quinta-feira, 24 de julho de 2008

A Resistência de Sabato



PROSA DA QUARTA

Convenci-me de que cabe mais que poesia popular neste Mundo Cordel. As crônicas de Clauder Arcanjo, por exemplo, as quais sempre recebo por e-mail, sob o título de Prosa da Quarta. Toda vez que leio tenho vontade de replicar aqui. Então decidi fazê-lo. Afinal, um Mundo Cordel é um mundo aberto à cultura, em suas várias expressões, não podendo se restringir à poesia popular. Seja bem vindo, Clauder!

A RESISTÊNCIA DE SABATO
Clauder Arcanjo
Deparei-me, dias atrás, com mais um livro do argentino Ernesto Sabato: A resistência.
Em forma de cartas aos jovens leitores, o autor de O túnel realiza umbalanço pessoal de nossos dias. Com uma espécie de “coragem que nos situa na verdadeira dimensão do homem”, no entanto há nele “uma coisa que não falha, e é a convicção de que — unicamente — os valores do espírito podemnos resgatar deste terremoto que ameaça a condição humana”.
Preocupado com o relacionamento virtual que grassa na sociedade contemporânea, Ernesto declara que “à medida que nos relacionamos de formamais abstrata, vamos nos afastando do coração das coisas, e uma indiferença metafísica se apossa de nós, enquanto entidades sem sangue nem nome tomam o poder. Tragicamente, o homem está perdendo o diálogo com osdemais e o reconhecimento do mundo que o rodeia, quando é nele que se dá o encontro, a possibilidade do amor, os gestos supremos da vida”.
A televisão é objeto de análise de Sabato, preocupado pela tendência da humanidade, “por falta de coisa melhor”, em ficar anestesiada, horas afio, frente a essa tela que nos “predispõe à abulia”. “Ficar monotonamentesentado diante da televisão anestesia a sensibilidade, torna a mente lerda, prejudica a alma”; assevera o romancista de Sobre heróis e tumbas.
Contudo, Sabato não sucumbe ao pessimismo e à paralisia, acredita piamente em que “há um jeito de contribuir para a proteção da humanidade, e é não se conformar. Não assistir com indiferença ao desaparecimento da infinita riqueza que forma o universo que nos rodeia, com suas cores, sons e perfumes”. Ao longo da obra, sinais evidentes de que, na visão do pensador argentino, “não há outro modo de atingir a eternidade a não sera profundando-se no instante, nem outra forma de chegar à universalidade que não através da própria circunstância: o aqui e agora”. Como? “Revalorizando o pequeno lugar e o breve tempo em que vivemos, que nada têm a ver com as maravilhosas paisagens que podemos ver na televisão, mas que estão sagradamente impregnados da humanidade das pessoas que neles vivem.”
De quando em vez, volta as suas baterias contra o risco da competitividade desumana. “Se nos tornarmos incapazes de criar um clima de beleza no pequeno mundo ao nosso redor e só atentarmos às razões do trabalho, muitas vezes desumanizado e competitivo, como podemos resistir?”; inquire-nos.
Ler Sabato é um prazer singular. Arguto e inteligente, discorre sobre diversos temas como um virtuose, hábil no manejo das palavras e das idéias. Nada de opiniões áridas e mal formuladas, mas sim uma coletânea meditativa de bela tessitura poética, “solidamente ancorada na tradição humanística e no estudo crítico da história”.
Nascido em 1911 em Rojas, na província de Buenos Aires, Ernesto Sabato doutorou-se em física, trabalhou em pesquisas em Paris, antes de se dedicar ao mundo das letras e da pintura. Militante ativo pelos direitos humanos na Argentina e no mundo, foi o principal responsável pelo relatório acerca da tortura no regime ditatorial argentino, transformado no livro Nunca mais.
Ao se aproximar dos cem anos, “permanentemente inquieto e inconformado”, Ernesto Sabato concebe mais um livro, desta feita destinado a fomentar a existência de “outros seres tão perplexos como ele diante da desumanização do homem em nosso tempo”. “O homem se expressa para chegar aos outros, para sair do cativeiro de sua solidão. Sua natureza de peregrino é tal que nada preenche seu desejo de expressão”; observa.
Vou lendo e colhendo ensinamentos de um homem que “parece resistir a esse trágico processo preservando a eternidade da alma na humildade de uma prece”. Na forma de uma conversa muito pessoal, como bem caracteriza as ‘cartas’ de Sabato. “Com a idade que tenho hoje, posso dizer, dolorosamente, que toda vez que perdemos um encontro humano uma coisa se atrofiou em nós, ou se quebrou.” — afirma.
“Temos de reaprender o que é satisfação. Estamos tão desorientados, que achamos que satisfazer-se é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio diante da criação, fruir de uma obra de arte ou de um trabalho bem-feito.” — revela-nos o mestre de Antes do fim.
As armas que se nos apresenta para essa batalha diuturna contra a mediocridade a que nos querem condenar: “a dignidade, o desinteresse, a grandeza diante da adversidade, as alegrias simples, a coragem física e a integridade moral”. Para que a vitória se dê, há de se consumar entre nós, como “ápice do comportamento humano”, o exercício da solidariedade, pois “quando a vida é sentida como um caos, quando já não há um Pai que nos faça sentir irmãos, o sacrifício é despojado do fogo que o alimenta”.
Páginas à frente, a defesa inconteste dos mitos. “Assim como uma casa cujos alicerces se desmancham, as sociedades começam a desmoronar quando seus mitos perdem a riqueza e o valor.” Ao tempo em que professa: “Defronte a questões inefáveis, é infrutífero tentar aproximar-se pormeios de definições. A incapacidade dos discursos filosóficos, teológicos ou matemáticos para responder a essas grandes interrogações revela que a condição última do homem é transcendente e, por isso, misteriosa, inapreensível.”
Testemunhos de um resistente homem de letras, ferrenho defensor da liberdade e do papel transcendente e redentor da arte. “A arte foi o porto definitivo onde preenchi meus anseios de navio sedento e à deriva.”
Se são cartas ingênuas? Não sei, mas o próprio Sabato, penso, dá-nos a melhor resposta quando anuncia: “Os grandes artistas são pessoas estranhas que conseguiram preservar no fundo da alma essa ingenuidade sagrada da infância e dos homens que chamamos primitivos, e por isso provocam o risodos imbecis.”
Realmente, “o mundo nada pode contra um homem que canta na miséria”.
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 20 de julho de 2008.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Cordel depois da missa (Felipe Júnior)


QUANDO OS POETAS VÊM AO MUNDO CORDEL
Já escrevi aqui que uma das coisas que mais me alegra e anima a continuar editando Mundo Cordel é receber de meus amigos CDs, livros, folhetos e outras mídias usadas para a divulgação da Literatura de Cordel e a Poesia Popular. É muito bom saber das pessoas encontrando essa arte pelo mundo e lembrando que este é um ponto de convergência dela.
Mas, tem outra coisa que me alegra tanto quanto essa. É quando poetas enviam obras suas para enriquecer este espaço, este Mundo Cordel. Mundim do Vale sempre faz isso. Anizão e Carlos Silva também já estiveram por aqui, dentre outros.
Hoje, é a vez de Felipe Júnior, poeta cordelista e declamador vindo do Berço Imortal da Poesia, São josé do Egito-PE. Formado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco, reside em Recife-PE, é, atualmente, coordenador da União dos Cordelistas de Pernambuco - UNICORDEL e membro da União Brasileira dos Escritores - UBE/PE.
Quem quiser saber mais sobre o trabalho do poeta, é só visitar o seu blog:
di-versificando.blogspot.com.
Um grande abraço, Felipe! E muito obrigado pela colaboração!
Segue a poesia:

FIM DE MISSA
Poeta Felipe Júnior
(Do livro “Relicário” e CD “Na boléia da rima e do Riso”)

Fica no templo somente
O sacristão zelador
Endireitando o andor
Pra usá-lo novamente;
Fica um cego no batente
Tocando uma concertina,
Se uma moeda retina
Ele diz: Deus abençoe!
Mesmo sem saber quem foi
Depois que missa termina.

Uns dois ou três batizados;
As portas entre abertas;
Duas meninas espertas
Arrumando seus trocados.
O padre faz simulados
E com o sacristão combina,
Pra mostrar como se ensina
Pedir trocado em Igreja,
E o padre rindo, festeja
Depois que a missa termina.

O zelador atrasado
Limpa a Igreja ligeiro,
Deposita no lixeiro
Papel, chiclete mascado, ...
Depois põe tudo ensacado
Todo o lixo da faxina
Põe o saco na esquina
Pro carro depois levar
E só volta a arrumar
Depois que a missa termina.

Menino na escadaria
Sacristão correndo atrás;
Um candeeiro de gás
Que bem pouco alumia.
Com a Igreja vazia
O padre tira a batina.
Chega uma irmã vicentina
Querendo se confessar,
Vendo a porta se fechar
Depois que a missa termina.

A noite chega de vez
E envolve com sua sombra;
Um pinto novo se assombra
Com uma galinha pedrês;
Um casal de camponês;
Um cheiro se dissemina,
É a ceia nordestina
Saborosa com certeza,
Porém só é posta a mesa
Depois que a missa termina.

A dupla de cantadores
Canta num pé-de-parede;
Um velho arma uma rede,
Reclama de suas dores;
Um grupo de rezadores
Uma novena combina;
Alguém discerra a cortina
Da porta da sacristia,
Fica a igreja vazia
Depois que a missa termina.

O grupo de jovem sai
E casais em saudação;
O padre leva sermão
De um amigo do seu pai;
Uma velhinha que vai
Fazer sua reza divina,
Com o rosto e a pele fina
Quase revelando o osso,
Mas tira a nota do bolso
Depois que a missa termina.

O padre leva o dinheiro
Pra casa paroquial
E um coroinha mal
Pega uma moeda ligeiro.
Vai correndo pro oiteiro
Em direção da cantina
Compra rapadura fina
Pra comer com pão bem cedo,
E tudo fica em segredo
Depois que a missa termina.

Um homem bem elegante
Faz a sua doação,
O padre dá gratidão
Pelo seu gesto operante.
E ele todo falante
A uma pobre se destina,
Era a dona Severina
Que passou de sua hora
E bota a pobre pra fora
Depois que a missa termina.

E reina um silêncio orante
Na velha Igreja barroca;
Na porta uma velha moca
Quer confessar neste instante;
Alguém no auto-falante
Faz a prece vespertina;
Na calçada uma menina
Risca com caco de telha;
O sol apaga a centelha
Depois que a missa termina.

Um casal de namorados
Felizes e sorridentes,
Namorando nos batentes
Conversam de braços dados.
Dois homens embriagados
Falam alto na esquina;
Cai uma rala neblina
De uma nuvem passageira
Para apagar a poeira
Depois que a missa termina.

O sino não faz abalo
Como uma prece propondo
E um casal de maribondo
Pousa em cima do badalo;
O travão dá um estalo
Que estremece a campina;
Por trás da verde colina
O sol esconde seu rosto
E a lua assume seu posto
Depois que a missa termina.

O padre na sacristia
Recolhe seus paramentos;
No oitão quatro jumentos
Que servem de montaria;
Reza uma Ave-Maria
Uma velha bem franzina,
Depois de rezar se inclina
Fazendo o sinal da cruz
Beija o santo e apaga a luz
Depois que a missa termina.

Os morcegos esvoaçam
Fazendo belas manobras;
Entre as linhas duas cobras
No cio se entrelaçam;
Duas lagartixas passam
Por cima da ripa fina;
Debaixo da sarafina
Sai uma “briba” cinzenta,
Pois ela só se apresenta
Depois que a missa termina.

Num canto do santuário
Um presépio de natal;
Duas velhas falam mal
Da pregação do vigário.
Outra recita o rosário
Que aprendeu quando menina.
O sacristão diz: Firmina,
Deixe pra rezar depois!
Ficam discutindo os dois
Depois que a missa termina.

O padre soma a quantia
Da coleta do domingo;
Aquele velho mendigo
Recolhe sua bacia.
Um silêncio contagia
A cidade pequenina,
Reina uma paz divina
E uma santa solidão.
Isso se vê no sertão
Depois que a missa termina.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Cordel e Sertão (Mundim do Vale)

O SERTÃO CANTADO EM CORDEL
Novamente MundoCordel conta com a generosidade do poeta Mundim do Vale, que nos enviou a poesia:
O SERTÃO QUE GENTE MORA
Mundim do Vale

Eu nasci lá no sertão
Onde enterrei meu umbigo
Não deixei lá inimigo
Porque sou bom cidadão.
Considerei cada irmão
E não desejei piora
Porque prefiro a melhora
Daquele que tá doente.
Gostei de todo vivente
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

Eu tive que me afastar
Para um lugar diferente
Mas guardo como um presente
As coisas do meu lugar.
O dia para voltar
Não sei se é logo agora
Ou se ainda demora
Porque Deus é quem me guia.
Mas me lembro todo dia
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

Na T.V. Educativa
O vate Dílson Pinheiro
Valoriza o violeiro
E a rima do Patativa.
A produção criativa
Não joga cultura fora
Tanto que busca melhora
Pesquisando pelo mato.
Depois exibe o retrato
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

O bom Carneiro Portela
Da cultura é resistente
Fala de seca e enchente,
De porteira e de cancela.
Fala de pua e sovela,
De sarampo e catapora,
De sertanejo indo embora,
De lapinha e santuário.
E faz todo o seu cenário
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

Geraldo Amâncio Pereira
Promotor de festival
É um ícone cultural
Da poesia brejeira.
Repentista de primeira
Defensor de fauna e flora
Hoje em dia comemora
Seu sucesso no estrangeiro.
Mas Geraldo é um herdeiro
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

Foi do sertão que surgiu
O poeta Zé Maria
Que vem trazendo alegria
Para o resto do Brasil.
Foi ele que conduziu
Por este mundão a fora
Um grupo que hoje explora
A cultura cristalina.
É a Batuta Nordestina
DO SERTÃO QUE A GENTE MORA.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Literatura de Cordel em Berlim




MOSTRA DE CORDEL NO POESIEFESTIVAL BERLIN 2008


Neste sábado, cinco de julho de 2008, começará o Poesiefestival Berlin 2008. O festival continuará até o dia 13 de julho, e homenageia os poetas de língua portuguesa.
A Literatura de Cordel estará lá. Consta que haverá uma mostra sobre Literatura de Cordel no foyer da Academia de Artes, sob a curadoria do poeta Timo Berger.
Há uns três meses, enviei para Timo Berger, atendendo seu pedido, alguns exemplares de livros e cordéis meus e de meu amigo Rouxinol do Rinaré. Não posso deixar de agradecer aqui ao amigo Arievaldo Viana, que me proporcionou o contato com Timo Berger.
Maiores informações sobre o festival podem ser encontradas em www.literaturwerkstatt.org, ou clicando na figura acima.

sábado, 28 de junho de 2008

Cordel e Internet

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Cordel e Tecnologia da Informação

Imagem obtida no Blog do Dagomir Marquezzi:

CORDEL DO SOFTWARE LIVRE

No post anterior, falei sobre o uso da Internet como mídia de difusão do cordel. Hoje, o outro lado da moeda: o cordel como meio para abordar assuntos ligados à Tecnologia da Informação. É, como diz o resumo transcrito no post anterior: “a transição do folheto de cordel, da matriz impressa para o virtual, e como o elemento tecnológico tem influenciado o respectivo gênero literário”.

CORDEL DO SOFTWARE LIVRE


De Cárlisson Galdino (Bardo)
Obtido em
http://www.dicas-l.com.br/dicas-l/20071223.php


Caro amigo que acompanha
Essas linhas que ora escrevo
Sobre um assunto importante
Que até pode causar medo
Mas não é tão complicado
Você vai ficar espantado
Não ter entendido mais cedo

Aqui falo de uma luta
Da mais justa que se viu
Por democratização
Nesse espaço tão hostil
Que é dos computadores
Falo dos novos valores
Que estão tomando o Brasil.

Apresento um movimento
De uma luta deste instante
Que mexe com muita gente
Por isso não se espante
Se noutro canto encontrar
Alguém a disso falar
Mal e de modo alarmante

Faço apelo à Inteligência
Se encontrar quem diga: "é não!"
Não tome nem um, nem outro
Por verdadeira versão
Leia os dois, mas com cautela
Que a verdade pura e bela
Surgirá à sua visão

Pois eu trago nesses versos
Quem buscar pode encontrar
A verdade, puros fatos
Que podem se sustentar
Já é dito em muitos cantos
Mas como já falei tanto
Vamos logo começar

Computador e internet
Vivem no nosso Presente
Mesmo sendo tão ligados
Cada um é diferente
Mas toda coisa criada
Não serviria pra nada
Se não fosse para gente

Como uma calculadora
Um bocado mais sabida
Nasceu o computador
Pra fazer conta e medida
Mas foi se modernizando
Seu poder acrescentando
E o "programa" ganhou vida
O computador não pensa
Precisa alguém dizer
O "programa" é o passo-a-passo
Diz como é pra fazer
Cada passo do roteiro
O computador, ligeiro
Faz logo acontecer

Cada programa é escrito
Por um sábio escritor
Que escreve o passo-a-passo
Como quem está a compor
E escreve totalmente
Como só ele entende
Esse é o programador

O programa assim escrito
Nessa forma diferente
Não é logo percebido
Pela máquina da gente
Um tal de "compilador"
Traduz pro computador
Numa versão que ele entende

E é assim que um programa
Tem duas formas sagradas
Uma pro programador
Outra que à máquina agrada
Sempre que alguém solicita
É a primeira que se edita
E a segunda é recriada

Isso parece confuso
Mas não é confuso não!
É como ter um projeto
Pra ter a realização
É como a gente precisa
Tela pra pintar camisa
Como planta e construção

A primeira forma tida
"Código-fonte" se chama
E o programador entende
Essa forma do programa
Mas só é aproveitável
Só no modo "executável"
Computador não reclama

Para o programador
O código é usado
Para o computador
O programa é transformado
O "executável" é feito
Traduzindo, e desse jeito
Temos o segundo estado

E por muito tempo foi
Que todo programador
Toda vez que precisava
De algo que outro já criou
Esse outro prontamente
Passava logo pra frente
O programa salvador

O código aproveitado
Poupava trabalho e tempo
O amigo aproveitava
E se estava falho e lento
O programa original
Era mudado, e afinal
Funcionava como o vento

E o programador primeiro
Como forma de "Obrigado!"
Recebia essa versão
Corrigida do outro lado
Graças ao que foi cedido
Com a mudança de um amigo
Dois programas, melhorados

Veja, amigo leitor
Como tudo funcionava
Por que ter que criar de novo
Se isso feito já estava?
Em uma grande amizade
Viveu tal comunidade
Enquanto a Vida deixava

O mundo programador
Nessa vida se seguia
Mas tudo se complicou
Quando em um certo dia
Um programador brigão
Quis arrumar confusão
"Copiar não mais podia"

Esse tal programador
Uma empresa havia criado
Queria vender caixinhas
Com um programa lacrado
Cada caixa adorável
Apenas o executável
Trazia ali guardado

E o pior é que a caixinha
Não dava nem permissão
De instalar em outro canto
O programa em questão
Mesmo pagando a quantia
A caixinha só servia
Para uma instalação

Assim veja, meu amigo
Cada programa comprado
Não traz código consigo
Só o que será executado
Não dá mais para alterar
Nem mexer, nem estudar
Esse programa comprado

Veja bem que, além disso
Apresenta restrição
O programa não permite
Uma outra instalação
"Se há outro computador,
Outra caixa, por favor"
É o que eles lhe dirão

Desse jeito que tem sido
Nesse mundo digital
Os programas mais famosos
Funcionam tal e qual
Agora lhe foi mostrado
São os "programas fechados"
Como Windows, Word ou Draw

Outra coisa que acontece
Com os programas fechados
É que quem for fazer outro
Terá todo o retrabalho
Haja quinhentos já feitos
Fará de novo, que jeito?
Pois o código é negado

E quem já tem algo pronto
Mais e mais se fortalece
Quem começa hoje sem nada
Não tem chance e já padece
Com poucos fortes então
Há bem pouca inovação
Só o monopólio cresce
Foi desse jeito que um mundo
Tão saudável e integrado
Foi trocado por um outro
Egoísta e isolado
Que lucra um absurdo
E esmaga quase tudo
Que se oponha a seu reinado

Todos estávamos tristes
Com nosso triste Presente
Um mundo de egoísmo
Era esperado, somente
Um mundo de ferro e açoite
Mas depois da fria noite
O Sol nasceu novamente

Contra esse mundo cruel
Que tudo quer acabar
Pra dinheiro a qualquer preço
Fazer tudo pra ganhar
Apareceu boa alma
Era o Richard Stallman
Que vinha tudo mudar

Aos poucos foi se formando
Uma grande multidão
De grandes programadores
Para ao mundo dar lição
E aos mais céticos mostrar
Que vale mais cooperar
Que a dura competição

Começaram a escrever
Programas de um novo jeito
E aquele código-fonte
De novo é nosso direito
Permitindo qualquer uso
E toda forma de estudo
Tudo que queira ser feito

Mais e mais programadores
Essa idéia apoiaram
E o resultado disso
É maior do que esperavam
Tantos programas perfeitos
São por tanta gente feitos
De todo canto ajudaram

Programas feitos assim
Que nos deixam os mudar
Se chamam Softwares Livres
Mas há algo a acrescentar
Eles deixam ter mudança
Mas exigem por herança
Tais direitos repassar

Assim se eu uso um programa
Que me é interessante
Posso copiar pra você
Eles deixam, não se espante!
Eu posso modificar
E você, se desejar.
Podemos passar adiante

Pra nossa felicidade,
Há tanto programa assim
Que nem dá pra ver direito
Onde é o começo e o fim
Da lista de Softwares Livres
E há muita gente que vive
Com Software Livre sim

É Firefox, é Linux
É OpenOffice, é Apache
Pra programação, pra rede
Pra o que se procure, ache
Pra desenho, escritório
Para jogos, relatório
Pro que for, há um que se encaixe
E você, se não conhece
Não sabe o que tá perdendo
A chance de viver livre
Ouça o que estou lhe dizendo
Software Livre é forte
No Brasil, já é um Norte
Basta olhar, já estamos vendo

Maior evento do mundo
Desse tema é no Brasil
NASA, MEC, Banrisul
Caixa, Banco do Brasil
Em Sergipe, em João Pessoa
Em Arapiraca e POA
Software Livre roda a mil

E se a imprensa não fala
É porque tem propaganda
De quem não quer ver o mundo
Ir para onde livre anda
E nada contra a corrente
No Brasil, infelizmente
Na mídia o dinheiro manda

Se você quer saber mais
Disso tudo que hoje eu teço
Procure na Internet
Veja agora uns endereços
softwarelivre.org
br-linux.org
E a atenção agradeço


O cordel, que pode ser copiado e modificado segundo a licença Creative Commons - Atribuição - Compartilhamento pela mesma licença, está disponível também em PDF no endereço http://bardo.cyaneus.net/cordeldosoftwarelivre.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Cordel e Internet

A imagem acima é a tela do site da Academina Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC (www.ablc.com.br)

DO FOLHETO DE CORDEL PARA O CORDEL VIRTUAL

A união entre a Literatura de Cordel e Internet vem se consolidando, mostrando a grande versatilidade desse gênero literário. A cada dia surgem novos sites e blogs tratando do assunto, o que só tem feito aumentar o interesse e a divulgação do Cordel. O fenômeno já atrai a atenção de estudiosos do assunto, como se vê no artigo “DO FOLHETO DE CORDEL PARA O CORDEL VIRTUAL: INTERFACES HIPERTEXTUAIS DA CULTURA POPULAR”, de
Madson Góis Diniz, disponível no site do Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologia Educacional – NEHTE, da Universidade Federal de Pernambuco, cujo resumo diz o seguinte:

O famoso folheto de cordel tão comum nas feiras do nordeste brasileiro parece ter alcançado o terreno do cyberespaço. O fenômeno da globalização e a instauração dos paradigmas tecnocráticos e mediáticos acabam por imprimir uma nova dinâmica na cultura popular, fazendo re-leituras dessa em vários âmbitos das tradições, reinterpretando e às vezes modificando o fenômeno cultural em si. No caso do cordel, alguns poetas populares partiram em busca do hipertexto como forma de divulgar seus trabalhos, fazendo com que essa transição de espaços provoque intervenções complexas no gênero em questão. A hibridização da cultura popular acionada pelas novas práticas mediatizadas e hipertextuais estaria pondo em risco uma tradição ou simplesmente ampliando e agregando um novo conceito à poesia popular? - Refletir a esse respeito será portanto o objetivo desse artigo, que terá por base traçar a transição do folheto de cordel, da matriz impressa para o virtual, e como o elemento tecnológico tem influenciado o respectivo gênero literário.

Acesse o texto completo em
http://www.ufpe.br/nehte/revista/artigo11-madson-gois.pdf.