Foi criando outras figuras
E no humor pisou fundo
Criou “Professor Raimundo”
Sucesso em toda nação
O “Primo Rico” e “Popó”
“Boris” “Bonfim” e “Bozó”
“Brazuca” e “Pantaleão”


Criou “Alberto Roberto”
“Al Cafone” e “Alfacinha”
“Albino” “Albarde”e “Alfano”
“Azanbuja” e “Esquerdinha”
“Bexiga” “Bento Carneiro”
O “Coronel Limoeiro”
“Coalhada” “Ciço Romão”
 “Doutor Rosseti” “Divino!
“Fumaça” “Haroldo” “Quirino”
“Santelmo” “Biu” e “Bicão”


O “Jovem” “Justo Veríssimo”
“Bonfá” “Bolada” “Bim Bim”
“Bronco Billy” “Bruce Kane”
“Castelinho” “Chiquitim”
“Nozinho” “Napoleão” 
“Nazareno” “Corrimão”
Criou “Neyde Taubaté”
“Nicanor” e “Osvaldão”
“Padre Miguel” e “Gastão”
“Milton Gama” e “Salomé”


“Sudenio” “Silva” “Simplício”
Tan Tan” “Tadinho” “ “Galileu”
“Tavares” “Painho” “Olindo”
“Tin Tones” “Pitolomeu”
“Jean Pierre” “João Ninguém”
“José Maria” “Quem Quem”
Também “Joca Ezaquiel”
“Lobo Filho” “Mariano”
“Pedro Fontes” “Franciscano”
“Hilário” e “Zelberto Zel”


“Véio Zuza” “Uruibulino”
“Virgílio” “Zé Faxineiro”
“Vovó Zefa” “Valentino”
“Zé da Silva” o brasileiro
“Badé Mangáio” e o “Baiano”
Que satiriza “Caetano”.
Viveu “Coronel Lindu”
“Cascata” “Apolo” “Bandeira” 
“Calheiros” “Canavieira”
“Fukida” e “Caramuru”


Fez “Coronel Lindomar”
Também “Coronel Candinho”
O “Comandante Alencar”
Fez “Profeta” Canarinho”
“Seu Genaro” “Sacadura”
Português de linha dura.
“Severino Pandolé”
“Vieira Souto” e “Meinha” 
Um jogador de alta linha
Fez “Frota” e “Dona Dedé”


Também fez “Marmo Carrara”
 “Mister Happy” “Mirandinha”
“Nico Bondade” “Tutu”
“Paulo Brasilis” “Linguinha”
“Roda Presa” “Roberval”
“Dona Hilária” “Genival”
E o “Capitão Trovão”
“Gualicho” “Zé Tamborim”
“Tutoia” “Seu Jaime” e enfim
Fez “Professor Gavião”


“Karlos Kafunga” “Lingote”
“Kenny Rocha” e “Alfinete”
O “Delegado Matoso”
Tão cheio de cacoete
Criou o “Doutor Salgado”
Moralista exagerado
Mão de ferro, linha dura.
Foi um mestre em seu oficio
Sem fracasso ou sacrifício
Teve um viver de ventura.


Foi na Rádio Guanabara
Que iniciou a carreira
Depois na Mayrink Veiga
Fez temporada ligeira
E nesse viver maluco
Na Clube de Pernambuco
Também fez a sua historia
Foi em vida um vencedor
Fez sucesso como ator
Cumpriu bem a trajetória


Foi grande radio-ator
Pintor, escritor poeta.
Foi jornalista esportivo
Mas não seguiu essa meta
Esse gênio promissor
Ao abraçar o humor
Com muita dedicação
Gracejo e habilidade
Pra nossa felicidade
Firmou-se na profissão.


Foram seis seus casamentos
Sete filhos que gerou
Além desses ainda tem 
Mais um que ele adotou.
Foi para o reino da gloria
Mas o legado, a memória
Jamais se apagará
Um baluarte inconteste
Nascido aqui no Nordeste
Nas terras do Ceará.


O Brasil está chorando
Pela perda desse fruto
Calaram-se as gargalhadas
O humor está de luto
Quem promoveu euforia
E nos deu tanta alegria
Pra quem tiro meu chapéu
O seu viver se encerra
Aqui na face da terra
Vai fazer rir lá no céu.


Adeus estro dos humores
Prossegue a tua viagem
Pra nós agora só resta
Prestar-te a ultima homenagem
A matéria ora perece
Mas o povo não te esquece
E se hoje o teu corpo jaz
Na perpetua eternidade
Pra nós só resta à saudade
Vai com Deus, descansa em paz.

domingo, 18 de março de 2012

Poesia de Damião Metamorfose




A VIDA
Damião Metamorfose

*
Como Poeta escritor,
De quase tudo abordei.
Narrei verdades, mentiras,
histórias que eu inventei,
Falei que a morte era amiga
E agora nessa cantiga
Da vida é que falarei!
*
Se Deus quiser viverei
Noventa anos ou mais...
Quem sabe até somar junto
A idade dos meus pais.
E mesmo assim aprendiz,
De preferência feliz,
Sem viver dias iguais!
*
Quem vive os sonhos reais
Mesmo o que sonha acordado.
Vive melhor e um dia
Tem seu sonho realizado.
Quem vive e não sonha mais,
É um navio sem cais,
Um carro velho quebrado...
*


Postado antes na comunidade: Metamorfose, cordel & poesia.
No tópico: Grandes mensagens em um mini cordel.
*
No Recanto das letras, na escrivaninha: Damião Metamorfose,
*
No blog: Nem melhor nem pior, apenas diferente visite o blog e seja um seguidor(a) a poesia agradece.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Livro sobre Cordel



Antologia do Cordel Brasileiro
reúne antigos e novos autores


Um passeio pelo que de melhor foi – e é – feito por grandes
cordelistas brasileiros é o que se oferece neste livro


Arievaldo Viana


Desde que passou a despertar o interesse dos estudiosos, a chamada Literatura de Cordel (poesia popular narrativa impressa, na definição do estudioso Manoel Diégues Jr.), tem sido contemplada com a publicação de centenas de estudos e diversas antologias que buscam compreender melhor esse gênero literário tão presente na cultura do Nordeste brasileiro. Apesar disso, o cordel continua cercado por mitos infundados, definições equivocadas e total incompreensão por parte de algumas pessoas dos meios acadêmicos. Alguns (a maioria) torcem o nariz para a chamada poesia popular por considerarem-na uma subliteratura, coisa de pouco ou nenhum valor, de acordo com a definição corrente na maioria dos dicionários.


Cria-se, portanto, a imagem errônea que o cordel para ser “autêntico” tem que ser impresso em papel de baixa qualidade, tem que ter obrigatoriamente a capa em xilogravura e deve ser exposto pendurado em barbantes. Na verdade, o que deve ser levado em conta é o seu estilo inconfundível enquanto gênero textual e também as suas formas fixas, que são métrica, rima e oração. Entenda-se por “oração” que o cordel é essencialmente poesia narrativa (impressa) e consiste na arte de rimar histórias com começo, meio e fim.


O poeta e pesquisador baiano Franklin Maxado, em seu livro “Cordel Televivo – Futuro, presente e passado da Literatura de Cordel”, publicado em 1984 pela Editora Codecri (do Pasquim) trata, num dos capítulos, da “extrema unção” que foi dada ao cordel pela maioria dos pesquisadores na década de 1980 do século passado.  Eis um resumo da opinião de Maxado:


“Muitas universidades já estudam, colecionam, divulgam, editam e ditam influências aos autores da Literatura de Cordel. Também o surto de turistas estrangeiros, preferindo os de capas xilogravadas, cria normas. Em ambos os casos, o folheto é visto como uma coisa exótica. Uma peça de museu que deve ser conservada em sarcófagos, sem ter mais ação. Parado no tempo e espaço, morto e mumificado. E muitos pesquisadores decretam o seu falecimento, encerrados em seus gabinetes e bibliotecas.”



Em 1950, no Sudeste, o cordel foi descoberto como bom negócio e a editora Prelúdio (atual Editora Luzeiro) começou a publicar folhetos no formato 13x18 (um pouco maior que o tradicional), com capas coloridas, em papel de boa qualidade, tornando-se o alvo de críticas veementes de alguns pesquisadores desinformados, embora mantivesse um time de poetas de primeira linha como é o caso de Manoel D’Almeida Filho, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho, Minelvino Francisco, só para citar alguns.  Esses poetas, geralmente, eram ignorados pelos organizadores de antologias de cordel, que levavam em conta não a qualidade do texto, mas a aparência do suporte no qual estava impresso. O escritor baiano Marco Haurélio, um dos grandes expoentes da nova geração de poetas de cordel, pesquisador de renome, com diversos livros publicados, repara essa injustiça com a publicação de “Antologia do Cordel Brasileiro” (Editora Global, 256 páginas). Ele coligiu os textos de maneira que o resultado mostrasse ao leitor quanto está apurada a literatura de cordel no Brasil, contemplando 15 autores de diferentes gerações. Pela primeira vez, uma antologia do gênero reúne num mesmo volume obras dos pioneiros Leandro Gomes de Barros e José Pacheco, dos geralmente esquecidos (e discriminados) Manoel D’Almeida Filho, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho e Minelvino Francisco Silva e dos novos expoentes do cordel, dentre os quais destacam-se quatro autores cearenses: Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo da Silva, Klévisson e Arievaldo Viana. A obra reúne também trabalhos de Pedro Monteiro e do próprio Marco Haurélio, que fecha a relação dos 15 títulos enfeixados com o seu excelente romance “As três folhas da serpente”.


Poetas Klévisson Viana, Arievaldo e Rouxinol do Rinaré, presentes na Antologia do Cordel Brasileiro

Um dos fatores que levou muitos pesquisadores a decretar a morte do cordel foi um hiato na produção que durou entre 1975 a 1995, período em que morreram grandes expoentes da antiga geração de poetas cordelistas e as principais editoras de folheto do nordeste foram à falência. Disseram mesmo que o gênero “romance” estava extinto e que havia sobrevivido unicamente o folheto-reportagem de oito páginas. O que ninguém previa é que havia uma novíssima geração de poetas em formação, só aguardando o momento de publicar as suas obras, fato que verificou-se a partir da segunda metade da década de 1990. Todos os poetas contemplados nessa antologia, antigos e novos, cultivam o gênero “romance”, com sua narrativa cheia de encantamento, amores impossíveis, reis, princesas, fadas, duendes, gênios e gigantes, que são personagens frequentes da boa Literatura de Cordel.


O livro é totalmente ilustrado com xilogravuras de Erivaldo, um dos nomes mais representativos dessa arte e o responsável por mais de uma centena de ilustrações em livros e folhetos de cordel. No texto de apresentação da obra, os editores asseguram que “essa Antologia do Cordel Brasileiro” sinaliza com clareza a injustiça que seria classificar o cordel como arte a ser resgatada, como se ela tivesse caído em desuso e fosse necessário reabilitá-la”. Convém lembrar que, mesmo nos períodos mais críticos, nomes como José Costa Leite, Antônio Américo de Medeiros, Apolônio Alves e Gonçalo Ferreira da Silva, só para citar alguns, continuaram escrevendo e publicando folhetos regularmente, inclusive romances. O texto retromencionado conclui, de maneira enfática: “O que este livro aponta é a certeza – com beleza – de sua força inabalável. A criatividade flagrante dos cordéis aqui selecionados indica que o fio que os une ao longo do tempo não corre o risco de se partir e que esse gênero de nossa poesia popular, parafraseando o mestre Lourenço Capiba, é ‘madeira de lei que cupim não rói”.


Títulos e autores que integram a
Antologia do Cordel Brasilleiro:



O Soldado jogador, de Leandro Gomes de Barros


História do caçador que foi ao inferno, de José Pacheco


A guerra dos passarinhos, de Manoel D´Almeida Filho


A Sereia do Mar Negro, de Antônio Teodoro dos Santos


Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha, de Francisco Sales Arêda


No tempo em que os bichos falavam, de Manoel Pereira Sobrinho


O valente Felisberto e o Reino dos Encantos, de Severino Borges Silva


O feiticeiro do Reino do Monte branco, de Minelvino Francisco Silva


João sem Destino no Reino dos Enforcados, de Antônio Alves da Silva


João Grilo, um presepeiro no palácio, de Pedro Monteiro


O reino da Torre de Ouro, de Rouxinol do Rinaré




O conde mendigo E a Princesa orgulhosa, de Evaristo Geraldo da Silva


Pedro Malasartes e o urubu adivinhão, de Klévisson Viana


As três folhas da serpente, de Marco Haurélio


Mais informações: www.globaleditora.com.br
Poeta Marco Haurélio, organizador da Antologia



Sobre o organizador: Marco Haurélio, poeta popular baiano, professor, folclorista e editor, é um dos nomes de maior destaque na literatura de cordel da atualidade. Ministra oficinas e palestras sobre cordel e cultura popular em todo o Brasil. É autor de vários livros para adultos e crianças. Pela Global Editora, publicou Meus romances de cordel, uma coletânea de suas melhores composições.



Título: ANTOLOGIA DO CORDEL BRASILEIRO


Organização: MARCO HAURÉLIO


Editor: Gustavo Henrique Tuna


Páginas: 256


Preço: R$ 37,00


Público-alvo: Público em geral, sobretudo estudiosos e pesquisadores da cultura popular