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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cordel em Prosa III




A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton
Parte III
(Clique para voltar para a Parte I ou Parte II)



Pois era Maria mesmo a mulher que ali estava, e, na praça, com seu filho, sob as árvores brincava. Luzinete, ao ver Maria e o filho naquele dia, quase não acreditava. Ficou entre o receio e a curiosidade de ir falar com Maria. Era grande a sua vontade, mas também sentia medo de revelar o segredo da sua nova identidade.



Entre o medo e a vontade, esta é que prevaleceu. Foi falar com Salomé para saber como viveu ela nos últimos anos. Funcionaram os seus planos: Maria não percebeu; nem notou que Luzinete era o mesmo Zé Luando. Então ficaram as duas lá na praça, conversando.


Sobre a vida de Maria, Luzinete, aos poucos, ia mais e mais se informando. Inventou que tinha vindo há pouco de Fortaleza, para abrir uma boutique ou um salão de beleza, e iria precisar de alguém para lhe ajudar nos trabalhos da empresa. Maria, interessada pela oportunidade, foi logo lhe orientando sobre as coisas da cidade, querendo lhe demonstrar que queria trabalhar e tinha capacidade.


Luzinete perguntou se o marido de Maria seria a favor ou contra que ela passasse o dia trabalhando em seu salão. Maria disse que não, que marido não havia. Que há mais de cinco anos o esposo tinha ido embora pra algum lugar que era incerto e não sabido, e que ela, desde então, tomara a decisão de não ter outro marido. Disse:


– Já gostei de homem, mas hoje não quero mais. Prefiro viver sozinha, levar minha vida em paz, trabalhando honestamente. Caminho sempre pra frente e evito olhar para trás.


Luzinete então falou:


– Sua história é parecida com o que tenho passado ao longo da minha vida. Eu também vivo sozinha. Toda esperança que eu tinha, para sempre está perdida.


Então Salomé lhe disse:


– Vou dizer para a senhora: eu poderia viver como já vivi outrora, se meu marido voltasse, e voltando me chamasse para ir daqui embora. Pois, embora Zé Luando também não fosse perfeito, ele era um homem bom, que me aceitava do meu jeito. Tratava-me com amor, me dava muito valor, e por mim tinha respeito. Se um dia foi embora, eu lhe dou toda razão, porque eu me aproveitei de sua boa intenção. Maldosamente menti, mas depois me arrependi daquela injusta traição. Mas, mudemos de assunto. Estou lhe incomodando, falando do meu passado e também de Zé Luando.


Então Maria olhou para Luzinete e notou que ela estava chorando. Maria disse:


– Senhora, o que está acontecendo? Me explique, por favor, o que a deixa assim, sofrendo? Eu fiz algo de errado? Mexi com o seu passado com o que estou dizendo?


– O homem de quem tu falas, hoje em dia não existe. Mas eu choro de emoção, não penses que estou triste. Fico feliz de te ver agora se arrepender de trair como traíste.


Luzinete disse isso olhando bem para Maria, que, olhando também pra ela, nessa hora percebia que estava conversando com o mesmo Zé Luando que foi seu marido um dia. Quando viu que Luzinete era o mesmo Zé Luando, Maria não se conteve, foi logo lhe abraçando e dizendo:


– Que saudade! Será, meu Deus, que é verdade, ou será que estou sonhando?


Luando disse baixinho:


– Não é sonho não, Maria. É apenas um momento de prazer e de alegria, que talvez lá no passado tenha sido programado para acontecer neste dia.


Prosseguiram na conversa, quando o abraço acabou, e Zé contou pra Maria muitas coisas que passou, desde quando ele partiu e pelo mundo saiu, até que um dia voltou. Falou-lhe do seu trabalho e da vida que vivia. Das coisas que aprendeu e dos lugares onde ia. Finalmente, ele contou que em mulher se tornou depois de uma cirurgia.


– É por isso que eu lhe disse que já não existe mais o homem que se casou com você tempos atrás. Eu acho que, hoje em dia, a Luzinete e a Maria são pessoas quase iguais. Mas tenho uma proposta, você topa se quiser. Como eu não quero mais homem, e você também não quer, peço que você me diga, se quer que eu seja sua amiga, ou então sua mulher. De um jeito ou de outro, uma coisa eu lhe digo: você me fará feliz, se vier morar comigo, e traga sua criança, pois tenho muita esperança, que ele seja meu amigo.


Maria ficou surpresa com a proposta formulada, mas a verdade é que ela ficou muito interessada. E disse:


– Eu nunca pensei em um dia virar gay, essa vida é engraçada. Mas, antes de lhe dizer qual a minha decisão, eu lhe peço que agora preste muita atenção, pois tenho algo a dizer. Também tenho que fazer a minha revelação. O menino que você está vendo ali, brincando, não é o mesmo menino que você está pensando. Não é filho do pastor, é fruto do nosso amor, é filho de Zé Luando. Não sei se você se lembra de todo o acontecido, quando me jogou na cama e ficou enfurecido, no dia que eu confessei o meu erro e revelei que havia lhe traído. Caso você não se lembre, eu vou lhe dizer agora, que seu lado masculino despertou naquela hora. Depois que me possuiu, você se virou, dormiu e de manhã foi embora. Aquele é o nosso filho, acredite se puder. Revelar isso pra ele, você só faz se quiser. Mas eu posso ensinar ele a lhe respeitar, seja você homem ou mulher.


Zé Luando, ouvindo isso, não continha a emoção. Olhou bem para Maria, segurou a sua mão, e disse:


– Pegue o menino. Aqui o nosso destino tomou outra direção! E quanto ao seu outro filho, vá buscar ele também. Viveremos todos juntos, uma família de bem. O que houver de diferente é problema só da gente, não interessa a ninguém.


Nesse ponto, a história começou a terminar. Luzinete e Maria foram para outro lugar levando as duas crianças, e com muitas esperanças de a vida recomeçar.


Pelo que fiquei sabendo, Luzinete e Maria são hoje muito felizes, vivendo em paz e harmonia. Os filhos estão criados, em breve estarão formados em Direito e Engenharia. Foi um deles, aliás, quem me contou tudo isso, e apenas pediu que eu assumisse o compromisso de colocar no papel, procurando ser fiel a tudo o que me contou.


E assim vou terminando a história de Zé Luando, que muito me impressionou.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cordel em Prosa II




A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton


Parte II
(para ver a Parte I, clique aqui)


O tempo ia passando, e o Zé daquele jeito. Com nada se agradava, já não falava direito, até que, um certo dia, ele disse pra Maria:




– Não estou nada satisfeito. Desde o dia em que você disse pra mim que estava com a barriga crescendo, pois um filho carregava, passei a imaginar, e até desconfiar, que você me enganava. Eu me casei com você por eu ter acreditado que do homossexualismo Deus havia me curado. E você vê como eu tento, mas o nosso casamento ainda não foi consumado. Já falei com o pastor, que me disse pra ter fé. Mas preciso que você me explique como é que esse menino nasceu. Pois, se ele não é meu, quem é o pai, Salomé?



Nessa hora, Salomé não teve como se opor à pergunta do marido, e disse:


– Seja o que for que agora você faça, já está feita a desgraça. Esse filho é do pastor!


Zé Luando, nessa hora, sofreu uma transformação. Rasgou a roupa que usava, ajoelhou-se no chão, levantou-se de um salto, deu um grito – um grito alto – ficou virado no cão. Jogou Maria na cama, arrancou-lhe o vestido, deu meia dúzia de tapas, na cara e no “pé-do-ouvido”, dizendo:


– Sua desgraçada! Você estava combinada com aquele cabra atrevido!


Você se casou comigo para esconder seu pecado. Era amante do pastor e dele tinha emprenhado. Casou só pra esconder que um filho ia ter daquele cabra safado!


Depois disso, não se sabe direito o que aconteceu. Se Luando desmaiou ou se ele adormeceu, mas, de cima de Maria, só saiu no outro dia, depois que amanheceu. Depois de se levantar, disse:


– Tenho que partir. Vou só botar uma roupa e em seguida vou sair.


Maria não entendeu quando ele escolheu um vestido pra vestir. Vestiu-se com a roupa dela, usou sua maquiagem, passou creme no cabelo, numa espécie de massagem, despediu-se de Maria. Disse que não voltaria e foi-se sem levar bagagem.


Maria ficou olhando enquanto Zé ia embora. Vestido com sua roupa, saiu pela rua afora. Então disse, bem baixinho:


– Deus clareie o caminho que você tomou agora.


Dizem que no mesmo dia Zé deixou sua cidade. Partiu para Fortaleza em busca da liberdade de viver como mulher, sem ninguém por a colher em sua sexualidade.


Mais uma vez a história poderia terminar. Começando outra vida, morando em outro lugar, selava-se o destino do Zé, que nasceu menino, para mulher se tornar. Mas, como já disse antes, nada disso eu invento. Apenas conto o que chega até meu conhecimento. É por isso que prossigo, pedindo ao leitor amigo que permaneça atento.


Cinco anos se passaram desde que aconteceu de Luando ir embora da cidade onde nasceu. O povo ainda comentava, às vezes se perguntava, se era vivo ou se morreu. Enquanto isso, Luando arranjou em Fortaleza emprego de manicure em um salão de beleza. Só andava maquiado, com o cabelo arrumado, parecia uma princesa. Ali, ninguém lhe chamava por seu nome original. Luzinete foi o nome que adotou na capital. Tinha até um namorado, servidor aposentado da Receita Federal.


Mas, apesar dessa vida que ele agora levava, uma parte do seu corpo ainda lhe incomodava. Pensava, então, consigo:


– Pra ser mulher, meu amigo, se pudesse, eu lhe cortava.


Comentava com as amigas que já guardava dinheiro, pois mesmo que precisasse viajar para o estrangeiro, um dia ainda faria a sonhada cirurgia pra ser mulher por inteiro. Acabou achando um médico pra fazer a cirurgia. Cortou de onde sobrava, fez furo onde não havia, com o serviço terminado, disse que foi transformado em mulher naquele dia.


O que ele não sabia, nem podia imaginar, era que o seu destino novamente ia mudar. O que houve, na sequência, até hoje a ciência não conseguiu explicar.


Depois de passar um tempo curtindo o resultado da sonhada operação que tinha realizado, Luzinete percebeu que em seguida aconteceu um fato inesperado. Pois se deu que Luzinete, que um dia foi Luando, do antigo namorado foi aos poucos desgostando. Ao invés de se entenderem e de em paz conviverem, estavam sempre brigando. Até que não deu mais certo e o namoro acabou. E Luzinete gostou quando tudo terminou. Alguns dias mais à frente, com a sua confidente, Luzinete comentou:


– Não sei o que aconteceu depois da operação. Eu fiquei toda feliz com minha transformação. Mas, depois que eu me virei em mulher, eu abusei a homem. Quero mais não! Você pode até achar que isso não faz sentido. Que meu juízo era pouco e agora está perdido, mas, comigo, até parece que quase tudo acontece ao contrário ou invertido. De uns dias para cá, o que me deu foi vontade de em algum feriado ir ver a minha cidade. Do jeito que estou agora, ando por lá e venho embora ocultando a identidade.


A amiga lhe falou que não fosse tão ousada. Que talvez essa viagem fosse muito arriscada. Se fosse reconhecida, bagunçava sua vida que estava tão arrumada.


Aconselhar Luzinete de nada adiantava. Quando queria uma coisa, ninguém mais lhe segurava. Em uma sexta imprensada, Luzinete, na estrada, pelo sertão viajava. Guiando seu automóvel, foi entrando na cidade e foi logo percebendo que estava com saudade do lugar onde nasceu, e também onde viveu um trecho da mocidade. Percorreu algumas ruas e parou para descansar na praça em frente à igreja, onde pôde observar as pessoas que passavam e ali se acomodavam ficando a conversar. Lembrou de tempos atrás, quando também lá esteve, e dos momentos felizes que ali um dia teve. Tomada de emoção, pôs a mão no coração, de chorar não se conteve.


Estava assim Luzinete, curtindo sua nostalgia, quando viu que ali chegava uma mulher, que sorria brincando com um menino. Então pensou:


– Mas que destino! Aquela não é Maria?


domingo, 17 de janeiro de 2010

Cordel em prosa



A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton(*)
Parte I


Era uma vez Zé Luando, que um dia nasceu menino, cresceu, casou, descasou, mas, por obra do destino, não ficava à vontade, nem tinha felicidade, no seu corpo masculino. No sertão do Ceará dizem que ele nasceu. Numa pequena cidade, estudou, brincou, cresceu. Todo mundo o conhecia, mas ninguém esperaria ocorrer o que ocorreu.

Esse nome “Zé Luando” veio de um combinado do nome de sua mãe com o de seu pai ligado. Luana a mãe se chamando, e o pai, José Fernando, o nome assim foi formado.

Desde que era pequenino, muita gente já notava que brinquedo de menino a ele não agradava. Soltar pião, jogar bola, brincar de luta na escola, nada disso ele gostava. Mas logo se alegrava se chegava à sua mão um batom ou um espelho que achasse pelo chão. Com a boca toda pintada, deixava a mãe intrigada com a sua animação. O pai não tinha noção do que estava acontecendo. Ou estava trabalhando, ou em algum bar, bebendo. O menino delicado, e o pai, sempre ocupado, nada ia percebendo.

Assim ele foi crescendo com seu jeito diferente. De menino em rapaz tornou-se rapidamente. Mas, arranjar namorada era coisa complicada, que lhe deixava doente. Quando ia a uma festa, bem que ele até tentava. Aproximava-se das moças, conversava, conversava, mas, só de imaginar a sua boca beijar, seu estômago embrulhava. Na verdade, nessas horas, quando estava perto delas, olhava era para as roupas usadas então por elas. Ficava a imaginar, algum dia desfilar, usando uma daquelas.

Na cidade, àquela altura, todo mundo comentava, pois chamava a atenção Zé Luando onde passava. Fosse na volta da missa ou no bar da Dona Ciça, assunto é o que não faltava.
Assim, foi grande a surpresa quando chegou a notícia:

– Zé Luando vai casar com a filha de Dona Eunícia! E não pode ser boato, pois quem me contou o fato foi um cabo da polícia!

Segundo o cabo, ele esteve na Igreja Transversal, conversou com o pastor, explicou o principal e perguntou:

– Terá cura para uma criatura que nasce homossexual?

O pastor disse:

– É claro! O milagre é dos pequenos! Basta só você ter fé, e os resultados são plenos. Mas, pra mostrar devoção, faça uma doação de cem reais, pelo menos.

Zé Luando acreditou e fechou logo o negócio. Entregou os cem reais ao chefe do sacerdócio, que lhe disse:

– Tenha fé, pois Jesus agora é, além de amigo, seu sócio.

A partir daquele dia, Luando ficou mudado. Só vivia na igreja rezando, ajoelhado. Um dia o pastor falou:

– A maldição acabou. O irmão está curado. Você agora é homem para o que der e vier. Vai casar e ser feliz, ter os filhos que quiser. Espere que, amanhã, apresento-lhe a irmã que vai ser sua mulher.

Zé Luando, emocionado, quase não acreditava no milagre que o pastor então lhe comunicava. Por ele, no mesmo dia, a noiva conheceria e com ela se casava.

É aí que entra na história a Maria Salomé, filha de Dona Eunícia com Seu João Buscapé. Uma mocinha faceira que trabalhava de obreira na mesma igreja de Zé. Era ela a dita noiva que o pastor lhe arranjou, e depois disse que ela por José se apaixonou. Entre Luando e Maria, na noite do mesmo dia o noivado começou.

A notícia do noivado foi uma grande surpresa. Lá no bar da Dona Ciça, era assunto em toda mesa, porque, mesmo namorando, ninguém via em Zé Luando qualquer sinal de macheza. Ficava até esquisito, quando o casal passava. Saía gente na porta, todo mundo olhava, olhava... Luando até parecia mais mulher do que Maria, e ela nem se incomodava.

E assim foi o namoro e o tempo do noivado. O dia do casamento também foi logo marcado. Quando esse dia chegou, o povo se ajuntou pra ver Luando casado. No casório, o pastor sorria todo contente. O milagre de Luando encheu a igreja de gente. E a arrecadação de dízimo e doação aumentava de repente.

A história poderia acabar neste momento. Um “felizes pra sempre”, logo após o casamento, e a história de José, com Maria Salomé, terminaria a contento. Mas tenho que prosseguir narrando o que aconteceu, pois, sete meses depois, o filho de Zé nasceu, mas, em vez de animado, Zé ficou acabrunhado, com cara de “já morreu”.

Os amigos visitavam o bebê recém nascido, que, apesar de prematuro, era grande e bem nutrido, mas o Zé continuava alheio ao que se passava, de alegria desprovido.

(*) Saiba um pouco sobre esta obra:
Ano passado, participei do concurso "Arte da Magistratura", uma iniciativa muito interessante da Associação Paulista da Magistrados, abrindo espaço para os juízes que, apesar da complexidade e seriedade de seu trabalho, conseguem manter viva em seu espírito a chama da arte e da sensibilidade. O concurso era aberto a juízes estaduais de São Paulo, mas juízes federais e do trabalho poderiam ser de qualquer estado da federação, o que permitiu que eu concorresse.
Havendo duas categorias - artes plásticas e obra literária - Claro que participei da segunda. Para minha felicidade, dois de meus escritos ficaram entre os 24 semi-finalistas: a crônica "Uma confissão apaixonada" e o conto "A história de Zé Luando, o homem que virou mulher". No finalzinho de 2009, foi divulgada a lista dos dez finalistas e, para minha alegria, lá estava meu nome entre eles, com a obra "Uma confissão apaixonada". Resolvi postar as duas neste MundoCordel, começando pela "História de Zé Luando", que tem uma peculiaridade: originalmente, o conto foi escrito em cordel, mas, para concorrer como conto, achei que a apresentação em versos poderia confundir a cabeça da comissão julgadora. Afinal, como o cordel poderia concorrer como conto, se os contos são em prosa e os cordéis em verso? Perguntei a uma amiga, Juliana, prima de minha esposa, doutora em letras, o que fazer. Segundo ela, o cordel é poesia. Poesia épica, como a "Ilíada" a "Odisséia" e "Os Lusíadas". Enchi-me de orgulho diante de tal parecer - ainda mais vindo de quem entende do assunto - mas, continuei achando que, na categoria poesia, a coisa seria complicada. Além disso, eu lia o texto e continuava vendo um conto. Foi aí que veio a idéia de apresentá-lo como um texto escrito em prosa, inclusive abrindo mão da rima e da métrica de vez em quando, se necessário fosse para melhorar o resultado final. Afinal, são técnicas diferentes de escrita, então, algumas construções muito boas em verso não ficam bem quando em prosa, e vice-versa. Bem, o resultado está logo acima. Como ficou um pouco longo, está dividido em três capítulos. Espero que esses comentários não tenham cansado o leitor, a ponto de fazê-lo desistir da leitura dos próximos capítulos.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Os dois soldados (última parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS X (FINAL)

O
post anterior terminou com a estrofe:

Naquele mesmo instante
O soldado mais valente
Mostrou todo seu valor
E partiu logo na frente
Entrou armazém adentro
Mas, quando estava lá dentro,
Mudou tudo, de repente.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

O telhado desabou
Depois de ser atingido
Por um tiro de canhão,
Fazendo grande estampido,
E o valente soldado
Ficou lá, encurralado,
Provavelmente ferido.

Nessa hora o capitão
Correu para lhe salvar
E do meio dos escombros
Conseguiu lhe retirar
Mas quando ele saiu
Tudo aquilo explodiu
Em pedaços pelo ar.

Saímos dali correndo,
Buscando nos proteger
Mas, sem saber pra que lado
Deveríamos correr.
Então nos refugiamos
Numa vala que encontramos
Tentando sobreviver.

Percebi que o capitão
Foi ferido gravemente
E agonizava nos braços
Do soldado mais valente
Só que, antes de morrer,
Teve tempo de dizer,
Uma mensagem pra gente.

Dizia-lhe o capitão:
“Sei que logo irei morrer,
Mas, antes de eu partir,
Tenho algo a lhe dizer:
Quando eu me arrisquei,
Fiz apenas o que achei
Que eu tinha que fazer.

Não fiz para ser herói
Nem pra ser condecorado,
Mas, se algo do que eu sei,
Merece ser ensinado,
Lhe digo e sei que acerto:
Faça sempre o que achar certo
Por mais que seja arriscado”.

Foi isso o que sonhei
Na noite que antecedeu
O incêndio que vizinho
À nossa casa ocorreu.
Eu era muito criança
Mas tenho viva a lembrança
De tudo que aconteceu.

A frase que eu falei
Não foi de caso pensado.
Eu apenas repeti,
O que tinha escutado
Naquele momento incerto:
Faça sempre o que achar certo
Por mais que seja arriscado”.

Quando o rapaz acabou
Toda aquela narração,
Percebi que o pai chorava
Tomado pela emoção.
Fui um privilegiado
Por eu ter presenciado
Aquela situação.

Pai e filho se abraçaram
Como dois grandes amigos
Que já caminhavam juntos,
Desde tempos muito antigos.
Caminhando lado a lado,
Tendo juntos enfrentado
Aventuras e perigos.

Se vivemos muitas vidas,
Se há reencarnação,
Eu não nego, nem afirmo,
Não digo que sim, nem não,
Mas, eu bem que gostaria
De haver sonhado, um dia,
Que eu era o outro soldado
Que estava ali por perto
E fazer o que acho certo
Por mais que fosse arriscado.


Volta para o primeiro capítulo...

domingo, 17 de agosto de 2008

Os dois soldados (9ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS IX

O
post anterior terminou com a estrofe:

Mas, quando ele falou isso,
Lembrei-me daquele dia.
Então o cumprimentei,
Perguntei se ele queria
Almoçar em minha mesa.
Teríamos, com certeza,
Assuntos a por em dia.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

E, de fato, havia mesmo
Muito para conversar.
Ele falou de sua luta
Para se recuperar
Até deixar o hospital,
Voltar à vida normal
No trabalho e no seu lar.

Naquela oportunidade,
Outra vez nós comentamos
Sobre a história do seu sonho
Da qual um dia falamos,
Quando nós nos conhecemos
No hospital onde estivemos.
Tudo isso nós lembramos.

No meio dessa conversa
Aproximou-se um rapaz
De uns dezessete anos,
Talvez menos, talvez mais,
Que lhe disse, sorridente:
“Papai, cheguei finalmente,
Lhe fiz esperar demais?”

Ele, então, disse: “Meu filho,
Nem vi o tempo passar,
Pois encontrei este amigo
E estive a conversar,
Eu há tempos não o via
Mas, agora gostaria
De a você apresentar”.

“O conheci no hospital,
Quando estive internado
Por causa daquele incêndio,
Ocorrido no passado,
Quando ajudei a vizinha,
Socorri a menininha,
Mas saí todo queimado.”

Depois, olhou para mim,
E foi me esclarecendo:
“Esse aí é o meu filho,
Que eu estava lhe dizendo,
Cuja bela atitude
Demonstrou grande virtude,
Muito me surpreendendo”.

“Com seus dez anos de idade
Mostrou não ter egoísmo.
Arriscou ficar sem pai,
Num exemplo de altruísmo.
Ao me ver titubear,
Inspirou-me a praticar
Ato de grande heroísmo”.

Ouvindo-o falar assim,
O filho o interrompeu,
Dizendo: “Papai, espere,
O senhor não entendeu
Que naquele triste dia
Que o senhor quase morria,
Quem lhe inspirou não fui eu.”

O homem ficou surpreso.
Disse: “Filho, não entendo
É o que estás agora
Nesse instante me dizendo.
Ao ouvir você falar
Foi que resolvi entrar
Na casa que estava ardendo”.

O filho disse: “Eu sei disso,
Mas eu nunca lhe falei,
Que aquilo que eu disse,
Não fui eu que inventei.
Eu apenas repeti
Uma frase que ouvi
Em um sonho que sonhei”.

Na noite antes do incêndio
Eu sonhei que era um soldado
Que lutava em uma guerra
E, em meio ao fogo cruzado,
Fui buscar mais munição
Dentro de um velho galpão
Que havia ali do lado.

Eu e mais dois companheiros
Fomos naquela missão
De entrar no armazém
Por ordem do capitão
Que ficou nos esperando
Na carroça aguardando
Com uma arma na mão.

Naquele mesmo instante
O soldado mais valente
Mostrou todo seu valor
E partiu logo na frente
Entrou armazém adentro
Mas, quando estava lá dentro,
Mudou tudo, de repente.



Continua no próximo post...

sábado, 16 de agosto de 2008

Os dois soldados (8ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS VIII

O
post anterior terminou com a estrofe:

Ponderei sobre essas coisas
Com interesse real,
Mas, o tempo passou logo,
E, em verdade, no final,
Nada e nada concluímos.
Depois nós nos despedimos
E me fui do hospital.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

O meu amigo ficou
Alguns dias internado,
Mas logo voltou pra casa,
E hoje está recuperado.
Muito tempo se passou
E aquele dia ficou
Esquecido no passado.

Até que, esta semana,
Eu estava almoçando
Em um shopping da cidade,
Muito distraído, quando
Ouvi uma voz falar:
“Veja, só neste lugar,
Quem eu estou encontrando”.

Eu sequer reconheci
Quem falava ali comigo,
Mas o homem se portava
Como fosse meu amigo,
Disse: “Que satisfação,
Tenho nesta ocasião
De encontrar aqui contigo!”

Foi aí que percebeu
Que eu não o reconhecia,
Então disse: “Me desculpe,
Como você poderia
Saber hoje quem sou eu
Se quando me conheceu
Não viu a fisionomia?”

“Eu sou aquele sujeito
Que estava todo queimado
No dia em que seu amigo
Estava hospitalizado.
Você foi lhe visitar
E eu peguei a lhe contar
Como fui acidentado.”

“Olhe só as cicatrizes
Que para sempre ficaram
Nos meus braços e orelhas
Que no incêndio se queimaram.
Mas, entendo se você
Não lembrar, mesmo por que
Muitos anos se passaram.”

Mas, quando ele falou isso,
Lembrei-me daquele dia.
Então o cumprimentei,
Perguntei se ele queria
Almoçar em minha mesa.
Teríamos, com certeza,
Assuntos a por em dia.


Continua no próximo post...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os dois soldados (7ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS VII

O
post anterior terminou com a estrofe:

Quando ouvi aquela frase,
Eu não pensei mais em nada.
Em direção ao incêndio
Saí logo em disparada
Pouco depois eu voltava,
E em meus braços carregava
A menina desmaiada.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

Depois que saí da casa,
Em seguida desmaiei
E aqui neste hospital
No outro dia acordei.
Pelo ato de bravura
Tive tanta queimadura
Que eu quase me acabei.

Mas, eu lembro que na hora
Que na casa fui entrando,
Era como se estivesse
Naquela guerra lutando,
E a voz do meu comandante
Em repetição constante
Na minha mente ecoando.

Agora, você me diga
Como pôde acontecer
De a frase do meu sonho
Meu filho também saber?
E também de ele ter dito,
Naquele momento aflito,
O que veio a me dizer?

Pois, tendo ele dez anos,
Eu não podia esperar
Atitude como aquela,
De o pai incentivar,
A seguir a consciência
Mesmo que a sobrevivência
Tivesse que arriscar.

Ao ouvir aquela história
Fiquei muito impressionado.
Será mesmo que vivemos
Outras vidas no passado?
Que pai e filho lutaram
Numa guerra e enfrentaram
O inimigo lado a lado?

Ou será que, na verdade,
Foi apenas impressão,
Que o pai teve na hora
De toda aquela aflição,
E pensou ter escutado
O que estava guardado
Em seu próprio coração?

Mas, é possível também,
Ter ocorrido o seguinte:
O próprio pai ter narrado,
Umas dez vezes, ou vinte,
Aquele sonho, e então,
Em alguma ocasião
O filho ter sido ouvinte.

Ponderei sobre essas coisas
Com interesse real,
Mas, o tempo passou logo,
E, em verdade, no final,
Nada e nada concluímos.
Depois nós nos despedimos
E me fui do hospital.


Continua no próximo post...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Os dois soldados (6ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS VI

O
post anterior terminou com a estrofe:

Você deve estar pensando:
“O que isto tem a ver
Com as suas queimaduras
Que ora lhe fazem sofrer?”
Espere que eu lhe conto
E é bom que esteja pronto
Para o que vou lhe dizer.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

Aconteceu que um dia,
Eu estava retornando
Para casa com meu filho,
Mas, quando fomos chegando,
Percebi que a residência
Da vizinha, dona Hortênsia,
Estava incendiando.

Ela veio lá de dentro
Chorando desesperada.
Gritando: “A minha filha,
Vai morrer toda queimada!
Não tive como salvá-la
Pois não pude carregá-la
Quando caiu desmaiada.”

Ao ouvir essas palavras
Pensei logo em entrar
Naquela casa em chamas
E assim poder salvar
A filha de Dona Hortênsia,
Mas, apesar da urgência,
Tive tempo de pensar:

“E se eu morrer lá dentro,
Sem nada poder fazer
Pra salvar essa criança
Que eu tento socorrer?
Se eu morro nessa hora,
Meu filho fica aqui fora
Vendo tudo acontecer.”

Olhei para o meu filho,
Que estava ali, do meu lado,
E ele, como se notasse
Que eu havia hesitado,
Disse pra mim, bem de perto:
“Faça sempre o que acha certo
Por mais que seja arriscado”.

Quando ouvi aquela frase,
Eu não pensei mais em nada.
Em direção ao incêndio
Saí logo em disparada
Pouco depois eu voltava,
E em meus braços carregava
A menina desmaiada.



Continua no próximo post...

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Os dois soldados (5ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS V

O
post anterior terminou com a estrofe:

Foi então que eu lhe falei:
“Capitão, muito obrigado,
O que o senhor fez por mim
Me deixou impressionado,
Arriscando a sua vida
Desta forma destemida
Pela vida de um soldado”.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

Nessa hora ele me disse:
“Sei que logo irei morrer,
Mas, antes de eu partir,
Tenho algo a lhe dizer:
Quando eu me arrisquei,
Fiz apenas o que achei
Que eu tinha que fazer.

Não fiz para ser herói
Nem pra ser condecorado,
Mas, se há algo do que eu sei,
Que pode ser ensinado,
Eu digo e sei que acerto:
Faça sempre o que achar certo
Por mais que seja arriscado”.

Ele disse aquela frase
E ali mesmo morreu.
Uma grande emoção
Sobre mim se abateu.
Então acordei chorando,
Minha mulher perguntando
O que foi que aconteceu.

Foi um sonho tão real
Que custei a acreditar
Que havia apenas sonhado
E acabava de acordar.
Minha cabeça zunia,
Levei quase todo o dia
Para me recuperar.

Mas, depois, passou o tempo,
E eu acabei me esquecendo
Daquele sonho que um dia
Me fez acordar tremendo,
Como também da lição
Que me deu o capitão
Quando estava ali, morrendo.

Você deve estar pensando:
“O que isto tem a ver
Com as suas queimaduras
Que ora lhe fazem sofrer?”
Espere que eu lhe conto
E é bom que esteja pronto
Para o que vou lhe dizer.


Continua no próximo post...

Os dois soldados (4ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS IV

O
post anterior terminou com a estrofe:

Só que, enquanto ele lutava
Pra me ajudar a sair,
O inimigo prosseguia
Querendo nos destruir,
E as bombas que caíam
A qualquer momento iriam
Fazer tudo explodir.


E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

E de fato, explodiu,
Mas eu já tinha saído.
Aí vi que o capitão
Estava muito ferido.
Pois um grande estilhaço
De ferro ou mesmo de aço
Havia lhe atingido.

Consegui sobreviver,
Por causa daquele amigo,
Que, tentando me salvar,
Expôs-se muito ao perigo,
E sofreu um ferimento
Que causou um sangramento
Na altura do umbigo.

A partir desse momento,
Era eu que o socorria.
Carregando-o em meus ombros
Para bem longe eu corria,
Mas, sem ter para onde ir,
Não pude mais prosseguir,
Nem andar eu conseguia.

Foi só aí que eu vi
Que os outros dois soldados,
Que para aquela missão
Comigo foram chamados,
Também nos acompanhavam
E, como eu, lá estavam
Feridos e assustados.

Ficamos todos ali,
Eles, eu e o capitão.
Escondidos, esperando
Melhorar a situação.
Mas o capitão sangrava,
Bem depressa piorava
Ali, deitado no chão.

Foi então que eu lhe falei:
“Capitão, muito obrigado,
O que o senhor fez por mim
Me deixou impressionado,
Arriscando a sua vida
Desta forma destemida
Pela vida de um soldado”.


Continua no próximo post...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Os dois soldados (3ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS III

O
post anterior terminou com a estrofe:

Depois de horas de luta,
Vi que nossa munição
Já estava acabando.
E aquela situação
Ficaria complicada
Se não fosse encontrada
Logo alguma solução.

E a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

Lembro que, bem nessa hora,
Chegou o meu capitão,
E disse: “Venha comigo
Pra buscar mais munição.
Mas, nós temos que correr
Ou então vamos perder
Todo nosso pelotão”.

Pegamos uma carroça,
Ele, eu e outros dois,
Que estavam na trincheira
E ele chamou depois.
E saímos na carreira
Descendo uma ladeira
Entre campos de arroz.

Chegamos numa cabana
Onde estava a munição,
Mas, perto dela, caíam
Muitas balas de canhão
Mesmo assim, fui logo entrando
E a munição procurando,
Pra levar pro capitão.

Mas, já na primeira vez
Que entrei naquele local
Um dos tiros atingiu
A coluna principal.
O telhado desabou
Por pouco não me causou
Um ferimento fatal.

Fiquei preso na cabana
Sentindo muito receio
Que outro tiro atingisse
A construção pelo meio.
Vendo que a minha vida
Poderia ser perdida
No terrível bombardeio.

Nessa hora o capitão
Apressou-se em me salvar
E, saltando da carroça,
Veio para me ajudar.
Afastando os escombros
Arrastou-me pelos ombros
Dali para outro lugar.

Só que, enquanto ele lutava
Pra me ajudar a sair,
O inimigo prosseguia
Querendo nos destruir,
E as bombas que caíam
A qualquer momento iriam
Fazer tudo explodir.


Continua no próximo post...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os dois soldados (2ª parte)



CORDEL EM CAPÍTULOS II

O
post anterior terminou com a estrofe:

Percebendo que o homem
Queria participar
Da conversa, resolvi
Também com ele falar.
Perguntei: “E tu, amigo?
O que aconteceu contigo?
Como foi se machucar?”

Agora, a história continua...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton
(continuação)

Apesar dos ferimentos
Ele logo respondeu
E me disse: “Eu lhe conto
O que me aconteceu.
Só que, antes, fale sério,
Se acredita em mistério,
Se é crente ou se é ateu”.

Respondi: “Me considero
Como espiritualista.
Não sigo religião
Mas não sou materialista.
Respeito, de coração,
O mulçumano, O cristão,
O hindu e o budista”.

Ele disse: “Então eu conto,
Mas preste muita atenção,
Pois o que me aconteceu,
Me causa admiração.
Depois que eu lhe falar,
Se tiver como explicar
Me dê a explicação”.

Há alguns anos atrás,
Tive um sonho interessante,
Que parecia real,
Uma coisa impressionante.
Por uma questão de terra,
Eu estava em uma guerra
Era um soldado, um infante.

Eu não sei qual era o ano,
Nem sei qual era o lugar,
Mas a arma que se usava
Era dessas de socar.
A cada tiro que eu dava
Outra vez recarregava
E tornava a atirar.

Nessa batalha sangrenta
Bala vinha e bala ia.
Do lado que eu estava
Toda hora alguém caía.
O inimigo era forte,
Ali nos rondava a morte,
Mas a ela eu não temia.

Depois de horas de luta,
Vi que nossa munição
Já estava acabando.
E aquela situação
Ficaria complicada
Se não fosse encontrada
Logo alguma solução.


Continua no próximo post...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Os dois soldados (Início)



ANIVERSÁRIO E CORDEL EM CAPÍTULOS

Dia 19 deste mês de agosto, Mundo Cordel completará um ano de existência.

Em comemoração à data, vou publicar, a partir de hoje, uma série de posts contendo partes de um cordel inédito que acabo de criar. A cada post publicarei algumas estrofes, até chegar ao final, no dia 19.

Como o cordel tem setenta e oito estrofes, meu pensamento inicial era publicar seis estrofes por post, mas percebi que às vezes a história seria interrompida no meio de uma idéia. Então resolvi não me prender a números.

Vamos soltando a história aos poucos e ver o que acontece...

OS DOIS SOLDADOS
Marcos Mairton

Foi William Shakespeare
Quem escreveu certo dia
Que existem mais mistérios
Entre o céu e a pradaria
Do que possa explicar
Ou ao menos suspeitar
Nossa vã filosofia.

Citei esse pensamento
Em outro cordel que fiz,
Quando adaptei um conto
De Machado de Assis,
E o caso que eu vou contar
Vem de novo confirmar
Essa frase que se diz.

Ocorreu que numa tarde
De um domingo ensolarado,
Fui a um grande hospital
Onde estava internado
Um velho amigo meu
Que um acidente sofreu
E ali foi operado.

Da sua bonita moto
O rapaz tinha caído.
Ficou todo arranhado,
Bem machucado e ferido,
Quase que não escapava
Mas já se recuperava
Do acidente sofrido.

Quando entrei na enfermaria
Percebi que ao seu lado
Havia uma outra cama
E nela um homem deitado.
Chamou minha atenção
Ver que aquele cidadão
Estava todo enfaixado.

Prossegui com a visita,
Fiquei ali conversando,
A história do acidente
Meu amigo foi contando.
Enquanto ele conversava,
O seu vizinho ficava
Sempre nos observando.

Percebendo que o homem
Queria participar
Da conversa, resolvi
Também com ele falar.
Perguntei: “E tu, amigo?
O que aconteceu contigo?
Como foi se machucar?”


Continua no próximo post...