Mostrando postagens com marcador Como fazer cordel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Como fazer cordel. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O primeiro cordel






FAZENDO CORDEL

Sempre chegam comentários em versos a este Mundo Cordel. De vez em quando tiro um tempo para dar uma olhada neles com mais calma e me surpreendo com as maravilhas que encontro.

Hoje estive revendo versos que aqui chegaram em fevereiro de 2009, de autoria de Vana Fraga, que se autodenomina Pequena Poetisa. 

Pelo texto, parece ser sua primeira tentativa de fazer um cordel. Parabéns, Pequena Poetisa, pela iniciativa. 

Como você bem diz, "O cordel nunca vai acabar". É por causa de pessoas como você que ele vai continuar vivendo!




Para Fazer Um Cordel
Pequena Poetisa, Vana Fraga

Para Fazer Um Cordel
Não Precisa Ser Coronel
Muito Menos Ter Anel
Aquele De Bacharel!!!

Parece Ser Muito Difícil
Pois Nunca Fiz Isso
No Começo Me Enguiço
Até Parece Feitiço!!!

Lá Vou Eu Aventurar
Pra Ver No Que é Que Dá
Não Conheço Cordel
Feito Aqui No Paraná!!!

Peguei Caneta e Papel
Comecei A Escrever
Deve Ser Primeira Aula
A Que Hoje Vou Ter!!!

Vou Anotar Tudinho
Pra Ficar Bem Bonitinho
Com Dedicação e Carinho
Farei o Primeiro Cordelzinho!!!

Sei Muito Bem Rimar
Tenho Na Língua o Versejar
Sem Saber Por Onde Começar
O Cordel Nunca Vai Acabar!!!

Escreve Aqui “Lê Ali”
Já Começou A Sair
Antes De Esta Noite Chegar
O Meu Cordel Vai Findar!!!

Aprendi Uma Lição
Pro Negócio Ficar Bom
Os Versos Trovados
Travo No Mesmo Tamanho!!!

Fiquei Encantada
Que Coisa Gozada
Tudo Bem Rimado
E O Cordel Esta Findado!!!

Se Aprendi Não Sei
Mas Que Gostei Gostei
Muitos Ainda Farei
Para Alegrar Você Meu Rei!!!

terça-feira, 12 de abril de 2011

CONSTRUÇÃO CORDEL: UM PENSAMENTO POÉTICO!
Um texto de Maviael Melo

Começo citando o Mestre Pinto do Monteiro:
“O Poeta é aquele que tira de onde não tem e coloca aonde não cabe”.
A - Assim como tem alguém
B - Que quando perde alguém chora
C - Também tem alguém que age
B - Quando um amor vai embora
D - Com a mesma simplicidade
B - Que um pingo d‘água se tóra
Manoel Filó
Nos versos acima, do mestre Filó, reafirmo Pinto pela grandeza do poeta em conseguir tirar de um pingo d’água, um choro, uma separação, um corte, uma saudade e colocá-los numa sextilha. É a nossa poesia popular tão bem representada por grandes Poetas, Cantadores e Cordelistas, que trazem com muita naturalidade os seus versos, criados a partir das paisagens vivenciadas em seus distintos espaços.
A liberdade dos poetas com as palavras, a relação dos autores com cada frase, é quase que matrimonial, no que se refere a proliferação de palavras, o surgimento de novos versos e novas imagens, e também personagens capazes de inventa-lás, como Odorico, por Dias Gomes, e Talqualmente: “… no véu da prilugumia”, do grande Poeta Zé Limeira, memorizado por Orlando Tejo, em Zé Limeira, O Poeta do Absurdo. Essa intimidade com as palavras é o que facilita a criação poética e o relacionamento com cada espaço é o que alimenta, dia-a-dia a formação de novas palavras e novos versos.
É nessa concepção que acreditamos se basear a construção poética do cordel, citando por exemplo uma sextilha aberta, onde se sabe que os versos pares rimam entre si (B), ficando os ímpares livres (A,C,D), a partir daí imaginar o que falar sobre o tema dado. No exemplo acima, o poeta descreve as reações diversas das pessoas na hora de uma partida, ele sai costurando os versos entre si, linha a linha com o tema, o que facilita o encontro das rimas, no caso o poeta descreve ver alguém chorando com a partida doutro alguém, (Assim como tem alguém que quando perde alguém chora), e ver alguém simplesmente sorrindo, ou até mesmo indiferente com a mesma partida, (Também tem alguém que age quando um amor vai embora), nos fazendo observar que tudo é simples demais, pois é da relação com a vida, e a vida é simples e natural. (Com a mesma simplicidade que um pingo d’água se tora).
Tem algo mais natural e simples que a vida? A ligação entre os versos é proporcional as imagens que têm cada poeta de seus respectivos espaços de vida. Se um poeta cordelista segue um contexto rural, convivendo com cores, cheiros, flores e sonhos quando chega uma chuva no seu chão, já vislumbra a safra, recordando o que passou, é natural que se diga:
O rio se excita e transborda
Com a bonança das chuvas
Seguindo e fazendo curvas
Num trovejar que o acorda
E um sertanejo recorda
Das agruras do passado
Já sente o solo molhado
Ver o vergel no baixio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado.
Como também natural será, se for esse poeta por temas urbanos, discorrer sobre um final de tarde em uma estação de metrô e nos diga:
Alguns homens falavam em segredo
Vendo o tempo passar numa janela
E a tristeza presente no enredo
Era a única certeza da querela
Argumentos saiam dentro dela
No silêncio de tantos dissabores
E a mistura de sons formavam dores
No sereno da noite que chegou
Na estação do meu verso o trem passou
Recolhendo os irmãos trabalhadores. 
É o conhecimento sobre o tema (recursos naturais intrísecos a cada poeta), a liberdade com as palavras, a utilização das técnicas que normalizam a literatura de cordel, que referencia a construção poética de cada um. Nem todo cordel é poesia.
Aqui nos temos de tudo
Feijão, farinha e cachaça
Tudo que você precisa
Tá no Mercado da praça
Mercearia do Povo
O nosso preço é de graça.
Na sextilha acima, o tema descreve um comercial de uma determinada loja. A Mercearia do Povo. É comum acharmos diversos cordéis de propagandas comerciais e/ou políticas, que não necessariamente são poesias. Cordelizar uma bula de remédio, é um cordel simplesmente. Descrever uma imagem vinda por palavras do coração, da alma, do desejo real que cada verso encontre o seu outro verso. Isso sim é poesia de cordel.
Enfim, a construção poética do cordel está na alma do poeta cordelista, no coração, na mente e evidentemente no traço particular de cada um. Uns traçam a saudade, as lutas, os mitos, os amores, o tempo, etc., outros traçam o tempo, os amores, os mitos, as lutas, as saudades, etc…, não necessariamente na mesma ordem ou no mesmo sentido. O formato de junção das palavras e a formação da ideia em cada verso é que diferencia essa construção, é natural perceber concepções distintas de diversos poetas sobre um mesmo tema.
Seguir uma linha de raciocínio, um ideia formada, um desejo de ser verso, letra a letra, palavra por palavra, verso por verso, tijolo por tijolo. A CONSTRUÇÃO!

terça-feira, 10 de junho de 2008

A técnica de fazer cordel III

Figura obtida no Blog da Allan Campos:
(http://allancampos.wordpress.com/2008/04/08/governo-joga-mal-para-manter-professores-em-sala-de-aula/)

COMO FAZER CORDEL

A maioria das visitas a Mundo Cordel chega por meio de ferramentas de busca, tendo como argumento a expressão “como fazer cordel”. Não é para menos. Quando se digita essas três palavras no Google, e se clica “pesquisar”, a primeira URL da lista de resultados é o post “A técnica de fazer cordel”, de 02/07/2007. A segunda URL é “A técnica de fazer cordel II”, continuação da primeira.



Acredito que esses textos venham ajudando muita gente a elaborar os seus próprios cordéis, mas admito que eles me parecem mais úteis para mostrar as possibilidades de criação que para ajudar a criar.

Como fazer um cordel? Certamente, cada poeta tem o seu método de trabalho, mas deve haver pontos em comum. Falarei um pouco sobre o meu próprio método.
Quem nunca fez um cordel, pode tentar seguir esse caminho, e ver como se sai. À medida que for ganhando habilidade, pode ir adequando o método ao seu jeito próprio de fazer as coisas.

Penso que a primeira coisa a se fazer é escolher o tema. Não dá para desenvolver bem qualquer atividade escrita sem saber sobre o que se vai escrever; é claro que às vezes acontece de surgir uma idéia espontaneamente. Os fatos dos dia a dia são uma ótima fonte de inspiração, como destaco em “Uma visita inesperada”:

Para fazer os meus versos
Não falta matéria prima
Um elevador que desce
Um outro que vai pra cima
Uma van que vai parando
E nela alguém vai chegando
Atrasado pro trabalho.
Numa mesa improvisada,
Alguém vende, na calçada,
Caneta, isqueiro e baralho.

Mesmo assim, é preciso estar seguro quanto ao ponto central da obra, até para saber o caminho que se pretende seguir. Ao decidir fazer um cordel sobre um assalto ao qual assistiu na rua, você deve saber se o seu cordel terá como foco narrar o assalto, ou falar da violência urbana. Certamente que uma opção não exclui a outra. Em uma narração, sempre dá para fazer reflexões, e vice-versa, mas há que se definir a predominância.

Por falar em predominância, identifico alguns tipos de cordel:

a) Cordéis Narrativos, que contam uma história, um caso, um fato pitoresco. Podem ser subdivididos em:
1) Ficção, quando narra um fato criado pela imaginação humana, ainda que baseado em fatos reais (p.ex. “A chegada de Lampião no Inferno”), podendo ser:
i) Original, quando o próprio autor dos versos é também autor do enredo; e
ii) Adaptação, quando o autor dos versos aproveita um enredo já existente. Muito usada em relação aos clássicos da literatura.
2) Não ficção, quando o autor se propõe a narrar fatos efetivamente ocorridos (p.ex: “O ataque de Lampião a Mossoró”);
b) Cordéis dissertativos, quando o autor comenta, analisa, opina sobre determinados fatos. Muito usado para tratar de temas políticos e econômicos de interesse da população (p.ex: Cordel sobre as prisões brasileiras);
c) Cordéis descritivos, quando o autor “desenha” um cenário com seus versos. Jessier Quirino faz isso com maestria em “Paisagens do Interior” e “Parafuso de Cabo de Serrote”;
d) Cordéis em homenagem a algo ou alguém. Uma cidade, um herói, um mito, conforme se vê em “O Vôo da Patativa”, de Dideus Sales, homenageando Patativa do Assaré.

Definidos o tema e o tipo, já se pode estabelecer a mensagem central a ser transmitida, a qual pode se constituir em um “mote”. Mote é o tema sobre o qual o poeta desenvolve os seus versos, exposto no último verso da estrofe ou nos dois últimos, quando é mote de duas linhas.

Feito isso, é hora de escolher a forma. Aqui, o leitor pode buscar qualquer uma das formas relacionadas nos posts “A técnica de fazer cordel", I e II, ou criar uma nova – o que só é aconselhável para quem tem muita prática no assunto.

É bom lembrar as seguintes dicas: a) versos e estrofes mais longas funcionam melhor para temas mais complexos; b) o cordel fica melhor de ler quando cada estrofe encerra uma idéia completa, formando um conjunto harmônico.
Outra dica importante: versos curtos são melhores para situações em que se pretende dar idéia de velocidade.

Pronto. Se você já sabe o que vai dizer, quantas sílabas pode usar em cada linha e quantas linhas em cada estrofe, está com quase tudo pronto. Faltam só as rimas. Se você não tem muita prática em rimar, comece com sextilhas, rimando os versos 2, 4 e 6, e deixando os ímpares livres. Escreva a segunda linha pensando nas palavras que usará para terminar os outros dois versos pares, e deixe as idéias irem fluindo. Já há dicionários de rimas na Internet (Dicionário de Rimas; Rimador - SONETOS.com.br), isso pode ajudar, especialmente quem está começando.
Às vezes a necessidade de rimar nos afasta um pouco do que queremos dizer imediatamente; isso é normal; é aí que você vai descobrir o prazer de dizer as coisas de um jeito diferente, inesperado, algumas vezes inserindo palavras que não seriam necessárias, para fechar a métrica, outras, usando de muito poder de síntese, para dizer muito em um só verso. Gosto mais da segunda opção.
Para finalizar, não custa lembrar a “Receita para Cordel”, de Mundim do Vale, postada neste blog, na qual o poeta dá verdadeira aula prática, mostrando, em versos, todos os caminhos que um bom cordelista deve seguir.

Algumas palavras finais, mas não menos importantes: cada vez mais consolida-se o pensamento de que o cordelista deve buscar escrever corretamente. Como bem ensina Arievaldo Viana, um ou outro erro que passe, é porque o autor errou mesmo, pois todos estamos sujeitos a isso. O cordel tem ajudado muita gente a aprender a ler. Assim, se temos condição de escrever corretamente, devemos fazê-lo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Cordel e repente





POESIA INDO E VOLTANDO

Ainda sobre grau de dificuldade dos estilos das poesias, devo confessar que também tenho atração por esses desafios. Outro dia me deu na idéia de fazer uma estrofe de martelo agalopado que pudesse ser cantada tanto de cima para baixo como de baixo para cima, ou seja, que os versos pudessem ser cantados na ordem inversa, sem perder o sentido. Aí fiz o seguinte:

Poesia pra dizer indo e voltando
Não é coisa para qualquer um fazer.
É preciso o poeta conhecer
O mistério de falar sempre rimando,
Com destreza as palavras ir juntando,
E falar da sua dor com alegria,
Misturar realidade e fantasia,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente.
É preciso um poeta inteligente
Pra dizer indo e voltando a poesia.

Pra dizer indo e voltando a poesia,
É preciso um poeta inteligente,
Pra dizer o que ele quer de trás pra frente,
Misturar realidade e fantasia,
E falar da sua dor com alegria,
Com destreza as palavras ir juntando.
O mistério de falar sempre rimando,
É preciso o poeta conhecer .
Não é coisa para qualquer um fazer,
Poesia pra dizer indo e voltando.

Passaram-se vários dias, acho que uns dois meses, e voltei a abrir o arquivo para ver o que havia nele. Quando li os versos acima, senti como se fosse outro poeta que os houvesse escrito. Então respondi:

O poeta mostra do que é capaz
Ao fazer a poesia desse jeito.
Quando eu não sabia nem falar direito,
Já cantava assim como você faz.
Já rimava para a frente e para trás,
Já sabia fazer versos recuando.
Eu já tinha das palavras o comando,
Antes de fazer três anos de idade.
Não me causa a menor dificuldade
Essa sua poesia indo e voltando.

Essa sua poesia indo e voltando
Não me causa a menor dificuldade.
Antes de fazer três anos de idade,
Eu já tinha das palavras o comando.
Já sabia fazer versos recuando,
Já rimava para a frente e para trás,
Já cantava assim como você faz,
Quando eu não sabia nem falar direito.
Ao fazer a poesia desse jeito
O poeta mostra do que é capaz.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Cordel e educação



“MARTELO PERGUNTADO”, “NÓ APERTADO” E A "RÁDIO MUNDO CORDEL"

O post anterior, que fala das visitas de poetas ao Mundo Cordel, mereceu comentário do blogueiro e escritor GILBAMAR, autor do blog GILBAMAR, POESIAS E CRÔNICAS.

Em seu comentário, Gilbamar dá exemplo de humildade ao manifestar seu desejo de:

“registrar, muito feliz,que a receita de cordel feita pelo talentoso Mundim do Vale foi bastante proveitosa para mim. Embora os meus cordéis ainda não tenham esse tempero tão equilibrado e de qualidade, que torna a poesia pura e encantadora, vou aprendendo com vocês,os mestres. Grande abraço, extensivo ao vate Mundim do Vale”

Quem já visitou o blog de Gilbamar sabe o quanto ele é bom, tanto na prosa como na poesia.

Mas já que estamos falando de receita para fazer poesia, uma coisa interessante de se observar na poesia popular é a variedade de gêneros, com rigorosas regras de métrica e de rima, e até mesmo de oração. É como se os poetas criassem dificuldades para eles mesmos, apenas para testar sua capacidade de transmitir suas idéias e sentimentos em um formato rígido de escrita.

Por exemplo: o martelo perguntado, que é uma versão do martelo agalopado, mas no qual, em uma estrofe, um cantador faz perguntas, e na seguinte, o outro cantador as responde.

Não sei se o mais difícil é perguntar ou responder, mas fica muito interessante. Para mostrar um exemplo, implanto uma novidade em Mundo Cordel, a Rádio Mundo Cordel, e apresento um trecho de um MARTELO PERGUNTADO feito pelos Nonatos:



Outro exemplo interessante desse tipo de poesia é encontrado no CD “Acorda Cordel na Sala de Aula”, de Arievaldo Viana. É o “nó apertado”, que a Rádio Mundo Cordel mostra, na composição de Zé Maria de Fortaleza e Jocélio:



Dá pra imaginar a complicação de se fazer poesia dessa forma, mas a criatividade de nossos poetas está acima dessas coisas, e tudo acaba ficando muito divertido.
Veja outros posts sobre a técnica de fazer cordel:

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel II



A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL (2ª Parte)


Prosseguindo em nossos estudos sobre a técnica do cordel, vejamos os gêneros destacados pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC. São eles:



Parcela ou Verso de quatro sílabas
- O mais curto conhecido na literatura de cordel. Observemos que o exemplo abaixo forma uma obra de dez pés.
Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu
o pau bateu
subiu poeira
aqui na feira
não fica gente
queimo a semente
da bananeira.

Verso de cinco sílabas
- Já citada na referência a Leonardo Mota, chamada redondilha menor. O exemplo dado pela ABLC é um trecho da peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, da autoria de Firmino Teixeira do Amaral. Nele percebe-se nitidamente que a métrica de Aderaldo era melhor que a de Zé Pretinho:

Pretinho:
no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala.

Cego:
Negro, és monturo
Molambo rasgado
Cachimbo apagado
Recanto de muro
Negro sem futuro
Perna de tição
Boca de porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão .

Estrofes de quatro versos de sete sílabas – Modalidade que evoluiu para a estrofe de seis versos, ou sextilha:

O Mergulhão quando canta
Incha a veia do pescoço
Parece um cachorro velho
Quando está roendo osso.

Sextilhas – Com estrofes de seis versos de sete sílabas, segundo a ABLC, “a modalidade mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Também muito usadas nas sátiras políticas e sociais. É uma modalidade que apresenta nada menos de cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado”. Essas variações, entretanto, dizem respeito à rima, razão pela qual não transcreverei os exemplos aqui. Mas estão todos à disposição do leitor no site da ABLC. Um exemplo da forma mais tradicional de sextilha:

Meu avô tinha um ditado
meu pai dizia também:
não tenho medo do homem
nem do ronco que ele tem
um besouro também ronca
vou olhar não é ninguém.
Setilhas – Já descrita como “obra de sete pés”:

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu.
- Quem é você, Cavalheiro -
- Moleque, sou cangaceiro -
Lampião lhe respondeu.

- Não senhor - Satanás, disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora
e já estou com vontade
de mandar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

Ainda segundo a ABLC, “esta modalidade é, também, usada em vários estilos de mourão, que pode ser cantado em seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas”. Exemplos:

Cantador A- Eu sou maior do que Deus
maior do que Deus eu sou

Cantador B - Você diz que não se engana
mas agora se enganou
Cantador A - Eu não estou enganado
eu sou maior no pecado
porque Deus nunca pecou.

Ou com todos os versos rimados, a exemplo das sextilhas explicadas antes:

Cantador A -Este verso não é seu
você tomou emprestado
Cantador B - Não reclame o verso meu
que é certo e metrificado
Cantador A -Esse verso é de Noberto
Se fosse seu estava certo
como não é está errado.
Oito pés de quadrão ou Oitavas – Estilo também já citado, feito de estrofes de oito versos de sete sílabas:

Diga Deus Onipotente
Se é você, realmente
Que autoriza, que consente
No meu sertão tanta dor
Se o povo imerso no lodo
apregoa com denodo
que seu coração é todo
De luz, de paz e de amor.

Décimas – Já apresentados aqui como”dez pés em quadrão”:
Eram doze cavalheiros
Homens muito valorosos
Destemidos, corajosos
Entre todos os Guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os doze pares de França.
Martelo Agalopado – Gênero também citado no post anterior, o Martelo agalopado, estrofe dez versos de dez sílabas, é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. Segundo o site da ABLC. “as martelianas não tinham, como o nosso martelo agalopado, compromisso com o número de versos para a composição das estrofes. Alongava-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. Como exemplo, vejamos estes alexandrinos”:

"Visitando Deus a Adão no Paraíso
achou-o triste por viver no abandono,
fê-lo dormir logo um pesado sono
e lhe arrancou uma costela, de improviso
estando fresca ficou Deus indeciso
e a pôs ao Sol para secar um momento
mas por causa, talvez dum esquecimento
chegou um cachorro e a carregou,
nessa hora furioso Deus ficou
com a grande ousadia do animal
que lhe furtara o bom material
feito para a construção da mulher,
estou certo, acredite quem quiser
eu não sou mentiroso nem vilão,
nessa hora correu Deus atrás do cão
e não podendo alcançar-lhe e dá-lhe cabo
cortou-lhe simplesmente o meio rabo
e enquanto Adão estava na trevas
Deus pegou o rabo do cão e fez a Eva."

O estilo caiu no esquecimento, com o desaparecimento do seu criador, professor Jaime Pedro Martelo, em 1727, até que em 1898, José Galdino da Silva Duda deu “à luz feição definitiva ao nosso atual martelo agalopado, tão querido quanto lindo. Pedro Bandeira não nos deixa mentir”:

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
quanto é grande o poder da Natureza.

Há, também, o martelo de seis versos:

Tenho agora um martelo de dez quinas
fabricado por mãos misteriosas
enfeitado de pedras cristalinas
das mais raras, bastante preciosas,
foi achado nas águas saturninas
pelas musas do céu, filhas ditosas.

Galope à Beira Mar
– “Com versos de onze sílabas, portanto mais longos do que os de martelo agalopado, são os de galope à beira mar, como estes da autoria de Joaquim Filho”:

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
assim é galope na beira do mar.

Meia Quadra - Outra interessante modalidade é a Meia Quadra ou versos de quinze sílabas:

Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão
Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.

Só os exemplos relacionados neste post e no anterior, já mostram o quão variadas são as formas utilizadas pela Literatura de Cordel. Mas há outras, que ainda pretendo mencionar.

Por enquanto, chamo a atenção para o fato de que a formação de cada um desses gêneros depende essencialmente do manuseio de três variáveis: o emparelhamento das rimas (do que pretendo falar em outra oportunidade), a quantidade de sílabas em cada verso e a quantidade de versos em cada estrofe.

Aqui me valho, mais uma vez, da lição de Zé Maria de Fortaleza para esclarecer que verso é cada uma das linhas de um poema, enquanto estrofe é “um grupo de versos de um trabalho poético, em geral com sentido completo” (Acorda Cordel na Sala de Aula, p. 36).

Assim, combinando quantidade de sílabas em uma linha e quantidade de linhas em uma estrofe, vimos que são usados versos de cinco sílabas em estrofes de seis, sete, oito ou dez linhas, o mesmo ocorrendo com os versos de sete, dez ou onze sílabas.

Com relação à quantidade de sílabas em um verso, as variedades mais comuns são a redondilha maior – sete sílabas – e a redondilha menor – cinco sílabas, embora a forma preferida dos cantadores seja, sem dúvida, o decassílabo (dez sílabas), utilizada no martelo agalopado, considerado por muitos o vestibular do cantador. Os versos de onze sílabas do galope à beira-mar também tem o seu charme, e dão um ritmo bem interessante na execução, seja cantada ou declamada.

Penso que o domínio da métrica é um dos aspectos mais importantes na elaboração de um cordel, pois, como diz Arievaldo Viana:

Cordel desmetrificado
Não dá pra ler em voz alta.
Tem hora que sobra métrica,
Tem hora que a rima falta,
Inda tem pesquisador
Com diploma de doutor
Que esse mau “cordel” exalta.

E não é só uma questão de respeitar a métrica, pra não deixar o cordel de “pé quebrado”. O bom cordelista, assim como o bom cantador repentista, deve ter a capacidade de elaborar sua poesia na maior variedade possível de estilos, por pelo menos dois motivos. Primeiro, para dar à poesia um ritmo adequado ao tema que está sendo tratado.

Por exemplo, a redondilha menor funciona melhor para narrativas mais rápidas, enquanto a redondilha maior permite uma abordagem mais cadenciada. Vejamos, a seguinte estrofe, de minha autoria, em redondilha menor, narrando uma situação na qual um marido traído tenta matar a mulher, no meio de uma feira, e um tenente da polícia tenta impedi-lo:

O cabra valente
Puxou a pexeira,
No meio da feira,
Gritou pro tenente:
- Não fique na frente
Que você se fura!
Essa criatura
Agora me paga.
Hoje ela se apaga
Ninguém me segura.

A mesma narração poderia ser feita em redondilha maior, mas tem-se a impressão de que tudo está acontecendo mais lentamente:

O cabra era valente
E puxou logo a peixeira
Ali, no meio de feira,
Gritou para o tenente:
- Não fique na minha frente
Ou então você se fura!
Hoje essa criatura,
O que me deve me paga
Ela agora se apaga
Ninguém aqui me segura!

O segundo motivo pelo qual é importante variar de estilo, é não cansar o leitor ou o espectador. Quando um autor sempre escreve em sextilhas, só em ver a capa do folheto, o leitor já sabe como serão os versos, e isso o desvaloriza. Se os cordéis são reunidos em um livro, a repetição de um único estilo fica ainda mais entediante. Nas apresentações em declamações e cantorias – e agora, com a proliferação de CD’s de cordel – a variação de estilos ganha ainda mais importância, pois ficaria monótono ouvir todo um CD em sextilhas ou setilhas.

Por aqui encerro este post, cujo assunto ainda está por concluir, e logo devo voltar a ele, para falar da contagem das sílabas e de outros estilos, como o “martelo perguntado”.

Veja também: A técnica de fazer cordel (1ª parte)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel

Gravura da capa do livro "Cantadores", de Leonardo Mota

A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL

Certa vez ouvi William Brito, da Academia dos Cordelistas do Crato, dizer que o cordel é uma daquelas coisas que a gente primeiro aprende a fazer e depois aprende como é que faz.

De fato, pelos tantos nomes importantes da Literatura de Cordel que tiveram pouco estudo, é possível perceber que muitos passam a vida fazendo – ou pelos começam a fazer - as poesias, sem nunca ter estudado a contagem das sílabas ou a estrutura das rimas. Essas pessoas simplesmente têm o dom da poesia, dom esse muitas vezes despertado ao ouvir as pelejas dos cantadores nos desafios, ou a declamação dos cordéis, lidos ou decorados.

Isso não quer dizer que não seja importante estudar as técnicas, pois mesmo aqueles que nasceram com o dom, ou que aprenderam a arte do versejar na prática, acabam por aprender o que é uma sétima, uma décima, ou um galope à beira-mar. Além do que, a Literatura de Cordel é extremamente exigente com a forma, somente sendo reconhecida como de boa qualidade quando atende aos requisitos de rima, métrica e oração, como bem observa Arievaldo Viana, no Acorda Cordel na Sala de Aula:

Porém, professor, cuidado!
Escute o que eu vou dizer:
Nem todo folheto serve,
Tem que saber escolher.
Observe com atenção:
MÉTRICA, RIMA e ORAÇÃO,
Todo cordel deve ter.

No mesmo livro, Zé Maria de Fortaleza, explica:
Métrica: é a medida das sílabas de cada verso, em determinado gênero.
Rima: é a correspondência entre sons, com palavras diferentes.
Oração: é a coerência, encadeamento, coordenação, precisão, objetividade e fidelidade ao tema.

Neste texto, dedicar-me-ei especificamente à métrica, deixando a rima e a oração para outros que ainda pretendo escrever.

De uma certa forma, é a métrica que define os vários gêneros de poesia utilizados pela Literatura de Cordel. Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, destaca os gêneros poéticos comumente utilizados pelos cantadores, cuja nomenclatura leva em consideração os seguintes conceitos: “obra é qualquer estrofe; pé é o verso, a linha”. Daí a denominação que se verá nos exemplos a seguir: “obra de seis, sete ou oito pés”.

Os estilos citados pelo autor são os seguintes, em cujos exemplos fiz correções na escrita, pois sou partidário do uso correto do vernáculo na Literatura de Cordel.

Obra de seis pés:

Agora vem-me à lembrança
Os passos do meu sertão
Pomba de bando, asa branca
Marreca, socó, carão,
Também pássaro pombinha
Arara e currupião.


Obra de sete pés:

Uma Carta de ABC
E uma velha Tabuada,
Um punhado de cordéis
Numa maleta encantada,
Me deram luz do saber.
Ali eu pude aprender
Até a História Sagrada.


Obra de oito pés

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.


Moirão de cinco pés:

Vamos cantar o moirão
Prestando toda atenção
Que o moirão bem estudado
É obra que faz agrado
E causa satisfação.


Moirão de sete (que é uma obra de sete pés):

Vamos cantar o moirão
Para o povo apreciar
Me diga logo o assunto
Em que nós vamos cantar
Meu colega, dê começo,
Que eu apenas me ofereço
Só mesmo pra acompanhar.


O martelo com versos de cinco sílabas, chamado de “embolada”:

Sou cobra de veado
Esturro de leão
Fiz pauta com o cão
Mato envenenado,
Sou desembaraçado,
Eu estruo gente,
Sou que nem serpente,
Rifle carregado,
Cantador lesado
Mato de repente.


O martelo com versos de sete sílabas, chamado “dez pés em quadrão”:

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio
Devido eu ser muito feio
As moças não me queriam
Quando prum forró eu ia
Com qualquer colega meu
Eles confiavam n’eu
Iam beber e brincar
No fim da fest’ia arengar,
Quem ia preso era eu.


O martelo com versos de dez sílabas, chamado “gabinete” ou "martelo agalopado". Neste, preferi usar uma estrofe minha como exemplo, do cordel "O viajante e o sábio":

Digo, ainda, com toda segurança,
Não se guarda a luz acesa num armário
Não se ensina padre nosso a vigário
A prudência é irmã da desconfiança
Não aceite o peso de qualquer balança
Pois nem todo rezador merece fé
Muita coisa parece mas não é
Muita coisa que é não se parece
Sob as vistas do dono a planta cresce
Um sapato não dá em qualquer pé.

Obra de nove por seis, estrofes de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas, os três restantes – o segundo, o quinto e o oitavo – têm três:

Querendo mudar agora
Sem demora
Noutra obra eu pego e vou!
O que eu quero é que tu digas
Que em cantigas
Eu sou formado doutor!
Vamos mudar de toada,
Camarada,
Quero ver se és cantador...


A ligeira, quadra bipartida, de versos de sete sílabas, com a rima obrigatória em “á” e precedida do refrão “Ai, d-a-dá”:

Ai d-a-dá
Colega, pinique a polda
Se quiser me acompanhar
Ai!
Essa minha bola velha
Quanto eu mais puxo mais dá...


O quadrão:

Meu povo preste atenção
Agora é que eu vou cantar
Eu vou te dar um ensino...
Eu é que vou te aquietar...

O galope que, segundo o autor, é uma sextilha de decassílabos. Mas deve ter havido algum engano ou erro gráfico, pois sabe-se que o galope é sempre em versos de onze sílabas, como ocorre com o “galope à beira-mar”, cujos versos são de onze sílabas, só que em estrofes de dez versos. Aliás, o exemplo oferecido por Leonardo Mota é em onze sílabas, pelo menos nas quatro primeiras linhas:

Josué, o que é isso? Amansa, mano,
Que eu creio numa coisa é quando vejo...
Uma onça para mim é uma pulga,
Um tubarão pra mim é um percevejo,
E um tiro de rifle é caçoada,
É merenda de vim, de doce e queijo...

Veja mais em: