quarta-feira, 14 de julho de 2010

Audifax (continuação)

"A fantástica e verdadeira história do Cão da Itaoca”
Audifax Rios
(Continuação)

XXII
Mandou fazer pras bandas do Juazeiro
Xilogravura por Mestre Abraão
Com as fantásticas imagens do cão
Pôs logo em prática seu plano matreiro
Que provocou aqui maior salseiro
Saiu manchete em letras garrafais
E chegou a vender todos os jornais
Com as proezas deste cão faceiro

XXIII
Com a notícia até hoje me comovo
Provocou alvoroço na Itaoca
A negrada pulava que nem pipoca
Vibrando com o mexerico novo
E se unindo pra expulsar o estorvo
Juntou homem, mulher, velho e menino
Cada qual indicando seu destino
Nunca mais houve paz entre este povo

XXIV
Antes porém do desfecho final
Houve muita e tanta estrepolia
Marmota acontecendo noite e dia
Itaoca de vida infernal
Parecia uma grande bacanal
Brutalidade e espancamento
Violência e defloramento
Itaoca - Sodoma colossal

XXV
Na verdade a história começou
Com um fato nunca visto igual
Fenômeno dito paranormal
E a mão à palmatória eu dou
Lá no quarto a cama rodopiou
Na cozinha os pratos revoavam
No tanque sabonetes espumavam
Escangalho chegou ali parou

XXVI
A orgia todo o ambiente abala
Entre as pedras saiam mil lagartos
E cobras tantas pelos vãos dos quartos
Os urubus voavam pela sala
Escorpiões livravam-se da mala
Morcegos pendurados numa rede
Ratos no poço matando a sede
O papagaio mudo perde a fala

XXVII
Pela chaminé do velho fogão
Em lugar de fumaça labaredas
Que era a mesma saída pelas bredas
Das narinas fedorentas do cão
Incandescentes com um tição
E o fogo propagado pelo céu
Sapecava tudo que era tetéu
Que caiam assados pelo chão

XXVIII
Lá no quintal a fossa estourou
Foi merda para tudo quanto é lado
O tinhoso ficou todo cagado
Não se fez de rogado e acalmou
e de todo o desastre aproveitou
Passou a voraz língua pelo beiço
A meleca escorria pelo queixo
Com prazer a catinga aspirou

XXIX
Quando a coisa ficava só em casa
Sem a vida dos outros perturbar
Nada havia para se preocupar
Porém quando a marmota criou asa
E toda a sua fúria extravasa
Itaoca virou um pandemônio
Parecia até um manicômio
Onde nada avança e tudo atraza

XXX
Então o malfeito que surgia
Todo roubo ou furto efetuado
Notícia de cabaço deflorado
Tinha logo exata autoria
Qualquer mazela que aparecia
Catapora, sarampo ou sezão
Era praga ia pra conta do cão
Toda sorte de mal ali cabia

XXXI
Foi preciso bolar uma arapuca
Pra pegar o tinhoso de surpresa
Mas quem era capaz de tal proeza?
Só o João Grilo teria grande cuca
Pra aviar esta idéia maluca
Pôs em prática plano genial
Pra pegar o tinhoso no local
E deixá-lo em tremenda sinuca

XXXII
Escavaram um poço bem profundo
Estenderam uma malha de corrente
Pra deste modo apanhar o ente
Na esquina do Beco do Segundo
Chega aquele monstro nauseabundo
Que pensando pisar numa folhagem
Fica atado pela engrenagem
E desaba da beira lá pro fundo

XXXIII
Chegou guindaste para resgatar
Pois julgaram o bicho bem pesado
Porém todos estavam enganados
A verdade não deu pra acreditar
Tava o povo pasmado a admirar
O corpinho enrolado em pano preto
E aí começou o desacerto
O diabo era o padre do lugar

XXXIV
O vigário virava lobisomem
E só tinha uma pessoa que sabia
Escondido na sua sacristia
Sacristão que não quis dizer o nome
Pois o medo do inferno lhe consome
Garante que era em noite de luar
Numa sexta qualquer na hora-agá
A virada em bicho o que era homem

XXXVI
E a mulher que era tida como santa
Na alcova fazia qualquer negócio
Na igreja, cristã, devota e fiel
Mas na cama a virtude desencanta
Tão sacana que até o cão se espanta
Satisfaz sua fúria sensual
No comum, felação e coito anal
Com mil gritos saindo da garganta

XXXVII
Tava ali o padre paramentado
A imagem do cão desmascarada
E quem acreditou na fé sagrada
Excomunga agora o desgraçado
Que enganou todo tempo o povoado
E em nome de Cristo abençoava
E por trás o perjúrio praticava
Confundindo a virtude com o pecado

XXXVIII
E assim como se deu com Jesus
O padre também foi crudificado
E depois pelo povo fuzilado
Padeceu e morreu em negra cruz
Em lugar da coroa um capuz
Lhe serviu de sepulcro um formigueiro
Sem uma placa, sem nenhum letreiro
Sem uma vela, sem alguma luz

XXXIX
Pouca gente acompanhava o caixão
Em que foi transportado o satanás
Quatro gatos pingados nada mais
La na cova se ouviu pouca oração
O Zé Mário fez a declamação
Necrológio em forma de poesia
Relatando a dor e agonia
Que o povo sofreu na mão do cão

XL
Caminhando pra última morada
Cada amigo com dor no coração
Mário Gomes, Gervásio, Saraivão,
Mapurunga e o resto da cambada
E seguindo o cortejo na rabada
O Furtado, o Queiroz e o Marco Abreu
Lamentando o que aconteceu
Constatando que a vida não é nada

XLI
A moçada em estado deplorável
Rastejava em lenta procissão
Compungida como um bom cristão
O Alberto ainda inconsolável
Com a sua derrota lamentável
Luciano Barreira em oração
e o Klévisson com sua pena à mão
Faz da cena comédia impagável

XLII
Nesta hora toda a terra escureceu
E saíram urubus do formigueiro
De onde exalava forte cheiro
Todo galho de planta emurcheceu
A boiada assustada escafedeu
O relógio parou de trabalhar
A coruja no céu pôs-se a piar
Pra dizer que o demônio faleceu

XLIII
Itaoca então ficou famosa
Como a terra do espírito do mal
Deu no rádio, tv e no jornal
Sua fama saiu em verso e prosa
Puxando da poesia cavernosa
Zé Biquara escreveu longo cordel
Onde conta as proezas do revel
Cantilena picante e dolorosa

XLIV
O cão da Itaoca vai ficar
Na galeria das grandes figuras
Que outrora eram vidas obscuras
Cabeludo, Pena Branca e ZéTatá
Burra Preta, Negrinho do mar
Chupa-Cabra, Corta-Bunda, Tobogã
Bode-Ioiô, Tarado da Aquidabã
Entidades da crendice popular

XLV
E aqui terminando nossa história
Do diacho e sua aparição
Que causou verdadeira confusão
E que teve os seus dias de glória
Até quando decretou a moratória
Na tarde em que se escafedeu
A Itaoca toda agradeceu
Fim do caso que não sai da memória

Agora está tudo terminado
Uma coisa a gente não esquece
Desta pecha que o povo não merece
Itaoca do cão endiabrado
Felizmente esta noite foi embora
Acabou a companhia do de-espora
Xeretando nossa vida no passado

Refugamos essa presença maldita
Itaoca do cão e do tisnado
Oramos com fervor prece bendita
Soterramos o capeta excomungado

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Audifax Rios


Há alguns dias, conheci pessoalmente um artista cuja obra eu já admirava há tempos: o multitalentoso AUDIFAX RIOS, autor de inúmeros cordéis, contos, poesias e tantas outras manifestações artísticas, inclusive no campo das artes plásticas.



Só para dar um resumo, colho da contracapa do livro “Ciro, o beco e o circo”, organizado por ele, que AUDIFAX é cearense de Santana do Acaraú, em 17 de abril de 1946, onde fez o curso primário e ginasial. Já morando em Fortaleza, ingressou na TV Ceará, como cenógrafo, e, ao mesmo tempo, escrevia e fazia ilustrações para os jornais Unitário e Correio do Ceará.


É autor de vinte folhetos de cordel, vinte livros e cinco livros (dados da época do livro citado acima), destacando-se entre suas obras a trilogia “Memórias do encatamento” (romance): “Os búfalos de campanário”, “Migalhas parar serpentes” e “Voe comigo quando desmorrer”.


Na área infantil, é autor do texto e das ilustrações de “Douradinha, coitadinha”, “O desafio da mãe natureza”, “Mitos brasileiros” e “Festa no picadeiro”, dentre outras obras.


Hoje, trago para os leitores de MundoCordel, a obra “A fantástica e verdadeira história do Cão da Itaoca”. Espero que ele não se importe de eu por o texto completo aqui.


“A fantástica e verdadeira história do Cão da Itaoca”
Audifax Rios

I
A história que eu vou contar agora
Se é verdade ou mentira eu não sei
Pois o fato nunca presenciei
Mas tem gente que jura a toda hora
Na noite ou no romper da aurora
É a história medonha de um cão
Que assombrava com sua aparição
Sob o rouco tinir da sua espora

II
Este fato se deu na Itaoca
Já faz mais de três décadas passadas
E mexeu com pessoas alarmadas
Derrubou muita pose de dondoca
Apanhadas nos laços da fofoca
Meteu medo em menino e ancião
E valentes de toda uma geração
Sucedido que hoje ainda choca

III
Como Deus, tem diabo em toda parte
Não há como do tinhoso se livrar
Cão daqui, cão dali, cão dacolá
Cada um malinando sua arte
Presepeiro tal Pedro Malazarte
Pois vejamos aqui outra faceta
Caprichosa e sagaz deste capeta
Antes que pro inferno nos arraste

IV
Mas primeiro eu quero situar
O cenário de todo esse sucesso
E pra isso munido do meu verso
Itaoca eu passo a tracejar
Se o diabo não me atrapalhar
Por ali passa trem, passa avião
Bicicleta, motoca e caminhão
animal e vivente a caminhar

V
Situado no miolo da cidade
Tem Montese e Pici bem mais ao norte
Nos confins da Avenida da Morte
Que lhe dá um padrão de qualidade
Apegado à antiga Piedade
Para o leste vamos ter o Parreão
Encostado na Vila União
Região com lagoa em quantidade

VI
Pelo sul a famosa Parangaba
Onde fica o asilo dos dementes
Doidos mansos e outros pacientes
A oeste onde Damas se acaba
Sobradões e casebres de rebarba
Sudoeste o bairro da Serrinha
Onde dizem que cão inda caminha
Ampliando os confins de sua taba

VII
A Itaoca de tempos atrás
Começava nos muros do Colégio
Instalado em suntuoso prédio
Com capela e dependências mais
Onve haviam ritos sacramentais
Ensino pra internos e também
Estudantes naquele vai-e-vem
Sob as barbas do cruel satanás

VIII
Do Juvenal Carvalho em diante
Só se via dos Dummar a verde mata
Ainda virgem até aquela data
Ladeando o curral e a vazante
Do riacho pequeno e arrogante
Ia até a Lagoa do Opaia
Onde o verde dos teus olhos se espalha
Sobre a água límpida e brilhante

IX
Por ali passa o Beco do Segundo
Refúgio do cronista Cirolares
Cantor do passaredo e dos pomares
Que por tudo devota amor profundo
Transformando-o em poeta fecundo
Na viela porém deu-se o destroço
Desembesto do cão um alvoroço
A marmota mais cruel deste mundo

X
Feito isto passamos a narrar
A história que é bem interessante
Peripécias de um cafute errante
Que por anos deu muito o que falar
Nestas plagas e em outro lugar
Sua fama como rei da safadeza
Se expandiu pela grande Fortaleza
Se espalhou do sertão até o mar

XI
Lá no Beco escuro casarão
Paredões carcomidos pelo tempo
Pela fúria da água e do vento
Habitava um velho ermitão
Que diziam ter parte com o cão
O seu rosto nunca ninguém via
Da sua vida então ninguém sabia
Sua idade uma interrogação

XII
E por via dessa circunstância
O povão recriou a sua imagem
Carregando demais na maquiagem
Dando ao velho tamanha importância
Enfatizando a brutal deselegância
Aumentando com exagero o corpanzil
A idade lá foi pra mais de mil
Lá bem longe da sua pobre infância

XIII
Os cabelos batiam na cintura
E brilhavam de tanta seborréia
Amarelos da cor de diarréia
Moldurando a triste criatura
Acentuando inda mais sua feiúra
Amarrados feito rabo de cavalo
Eriçados como um rabo de galo
Aprimorando a caricatura

XIV
Grosso chifre enfeitava sua testa
Enrolado como o de um pai-de-chiqueiro
Exalando pelo ar o seu mau cheiro
De bode velho quando desembesta
Odor que logo todo canto empesta
E nas orelhas dois brincos em brasa
Que já faíscam quando sai de casa
No intuito de acabar com a festa

XV
Veste gibão de couro fedorento
Que atrai mosca dentro de um instante
Nunca se viu na terra tal displante
E enche o ar de um cheiro enjoento
Que se propaga levado pelo vento
Sapeca flores e frutos dos roçados
Com seu rastro negro fumacento

XVI
Só tem um olho grande esbugalhado
Sobre o nariz adunco de condor
Pupila diletada incolor
Com íris de um roxo amarelado
Jorra sangue no rosto opilado
Os cílios espetados bem azuis
Sobrancelhas em formato de cruz
Traduzem a imagem do pecado

XVII
A boca escancarada num esgar
De lábios grossos cheios de sapinho
Exibem a dentadura em desalinho
Incisivos de forma irregular
Presas de ouro puro a brilhar
Caninos com coroa reluzente
O beiço inferior constantemente
Saliva de porréia a babar

XVIII
O pescoço grosso atarracado
Assentado num imenso peitoral
De peso e medida anormal
Modela o seu tronco encalcado
De porte muscular avantajado
Os braços envergados pelo peso
Seguram pela mão um facho aceso
Clareando o rosto desalmado

XIX
Grandes pés arrastando pelo chão
Sustentavam um corpo de gigante
Parecia um enorme elefante
Bem maior do que qualquer cristão
Perto dele qualquer um era anão
Ao sair punha o povo em polvorosa
Com a sua estampa horrorosa
A cidade ficava em aflição

XX
As mulheres para ver o brucutu
Se escondiam por detrás das moitas
E ganhavam por terem sido afoitas
Viam o bruto completamente nu
E o enorme pau do belzebu
Mais crescido por causa do tesão
Dava em todas a maior sensação
E saiam para dar que nem xuxu

XXI
Toda essa horrenda descrição
Que fizemos do capiroto agora
Com perdões da Mãe Nossa Senhora
Não passa da mais pura invenção
De um repórter de imaginação
Que vendo a hora perder o emprego
Padeceu de um tal desassossego
E maquinou toda essa confusão

Continua no próximo post...



terça-feira, 8 de junho de 2010

Cordel de Guaipuan Vieira


Esse eu fui buscar lá na coluna "Repentes, motes e glosas", de Pedro Fernando Malta, no Jornal da Besta Fubana. Eu já conhecia há muito tempo a "Chegada de Lampião no Inferno", mas a chegada do cangaceiro no céu foi para mim uma novidade.

A chegada de Lampião no Céu
Guaipuan Vieira
Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.


Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.


São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da santa morada..


E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.


O pelotão apressado
Ligeiro marcou presença
Pedro disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia já da porta santa
Ou haverá desavença.


Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir ódio e rancor?…
Trago paz nesta missão
Não precisa ter temor.


Disse Pedro isso é blasfêmia
É bastante astucioso
Pistoleiro e cangaceiro
Esse povo é impiedoso
Não ganharão o perdão
Do santo Pai Poderoso


Inda mais tem sua má fama
Vez por outra comentada
Quando há um julgamento
Duma alma tão penada
Porque fora violenta
Em sua vida é baseada.


- Sei que sou um pecador
O meu erro reconheço
Mas eu vivo injustiçado
Um julgamento eu mereço
Pra sanar as injustiças
Que só me causam tropeço.


Mas isso não faz sentido
Falou São Pedro irritado
Por uma tribuna livre
Você aqui foi julgado
E o nosso Onipotente
Deu seu caso encerrado.


- Como fazem julgamento
Sem o réu estar presente?
Sem ouvir sua defesa?
Isso é muito deprimente
Você Pedro está mentindo
Disso nunca esteve ausente.


Sobre o batente da porta
Pedro bateu seu cajado
De raiva deu um suspiro
E falou muito exaltado:
Te excomungo Virgulino
Cangaceiro endiabrado.


Houve um grande rebuliço
Naquele exato momento
São Jorge e seus guerreiros
Cada qual mais violento
Gritaram pega o jagunço
Ele aqui não tem talento.


Lampião vendo o afronto
Naquela santa morada
Disse: Deus não está sabendo
Do que há na santarada
Bateu mão no velho rifle
Deu pra cima uma rajada.


O pipocado de bala
Vomitado pelo cano
Clareou toda a fachada
Do reino do Soberano
A guarnição assombrada
Fez Pedro mudar de plano.


Em um quarto bem acústico
Nosso Senhor repousava
O silêncio era profundo
Que nada estranho notava
Sem dúvida o Pai Celeste
Um cansaço demonstrava.


Pedro já desesperado
Ligeiro chamou São João
Lhe disse sobressaltado:
Vá chamar Cícero Romão
Pra acalmar seu afilhado
Que só causa confusão.


Resmungando bem baixinho
Pra raiva poder conter
Falou para Santo Antônio:
Não posso compreender
Este padre não é santo
O que aqui veio fazer?!


Disse Antônio: fale baixo
De José é convidado
Ele aqui ganhou adeptos
Por ser um padre adorado
No Nordeste brasileiro
Onde é “santificado”.


Padre Cícero experiente
Recolheu-se ao aposento
Fingindo não saber nada
Um plano traçava atento
Pra salvar seu afilhado
Daquele acontecimento.


Logo João bateu na porta
Lhe transmitindo o recado
Cícero disse: vá na frente
Fique despreocupado
Diga a Pedro que se acalme
Isso já será sanado.


Alguns minutos o padre
Com uma Bíblia na mão
Ao ver Pedro lhe indagou:
O que há para aflição?
Quem lá fora tenta entrar
E também um ser cristão.


São Pedro disse: absurdo
Que terminou de falar
Mas Cícero foi taxativo:
Vim a confusão sanar
Só escute o réu primeiro
Antes de você julgar.


Não precisa ele entrar
Nesta sagrada mansão
O receba na guarita
Onde fica a guarnição
Com certeza há muitos anos
Nos busca aproximação.


Vou abrir esta exceção
Falou Pedro insatisfeito
O nosso reino sagrado
Merece muito respeito
Virou-se para São Paulo:
Vá buscar este sujeito.


Lampião tirou o chapéu
Descalço também ficou
Avistando o seu padrinho
Aos seus pés se ajoelhou
O encontro foi marcante
De emoção Pedro chorou.


Ao ver Pedro transformado
Levantou-se e foi dizendo:
Sou um homem injustiçado
E por isso estou sofrendo
Circula em torno de mim
Só mesmo o lado ruim
Como herói não estão me vendo.


Sou o Capitão Virgulino
Guerrilheiro do sertão
Defendi o nordestino
Da mais terrível aflição
Por culpa duma polícia
Que promovia malícia
Extorquindo o cidadão.


Por um cruel fazendeiro
Foi meu pai assassinado
Tomaram dele o dinheiro
De duro serviço honrado
Ao vingar a sua morte
O destino em má sorte
Da “lei” me fez um soldado.


Mas o que devo a visita
Pedro fez indagação
Lampião sem bater vista:
Vê padim Ciço Romão
Pra antes do ano novo
Mandar chuva pro meu povo
Você só manda trovão.


Pedro disse: é malcriado
Nem o diabo lhe aceitou
Saia já seu excomungado
Sua hora já esgotou
Volte lá pro seu Nordeste
Que só o cabra da peste
Com você se acostumou.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cordel em Espanhol

Depois que publiquei "Uma aventura na Amazônia", em 2008, meu amigo Pedro Arenas, colombiano, me fez a gentileza de traduzir o texto para o espanhol. Cheguei a publicar um trecho da tradução neste MundoCordel e tenho recebido pedidos de publicação do restante do texto. Entonces, vamos a ello:


UNA AVENTURA EN EL AMAZONAS



Marcos Mairton
Traducción: Pedro Arenas


Yo sé que los niños de hoy
Temprano en la escuela aprenden
Sobre las cosas de la naturaleza
Y entonces ellos comprenden
Que los animales de la selva
No deven ser maltratados
Y ni tampoco cazados.


A pesar de esto, aún existen
Hombres mal acostumbrados,
Que capturam los animales
En la selva encontrados
Para llevarlos a la ciudad
Para vivir sin libertad,
Tristes y encadenados.


Debido a esta costumbre
Cierto dia aconteció
Una história interesante
Con un niño que yo
Conocí en la infancia
Todavia guardo en la memoria
De como esto sucedió.


Su nombre era Daniel,
Tenía diez años de edad,
Cuando su tio, Pedro,
Después de un largo viaje,
Llegó a nuestra ciudad
Trayendo una novedad
En las maletas de viaje.


El tio habló para él:
“Este es tu regalo
que yo traje de la selva,
solo alli pude encontrarlo,
y pensé: este animalito
llevaré a Danielito
para que él pueda cuidarlo.

El regalo era un mico
Muy peludo y muy pequeño.
El pelo, negro y suave,
Parecia de terciopelo.
Daniel, cuando lo vió
Se sentió feliz y sorrió.
Pensó: “Que suerte yo tengo”.


Guardó, entonces, el mico,
En una jaula que había
En el solar de su casa
Y era allí que todo dia
Daniel lo alimentaba,
Y con cariño cuidaba
Del animalito que crecía.


Después de algunos meses
Las vacaciones llegaran
Y Daniel y sus papás
Para lejos viajaran.
Pidieron a un vecino
Cuidar del animalito
Y en un avión embarcaron.


Ellos fueron para Manaus
Para hacer una visita
A la tía de Daniel
Llamada Maria Rita,
Que vivia desde pequeña
En esa ciudad brasileña
Moderna, grande y bonita.


Aprovecharan también
Para conocer los lugares
Que son puntos turísticos
Y fueran a los principales:
Al teatro, al mercado,
Al puerto muy agitado
Y a los centros culturales.


Para el dia siguiente
Planearan pasear
De barco en el Rio Negro,
Para por él navegar,
El rio estaba muy ancho
Y, con su oscuro color,
Él inspirava temor.


Y, en el dia siguiente,
Fueran en la excursión,
En el barco había un guía
Que les dava explicaciones,
Pero Daniel no lo escuchaba
Pues en la selva estaba
Toda su atención.


Miraba los árboles gigantes,
Que en la margen estaban,
Y algumas guacamayas
Que en el cielo volaban,
Y hasta un par de delfines,
Que igual a dos niños,
En el agua oscura jugaban.


Este fué un paseo
Para nunca olvidar.
Hasta indios verdaderos
El pudo observar,
Pero, él no podría
Imaginar lo que iría
Enseguida a enfrentar.


La divertida excursión
Ya estaba terminando,
Y el barco ya estaba
Para el puerto regresando,
Cuando surgió por la frente,
Em medio del agua corriente
Un grueso tronco flotando.


“İCuidado!”, gritó un hombre –
“Nos vamos a chocar!”.
Y el piloto del barco
Rápidamente intentó girar,
Pero no logró desviar.
Aquel choque fatal
Él no pudo evitar.


Cuando el barco se chocó
Con aquél tronco inmenso
Abrió en el casco un hueco,
Y la agua fué para dentro.
Pasajeros asustados
Gritaban desesperados,
El ambiente era tenso.


Pero, con mucha habilidad,
El piloto controló
Aquella situación
Que él alli enfrentó.
A pesar de averiado
Y con la bodega inundada,
El barco no se afundó.


Solo que en la confusión
Nadie había percibido
Que el niño Daniel
Había desaparecido.
La mamá sintió escalofrío
De imaginar que en el río
Daniel hubiera caido.


Le llamaran por su nombre
Comenzaram a buscar
Otros barcos que pasaban
Vinieron para ayudar.
Pero, por obra del destino,
En aquel día, el niño
No pudieron encontrar.


A pesar de mucha busca
Que fué realizada
Las chances de encontrarlo
Estaban todas perdidas.
Daniel iba flotando
Rápidamente distanciandose
Con un chaleco salvavidas.


La noche llegó rapidamente
Esperanza ya no había
De encontrar con vida
Aquel desafortunado niño.
Sin embargo, mientras los papás sofriam,
Dos indigenas lo socorrían
Con destreza y con cariño.


Estaban los indios pescando
Rio abajo, bien distante,
Cuando vieran Daniel
Pasando en ese instante,
Con frío, muy asustado,
Pero con fuerza agarrado
Al salvidas flotante.


Entonces remaran con fuerza
Y luego lo acompañaron
Para dentro de la canoa
Com prisa lo empujaron.
Terminado el salvamento,
Para el acampamento
A Daniel ellos llevaron.


Un indio llevó en los brazos
A Daniel, que adormeció.
Hasta hoy él no sabe
Con detalles lo que sucedió,
Pero, por lo que escuchó,
Se recuerda que solo despertó
Cuando el día amaneció.


A esa hora, ya había
Otros indios a su lado,
Que se sintieron muy alegres
Cuando lo vieran recuperado.
Y dentro de una choza
Él comió mandioca
Y un poco de pescado.


De los indios no eran todos
Que hablaban español.
De un grupo de cinquénta
Talvez solo dos o tres.
Por esto, uno que hablaba
Explicó que por alli pasaba
Un barco, una vez al mês.


Mientras el barco no llegaba
Solo podia esperar.
Muchos dias en la aldea
Tendria que demorar.
Daniel, entonces, lloró
Pero, enseguida aceptó
Lo que no podia evitar.


Daniel era un niño
Que tenía mucho coraje.
Esperó sin reclamar
El dia de su viaje.
Y nunca se olvidó
Las muchas cosas que aprendió
En aquél lugar salvaje.


Aprendió a capturar peces
Por dentro del igarapé.
A pescar aruanã,
Pacu e tucunaré.
Quién le indicaba el camino
Era el pequeño indiecito
Que era hijo del pajé.


Aprendió nombres de pájaros
De peces y animales.
Cada dia que pasaba,
Aprendia un poco más.
Pero sentia la nostalgia
De su casa en la ciudad
De estar junto de sus papás.


A vezes cuando pensaba
En su familia ausente,
Él imitaba un guañuz,
Con su grito estridente.
Viendo lo que sucedia,
El cacique siempre decia:
“Él és indio como nuestra gente”.


Un dia, el cacique llamó
Daniel y lo dije asi:
“Ya é llegado el tiempo
De el niño blanco partir
Su barco no demora.
Niño, no se vaya
Sin despedirse de mí”.


Comprendiendo que un barco
Brevemente llegaria,
Daniel no contenia
Su enorme alegria.
Saltaba alegremente,
Pues ahora, finalmente,
A su casa volveria.


En ese momento, un indiecito
Comenzó a lamentarse
Y preguntó al cacique:
“Él no puede quedarse?
Él ahora es mi amigo,
Gusta de jugar conmigo,
Por que él nos tiene que dejar?”


El cacique respondió:
“Curumin va a entender
Cuando sea mayor
Y pueda comprender
Que para todo ser liberto
Existe un lugar cierto
Donde él debe vivir”.


“Se Daniel se queda aqui
Seria una crueldad,
Como hacen con los animales
Que llevan para la ciudad.
Por esso él debe irse
Para allá reunirse
Con su pueblo, de verdad”.


Entonces, en el dia siguiente,
El barco por alli pasó,
Y, con destino a Manaus,
Daniel se embarcó.
Después de algunos dias,
Encontró con sus papás
En el lugar donde todo comenzó.


Cuando llegó a Manaus,
Hubo una fiesta en el puerto.
Decian que Daniel
Ya era dado por muerto.
Pero ahora regresaba
Para la familia que amaba
Gozando de todo conforto.


Después de haber regressado
A la ciudad donde nació,
Me contó toda la aventura
Que en la selva vivió.
Como los indios le salvaron
Y también le enseñaron
Muchas cosas que aprendió.


Me habló que muchas veces
Na selva estaba solito
Y recordaba de la familia,
De sua amor y su cariño.
Y quedaba imaginando:
“Yo creo que estoy pasando
la misma suerte que el miquito”.


Entonces, Daniel rezaba:
“Dios mio, ayudame,
A volver a mi casa,
Yo no voy a querer fiesta.
Pero prometo hacer
De todo para devolver
El mico para la selva”.


Y, de hecho, fué así
Que terminó este drama:
En el dia que Daniel
Fué a dormir e su cama,
Sólo aceptó acostarse
Después que su papá entregase
El miquito para el IBAMA.


Del IBAMA el miquito
Fué a vivir en un zoológico.
Alli tuvo tratamiento
Médico y odontológico.
También fué readaptado
Para después ser libertado
En un parque ecológico.


Daniel hoy es adulto
Y habla siempre conmigo.
Aún le gustan aventuras
Y de jugar con el peligro.
Micos, no tuvo más,
Pero, de los indios y animales
Continua siendo muy amigo.


Y usted que es un niño,
Y legó con mucha atención,
No necesita perderse
Para aprender la lección:
Para criar perro y gato
Mientras los animales de la selva
La gente deja donde están.



quarta-feira, 5 de maio de 2010

100 seguidores

COMENTÁRIO EM VERSOS

No dia em que Mundo Cordel completa 100 seguidores, compartilho com os leitores um desses comentários que não podem ficar só no espaço de comentários. Olhem que coisa bela os versos de Jerson Brito:

Um prazer experimento
Conhecendo este espaço
Receba o meu abraço
Meu sincero cumprimento
Vejo aqui muito talento
Joias da literatura
Difundir nossa cultura
É tarefa elogiável
Dessa obra admirável
Contente, faço a leitura


Do cordel sou grande amante
E ferrenho defensor
Um rotineiro leitor
Desse estilo fascinante
Considero importante
Preservar esse tesouro
Cordelistas valem ouro
São guerreiros denodados
Merecem ser exaltados
Com aplauso duradouro


*********************


Parabéns pelo blog e pelos magistrais textos, amigão.
Querendo conhecer um pouco mais do que escrevo, tendo em vista que o blog está desatualizado, abaixo está o link da minha página no Recanto das Letras. Desde já agradeço.

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/jersonbrito

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cordel sobre Tiradentes


O MÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA

Estive ontem na Bienal do Livro, aqui mesmo em Fortaleza, e tive o prazer de encontrar com o grande cordelista ARIEVALDO VIANA, a quem tenho a hora de chamar de amigo e colega da arte de escrever cordéis.

Generoso, o amigo me presenteou com vários de seus cordéis - cada qual o melhor - inclusive um altamente oportuno para esta semana, sobre Tiradentes, o mártir da independência.

O cordel é de autoria do próprio ARIEVALDO VIANA, em parceria com outro grande cordelista, ZÉ MARIA DE FORTALEZA, publicado em folheto de dezesseis páginas pela editora Tupynamquim, com capa de KLÉVISSON VIANA, que, além de também ser um grande cordelista, desenha bem que só ele mesmo.

Bem, não dá pra por o cordel todo aqui, mesmo porque a obra é uma biografia detalhada, que levaria um bocado de tempo de digitação. Então, quem quiser ver o texto completo deve entrar em contato com a editora por um desses caminhos: tupynamquim_editora@ibest.com.br ou http://fotolog.terra.com.br/tupynamquimeditora2071.

Seguem alguns trechos do cordel:


TIRADENTES
Um sonho de liberdade
Zé Maria de Fortaleza e Arievaldo Viana





Num Brasil de tantos Silvas
Quero falar do primeiro
Que embalou nossa pátria
Com um sonho verdadeiro
Foi Joaquim José da Silva
Um grande herói brasileiro.

(...)

Trata-se de um grande herói
Que seus dons proeminentes
Os colocaram no rol
Dos grandes inconfidentes
Foi Joaquim José da Silva
Xavier, o Tiradentes.

Nasceu no século dezoito
No ano quarenta e seis
No Distrito de Pombal
Que lembra o grande Marquês
De Pombal, que foi ministro
Do reinado português.

(...)

Seu padrinho era dentista
E por razões evidentes
Ele aprendeu logo a arte
E por questões decorrentes
Da profissão, lhe custou
A alcunha de Tiradentes.


Na profissão de dentista
Não quis mais continuar
E resolveu investir
Na carreira militar
Foi comandante das tropas
Sem nada lhe intimidar.

(...)

Tiradentes, um plebeu
De origem muito pobre,
Conviveu por algum tempo
No meio de gente nobre
E ante tanta injustiça
Sua vocação descobre.


Viu que a nação brasileira
Não estava satisfeita
Com as ordens lusitanas
E a cobrança suspeita
Percebeu que tal proposta
Por muitos não era aceita.

(...)


Era um homem inteligente
De ampla e clara visão
Um sonho de liberdade
Movia seu coração
Livrar o Brasil Colônia
Do jugo da opressão.

(...)

Tiradentes e seus pares
A justa revolta urdiram
Porém os planos vazaram
Num precipício caíram
Joaquim Silvério e mais dois
Ouviram tudo e o traíram.

(...)

Antes da revolução
Chegar a hora e a vez
A notícia foi levada
Ao Vice-Rei português
Pelo delator infame
Joaquim Silvério dos Reis.

(...)


Prenderam então Tiradentes
Na Rua dos Latoeiros
Já na prisão recebeu
Notícias dos companheiros
Que também estavam presos
Pra revolta dos mineiros.

(...)


A vinte e um de abril
No ano noventa e dois
Daquele século dezoito
A maldade disse: “Pois
Sendo assim, massacrem o réu
Para enforcá-lo depois.


Foram percorrendo as ruas
Lá do Rio de Janeiro
Desde a cadeia ao patíbulo
Levando o prisioneiro
Que apesar do sofrimento
Tinha um semblante altaneiro.


Ao contrário do que os livros
De história têm mostrado
Ele subiu ao patíbulo
Com o cabelo raspado
Trajando uma longa túnica
Por um carrasco puxado.


(...)

Ele cumpriu sua sina
Bastante resignado,
Sonhando ver seu País
Da opressão libertado,
Depois de morto, o herói
Foi também esquartejado.

(...)


Somente com a República
O nosso herói Tiradentes
Virou personalidade
Histórica entre os combatentes
E foi cognominado
Mártir dos inconfidentes.

sábado, 3 de abril de 2010

Livro de Cordel

Junto com meus novos livros, recebi - gentileza do amigo Pádua, da Ensinamento - um exemplar da nova obra de MOREIRA DE ACOPIARA, também editada pela Ensinamento. O título do livro é "Atitudes que constroem" e abre com a seguinte poesia:

PARA VENCER NA VIDA
Moreira de Acopiara

Quem quer vencer nessa vida
Não fica em cima do muro,
É carinhoso com os pais,
Tem fé, visão de futuro,
É justo, determinado,
Simples, honrado e seguro.

Respeita, faz amizades,
Sabe o valor do perdão.
É calmo, tem bom caráter,
Possui determinação,
Pois já sabe que isso deixa
Melhor qualquer cidadão.

Exercita a liderança
E a solidariedade.
É companheiro, é humilde,
Vive com simplicidade,
Pois sabe que isso projeta
O homem na sociedade.

É capaz, tem paciência,
Compromisso e bom humor;
É companheiro fiel,
Honesto, trabalhador;
Tem caráter impecável
E um coração só de amor.

Esses gestos e atitudes
Não sufocam, não corroem,
Não atrasam, não desgastam,
Só engrandecem e não doem.
Foi por isso que escrevi
Atitudes que constroem.