quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Poesia de Jéfferson Desouza


Por e-mail recebi essa poesia do Jéfferson Desouza, cabra bom, que mergulha fundo no rock, sem deixar para trás suas raízes sertanejas.

Meu caro Jéfferson, sei exatamente o que é isso, porque roqueiro também sou. E, apesar de ter nascido na capital, o sertão corre no meu sangue. Segue seu poema:



A obra de arte SERTÃO!!!
Jéfferson Desouza,
editor do Blog Zuada do Sertão

Peguei paleta de tinta e pincel
Preparei bela moldura
Pra fazer uma pintura
Da minha terrinha amada
Pintei a terra rachada
O sol de imenso clarão
Pinto novo ciscando o chão
Carro de boi e arado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Brincadeira de ‘tõiom’
Banguela escovando a chapa
Carrinho feito de lata
Guri mexendo com um ‘imbuá’
A imponência do carcará
Novena santa e procissão
Doce de leite e mamão
Vaqueiro tangendo o gado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Pedra em U de amolar foice
Cocheira, mata-burra, Porteira
Pra dor chá de casca de aroeira
Forquilha, ‘cangáia’ e ‘fuero’
Galinha indo pro ‘pulero’
Algazarra de um pifão
Moça que em bananeira faz coração
Com o nome do pretendido a amado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Menino traquino levando ‘peia’
Monóculos para ver foto
Saco de chapa pra comprar Voto
Lambu cantando no ‘mei’ mato
Criação de guiné e pato
Pinico caso haja precisão
Forró a luz de lampião
Sendo com pimenta ‘acanaiado’
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Bejú, goma de tapioca
Lavar roupa em lajedo
O cantar do galo bem cedo
Manga manteiga de vez
Camisa de linho xadrez
Arapuca, arataca, ‘assaprão’
Político rodeado de babão
Ganhando com voto comprado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Lagartixa na parede
Um Cachorro bom de caça
Remendo no joelho da ‘carça’
Do sangue de porco o ‘churisco’
Devoção a ‘padim’ ‘pade’ 'Cíço'
Fé em Frei Damião
Virgulino lampião
Cangaceiro respeitado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Casa de farinha, broca queimando
Bingo de uma garrota na praça
Dois ‘bebu’ tomando cachaça
Depois se 'travando na briga
Rapadura, 'alfinim' e batida
Tiro alto de um mosquetão
Time de bola num caminhão
Fazendo folia se tiver ganhado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Treze filho, trinta neto
Água boa de cacimba
Uma jega com um jegue em cima
Se procriando num desmantelo
‘Muié’ varrendo o terreiro
Lenha queima no Fogão
Na mesa de refeição
Um banco de madeira alongado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

Fazer roçado no baixio
Uma panela bem areada
A disputa da vaquejada
Comprar no dia da feira
Um cochilo numa esteira
‘Três homem’ a bater feijão
Da lida com a plantação
O cabra chegando enfadado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

A mata sem folha e cinzenta
Pela seca maltratada
Vaca morta na estrada
Milho sem querer brotar
E o sertão vindo a mudar
Ao cair uma gota no chão
E no som do primeiro trovão
O sertanejo Esperançado
Desenhei tudo no quadro
Do qual batizei sertão

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Livro de Francisco de Barros e Silva



Fico duplamente feliz quando vejo um colega meu de magistratura dedicando-se à arte, especialmente à poesia. Primeiro, porque é sempre uma confirmação de que, apesar dessa vida corrida que levamos, é possível ver a beleza das coisas que encontramos no dia-a-dia, matéria prima para a arte. Segundo, porque acredito na arte como uma das formas mais marcantes de expressarmos nossa Humanidade, e é bom ver alguém que a gente gosta, expressando sua humanidade por meio da arte.

Digo essas coisas a respeito do livro autografado que me foi enviado por Francisco Barros e Silva, meu amigo Chicão, juiz federal no Recife, e parceiro de caminhada poética, cada um no seu estilo. 


O livro, intitulado "Engenho Canto Escuro", fala de muitas coisas, dentre elas, algumas que o poeta trata assim...


Coisas que abandonei.
Delas me esqueci, mas permaneceram
ao alcance dos olhos ao longo do tempo.

Houve quem as recolhesse, não sei.
Não as vejo mais.
Desconheço se existem. E as amo. Amo.

Não sei se pelo que eram. Pelo que imagino
que sejam, se estiverem em outas mãos.
Pelo brilho furtivo que existe quando as idealizo.

Quero tocá-las como no primeiro toque
- que desperta da coisa o seu sentido,
pelo amor de seu nome.
Quero pelo prazer que as retira do sono
quando não estão comigo.

Quero pelo espaço em branco, pelo contorno
de sua nitidez.
Pelo que me dizem quando longe
(em silêncio...)
Amadas esquecidas abandonadas ao querer
mais simples.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Almanaque Cearense




Esta semana tomei uma decisão importante em minha vida. Assinei o DE UM TUDO, que se apresenta como "O almanaque da identidade cearense".

De fato, a publicação é a cara do Ceará, com muita molecagem, fuleiragem e bom humor.

Por enquanto, tenho apenas o número zero, lançado em dezembro do ano passado, mas, agora que sou assinante, estou pronto para receber, a cada mês, essa publicação que tem a cara do Ceará, dirigida por Audifax Rios e com design gráfico de Antonio João. Taí os dois na foto que eu pesquei do site do Jornal O POVO:


A matéria principal do número zero é sobre o showman Falcão e seu programa de TV, o LERUAITE. Mas tem outras coisas de valor, da lavra de Tarcísio Matos, Paulo de Tarso Vasconcelos Chaves, Léllis Luna e mais uma ruma de gente que participa do chafurdo.

Quem tiver interesse, procure o Audifax, no e-mail almanaquedeumtudo@yahoo.com.br ou pelo telefone (85)3044-2124.

É molecagem cearense para todos os gostos!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Poesia de Dalinha Catunda

A poeta Dalinha Catunda permiou hoje os leitores do Jornal da Besta Fubana com uma linda declaração de amor à arte de escrever em versos.
Como sempre, os versos de Dalinha são diretos, leves, fáceis de assimilar. E repletos da beleza das coisas simples, que não precisam de explicação para serem entendidas, ou então não são para ser entendidas, mas sentidas. 
E dá pra sentir o que Dalinha sente quando cria seus versos. Sem buscar glória. Deixando a poesia fluir, somente.


TECENDO VERSOS
Dalinha Catunda


Seguindo meu traço
Vou fazendo versos
Juntando diversos
Uma estrofe faço,
E sem embaraço
Com inspiração
Flui a criação
Que boto em papel,
Se brota um cordel
Renasce a paixão.

Na mente a história
Que quero contar
Começo a rimar
Me ajuda a memória,
Não procuro glória
Apenas prazer
Gosto de fazer
Minha poesia
Pois minha alegria
É ler e escrever.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cordel de Wagner Cortes


Já disse aqui, várias vezes, que uma das coisas que mais me dá prazer neste Mundo Cordel é receber e publicar contribuições em versos dos que por aqui passam.

No finalzinho de 2012, recebi esses versos do leitor que se apresnta como Wagner Cortes, o Palhaço Mingau.

Pesquisando no Google, achei algums fotos do Palhaço Mingau, como essa:


É você mesmo, não, Wagner?

Seguem os seus versos...


O ANUNCIANTE E A ABELHA

Na cidade de Parelhas
Onde tudo aconteceu
No ano dois mil e seis
O teatro apareceu
Para se apresentar
No bendito do lugar
Foi onde tudo ocorreu

Lá na casa de cultura
Rolava a apresentação
Eu tava muito empolgado
Com a alegria e animação
E o público esperava
Daqui a pouco eu estava
Já entrando em ação

Começamos no cortejo
Com bastante energia
A música ia rolando
Logo, logo eu falaria
Eu era o anunciante
Por isso falava antes
Ou depois das cantorias

No início da tal peça
Uma abelha perambulando
Em cima da’minha cabeça
Ficou um tempo voando
Passou perto da plateia
Daí tive uma ideia
De lugar eu fui mudando

Bem lá no meio da peça
Chegou minha vez de falar
Me esqueci daquela abelha
Que queria me picar
Não estava nem lembrando
E continuei falando
Sem se quer me preocupar

Minha cena era curta
Já perto de encerrar
A peste daquela abelha
Não deixou eu terminar
Pela minha boca entrou
Na garganta ela picou
Começando a inflamar

Mas continuei falando
Minha voz já enrolada
Só sentia aquele bolo
Da garganta inflamada
Eu já se aperreando
Sem ar eu tava ficando
Por causa da ferroada

Sem ter mais o que fazer
Eu terminei de falar
Disse ligeiro a Dedé:
-Não dá mais, eu vou parar
Ele perguntou: porquê?
-Digo agora pra você...
...não consigo respirar

Expliquei tudo pra ele
E a peça continuando
Ele todo preocupado
E o meu ar já acabando
Fui bater no hospital
Porque tava muito mal
E aos poucos piorando

Duas injeções na bunda
Pra poder desinflamar
Ainda tirei um sono
Para me recuperar
Dormir ainda uma hora
Depois disso fui embora
Bem lentinho e devagar

Já na casa de cultura
Fui chegando na calçada
Olharam com tom de riso
 Caíram na gargalhada
Mangando daquela cena
Debocharam sem ter pena
Por causa da tal picada

Um causo inusitado
Eu nunca tinha vivido
Pra mim foi um aperreio
Pra galera divertido
De abelha eu tenho medo
Pra ninguém isso é segredo
Desse bicho ando escondido

Música boa e saudade

LUÍS SÉRGIO E ROLANDO BOLDRIN

No post anterior, publiquei um poema que me foi enviado pelo amigo Ricardo Morais.
Depois de postar, deu saudade do seu irmão, Luís Sérgio, que tão precocemente deixou esta existência.
Ainda bem, no pouco tempo que ficou por aqui, produziu obras capazes de amenizar a saudade, como a música "Saúde de Ferro", apresentada no programa Som Brasil, apresentado por Rolando Boldrin na década de 1980.
Segue o vídeo de Luís Sergio que Ricardo pôs no YouTube...


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Poesia: O Casamento dos Velhos



Meu amigo Ricardo Morais, o Ricardo Piau, de Várzea Alegre-CE, me enviou essa poesia, cuja autoria desconheço. Ricardo só me disse que pegou em dos shows do Dilson Pinheiro, artista cearense que atualmente apresenta o Programa Ceará Caboclo, na TV Ceará, aos domingos, dez da manhã.

Dilson Pinheiro no Ceará Caboclo

Se algum leitor deste Mundo Cordel souber da autoria dos versos, gostaria de completar esta postagem com a informação.

ATUALIZAÇÃO ÀS 20:00 DE 23.01.2013: 
O leitor Cancão de Fogo, ou seja, nosso renomado cordelista Arievaldo Viana rapidamente trouxe a este Mundo Cordel o nome do autor do poema, no caso, o repentista Louro Branco.

Valeu, Ari!

Segue a poesia...


 O CASAMENTO DOS VELHOS


Tem certas coisas no mundo       
Que eu morro e num acredito      
Mas essa eu conto de certo       
Dum casamento bonito             
De um viúvo e uma viúva          
Bodoquinha Papaúva               
E Tributino Sibito               

O véio de oitenta ano            
Virado num estopô                
A véia setenta e nove            
Maluca por um amor               
Os dois atrás de esquentar       
Começaram a namorar               
Porque um doido ajeitou          

Um dia o véio comprou            
Um corpete pra bodoquinha        
Quando a véia foi vestir         
Nem deu certo, coitadinha        
De raiva quase se lasca          
Que o corpete tinha as casca     
Mas os miolo num tinha           

No dia três de abril             
Vêi o tocador Zé Bento           
Mataram trinta preá              
Selaram oitenta jumento          
Tributino e Bodoquinha           
Sairam de manhazinha             
Pra cuidar do casamento          

O veião saiu vexado              
Foi se arranchar na cidade       
Mandaram chamar depressa         
Naquela oportunidade             
O veião chegou de choto          
Inda deu catorze arroto          
Que quase embebeda o padre       

O padre ai perguntô:             
Seu Tributino, o que pensa,      
Quer receber Bodoquinha          
Sua esposa, pela crença?         
O veião dixe: eu aceito          
Tô tão vexado dum jeito          
Chega tô sem paciência           

 E preguntô a Bodoquinha:
 Se aceitar esclareça
 A véia lhe arrespondeu
 Dando um jeitim na cabeça
 Aceito de coração
 Tô cum tanta precisão
 Tô doida que já anoiteça

 Casaram, foram pra casa
 Comeram de fazer medo
 Conversaram duas horas
 Uns assuntos duns segredo
 E Bodoquinha dixe: agora,
 Meu pessoá, vão embora
 Que eu quero drumi mais cedo

 O véi vestiu um pijama
 Ficou vê uma raposa
 A véia de camisola
 Dixe: óia aqui sua esposa
 Cuma é, vai ou num vai?
 O veião dixe: ai, ai, ai
 Já  tá  me dando umas coisa

 A véia dixe me arroche
 Cuma se novo nóis fosse
 O véio dixe: ê minha véia
 Acabou-se o que era doce
 A véia dixe: é assim?
 Então se vai dar certim
 Que aqui também apagou-se

 Inda tomaram uns remédio
 Mas num deu jeito ao enguiço
 De noite a véia dizia:
 Mas meu véi, que diabo é isso?
 Vamo vendê essa cama
 Nóis sempre demo na lama
 Ninguém precisa mais disso

 A véia dixe: isso é triste
 Mas esse assunto eu esbarro
 Eu já bati o motor
 Meu véi estrompou o carro
 Ê, meu veião Tributino
 Nóis dois só tem um menino
 Se a gente fizer de barro