terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cordel, repente e Direito

Antonio Francisco, Marcos Mairton, Gustavo Luz, Ivanildo Vilanova, Zé Luís e esse rapaz, de azul, que não estou lembrando o nome, bem que poderia mandar um email para eu completar a informação.

DIREITO, CORDEL, REPENTE E UM DESAFIO AO CONTRÁRIO

Desde que se referiram ao meu cordel “O ADVOGADO, O DIABO E A BENGALA ENCANTADA” como sendo de autoria de um juiz do Rio Grande do Norte, sem sequer mencionar meu nome, nem o fato de eu ser poeta, fiquei meio ressabiado em publicar poesias tratando de assuntos jurídicos.
Mas hoje não dá pra evitar. Depois de receber uma visita do grande Zé Luís, um verdadeiro repentista da advocacia – ou um advogado do repente – não há como não misturar as ciências jurídicas e poéticas.
Por exemplo, olha como é que Zé Luís abre o livro MEDIDAS LIMINARES NO PROCESSO CIVIL, escrito em parceria com José Herval Sampaio Júnior:

Realçou Carnelluti o quanto importa
Ver que o tempo é danoso e temerário
Impedindo o Poder Judiciário
De atender os que vão à sua porta;
A Sentença, ao surgir, é natimorta,
O Processo se torna ineficaz...
Rui Barbosa, um dos mestres geniais,
Já dizia ao Brasil antigamente:
“A Justiça tardia é simplesmente
Rematada injustiça e nada mais!”

Precisamos levar Direito aos lares,
Melhorando a Justiça da República
Com Ação Popular, a Civil Pública,
Liminar nas Medidas Cautelares;
Porque são as Medidas Liminares
Supressão do efeito temporal;
Na Tutela Específica, Interdital,
No Writ, afinal, em todos esses,
Solução dos conflitos de interesses,
Recompondo o tecido social!

Mesmo humilde, esta obra traz em si
Carlos Mário Veloso, mas Cretella,
J. J. Calmon, Scarpinella,
Celso Antonio Bandeira e Teori;
Theodoro, Rangel, Buzaid, Hely,
Nelson Nery e Marcato, outra potência;
Castro Nunes, sublime inteligência;
Encontra-se, leitor, no livro inteiro,
O melhor do Processo Brasileiro
Dissecando as Tutelas de Urgência!

Quando foi me entregar o meu exemplar, Zé Luís, que tinha acabado de ler o meu livro UMA SENTENÇA, UMA AVENTURA E UMA VERGONHA, fez a dedicatória em forma de decassílabo, nela fazendo referência a várias das poesias que escrevi. Ficou assim:

Parabéns a você, poeta nato,
Que em sonhos, ouviu, entre outros nomes,
Aderaldo, Martins, Leandro Gomes,
Lhe instigando a cantar pétala e regato;
A sentença do estelionato;
O galope, um trabalho muito bom;
Ofereço a você, que nasceu com
Força, garra, talento, luz e fé,
Ser Juiz Federal, qualquer um é,
Ser poeta, só é quem trouxe o dom...

Hoje, Zé Luís me apareceu com glosas ao mote DE DIA É SENTENCIANDO/ DE NOITE É NO VIOLÃO. Sem pedir sua licença, amigo Zé Luís, vou apresentar suas glosas intercaladas com as minhas, sobre o mote DE DIA É ADVOGANDO/ E DE NOITE É NO REPENTE, como se fosse um desafio. Mas é um desafio ao contrário, pois, ao invés de se depreciarem, os contendores não economizam elogios mútuos:

ZÉ LUÍS:
A Consulex publica:
No agravo houve reforma!
Abre o Código, estuda a norma,
Lê, interpreta e aplica;
O Tribunal notifica
Pra prestar informação,
Saber se é verdade ou não
O que as partes tão falando
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Repentista de talento,
Advogado renomado,
Convence qualquer jurado,
Rebate qualquer argumento.
Zé Luís é cem por cento,
Criativo, inteligente,
Não vejo quem o enfrente
Na tribuna ou cantando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Sei que Mairton é aquele
Que supera grandes nomes
Só João e Leandro Gomes
Foram tão bons quanto ele.
Tem outro do nível dele:
É Catulo da Paixão,
Fernando Pessoa, não,
Ele é melhor que Fernando...
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Zé Luís só exagera
Quando elogia um amigo
Por isso, canta comigo,
Me dizendo que eu sou fera.
Mas, meu Deus, ai quem me dera,
Saber lhe imitar, somente,
Eu já fico bem contente
Só de lhe ouvir cantando,
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Mairton é quem veste a toga
Com calma e percuciência
Despacha, faz audiência
Cita o réu e lhe interroga;
Condena o Barão da droga,
Recebe a apelação,
Faz e revoga a prisão,
Prendendo gente e soltando
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Certa vez, vi Zé Luís,
Enfrentando dura prova
Com Ivanildo Vilanova
Cantador de quem se diz
Ser o maior do país.
Mas, naquele dia quente,
Ficou do tamanho da gente
E o Zé se agigantando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

ZÉ LUÍS:
Se são tráficos estrangeiros
Ele adverte aos agentes:
“- Descreva os entorpecentes.
As lavagens de dinheiro,
Os nomes dos quadrilheiros,
A rota que as drogas vão,
Detalhe a operação:
Como, quem, aonde e quando...
DE DIA É SENTENCIANDO,
DE NOITE É NO VIOLÃO.

MARCOS MAIRTON:
Zé Luís faz petição,
Faz sustentação oral,
Faz recurso especial
Agravo e apelação.
Sua fundamentação,
Desmantela o oponente.
Quem estiver pela frente
É bom ir se preparando
DE DIA É ADVOGANDO
E DE NOITE É NO REPENTE.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Literatura de cordel e educação



LITERATURA DE CORDEL PARA CRIANÇAS

Terminou ontem a FEIRA DO LIVRO DE MOSSORÓ, versão 2007. Lá estive no sábado (27) à noite e gostei do movimento. Muita gente visitando as lojas e no Circo da Luz também.
Demorei especialmente no stand da Editora Queima Bucha, conversando com meu amigo Gustavo Luz sobre o mundo da literatura de cordel. Saí com uma sacola cheia de cordéis, desde clássicos, como A PELEJA DE RIACHÃO COM O DIABO e a HISTÓRIA DE JUVENAL E O DRAGÃO, de Leandro Gomes de Barros, a obras mais recentes, como PAULO, O FARISEU QUE VIROU CRISTÃO e A HISTÓRIA DO COMEÇO DO MUNDO – A TEORIA DO BIG BENG, de Fernando Paixão, aliás, ambos de ótima qualidade em rima, métrica e oração. Cabra bom esse Fernando Paixão!
Mas de tudo o que vi, chamou-me particularmente a atenção a edição de cordéis voltados para o público infantil, publicados pela
Editora IMEPH, de Fortaleza. Com linguagem simples, métrica e rima perfeitas, e gramática correta, os livros ainda vêm com ilustrações muito bem trabalhadas. As obras que vi são as seguintes, e as capas estão na imagem acima:
A SEMENTE DA VERDADE: adaptação do conhecido conto de mesmo título, escrita por Fernando Paixão, com ilustrações de Arlene Holanda;
O PAVÃO MISTERIOSO: adaptação do romance de cordel de José Camelo, escrita por Arievaldo Viana, com ilustrações de Jô Oliveira.
UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ: de Rouxinol do Rinaré, com ilustrações de Rafael Limaverde.
É muito bom ver o cordel sendo utilizado na educação das crianças, sem falar que elas adoram e se divertem muito com a leitura.
Parabéns a todos que vêm apoiando essas iniciativas!
Segue um trecho de

UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ

Vento que sopra do mar
Enquanto a tarde desmaia
Vem contar-me a antiga lenda
Que corre da serra à praia
A Lenda do Ceará
“Terra onde canta a Jandaia”.

Dizem que há muito tempo
No mais distante passado
Onde hoje é o Ceará
O nosso querido Estado
Era um chão virgem, somente
Por nativos habitado.

Nossos índios eram livres,
Dos litorais às ribeiras,
Nos sertões e altas serras
Viviam tribos guerreiras
E as Jandaias cantavam
Pelas copas das palmeiras.

Até que um dia homens maus
Chegaram aqui pelo mar,
Vindos de outras nações
Para esta terra explorar
E pela força e astúcia
Puderam, enfim, dominar.

Nossos índios reagiram
Aos tais colonizadores,
Uns morreram, outros fizeram
Acordo com os invasores...
Pois os vencidos se tornam
Escravos dos vencedores!

Num tempo ainda distante,
Mas já próximo do presente,
Quando com a posse das terras
Ficou o branco somente,
No litoral tinha ainda
Uma tribo remanescente.

E nessa tribo um costume
Ainda era preservado
Sentava-se um Pajé velho
Por curumins rodeado
Junto à fogueira e contava
As histórias do passado.

E assim segue a história, contando a lenda que retrata a história daquela tribo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poesia popular e estrangeirismo



ESTRANGEIRISMO


Pra fechar a semana, esse intressante vídeo, de Carlos Silva e Sandra Regina, que peguei do Yahoo! Vídeo.

Para saber mais sobre os autores, veja http://www.sacpaixao.net/visualizar.php?idt=644022.

Bom fim de semana!

ou Have a nice weekend!


quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O Poeta do Absurdo na Literatura de Cordel


TAPIOCA RECHEADA COM POESIA DE CORDEL

Deslocando-me de Mossoró para Fortaleza, parei pertinho da capital cearense - já na parte onde a CE-040 se confunde com a Avenida Washington Soares - para comer uma tapioca com chocolate quente. Geralmente, toma-se a tapioca com café, mas não gosto de café.
Cheguei já pensando na tapioca recheada com queijo e ovo, mas, na entrada do estabelecimento, outro recheio completou o repasto: o cordel “A PELEJA DE ZÉ DO JATI COM ZÉ LIMEIRA”, de Anchieta Dantas, o “Zé do Jati”, conhecido personagem do Programa Garras da Patrulha, da TV Diário, de Fortaleza.

Pra quem não conhece, Jati é uma pequena cidade situada bem no sul do Ceará, quase na divisa com os Estados de Pernambuco e da Paraíba, onde no passado mandavam os índios Kariris.


Já tive oportunidade de incluir Jati em meus versos, quando falei da chegada da Justiça Federal ao Cariri:

Pois a Vara Federal,
Instalada em Juazeiro,
Cidade de muita fé,
Que acolhe tanto romeiro,
Tem sua jurisdição
Começando no sertão
E subindo pelas serras,
Até chegar a um lugar
De onde dá pra olhar
Pernambuco e suas terras.

Começando seu alcance
Nas terras do centro-sul,
A partir de Acopiara,
Passando por Iguatu,
Se estende até Mauriti,
De Brejo Santo a Jati,
Alargando suas fronteiras
Baixio, Ipaumirim,
Farias Brito e Jardim,
Campos Sales e Porteiras.

Sobre o Zé do Jati, disse a jornalista Lea Queiroz, “é autor dos livros NÓS E A METRÓPOLE, O PASSAGEIRO DO TEMPO e RANCHO NOVA ESPERANÇA. Diz a JORNALISTA ISABEL PINHEIRO, que acompanha seus feitos literários há 20 anos, trata-se de uma obra literária que desperta a atenção e mexe com as emoções mais escondidas”.

Para saber mais sobre Zé Limeira, visite http://www.revista.agulha.nom.br/otejo.html .

Segue um trecho da “peleja”:

ZÉ LIMEIRA
Getúlio Vargas morreu
Foi com saudade da esposa
Lampião inda tá vivo
Morando perto de Sousa
Por detrás do Sete-Estrelo
Tem um casal de raposa.

ZÉ DO JATI
Foram amigos e compadres
Julio César de Lampião
E sócios em uma fábrica
De chocolate e sabão
E um dia de madrugada
Ficaram sem fazer nada
Numa noite de São João.

ZÉ LIMEIRA
Santo Antonio foi pescar
Mussú no rio Jordão
Quando jogou o anzol
Arrastou um camião
Deu-lhe uma caimbra no pé
Nisso passou São José
Com três abrroba de pão.

ZÉ DO JATI
Nelson Piquet comprovou
Que é um grande vaqueiro
São Tomé já fez promessa
Pra pagar no Juazeiro
E São José numa vã
Faz lotação de manhã
De Cabrobó a Salgueiro.

ZÉ LIMEIRA
Jesus ia rezar missa
Na capela de Belém
Chegou Judas Carioca
Que viajava de trem
Trazia trinta macaco
Botou tudo num buraco
Não tinham nenhum vintém.

ZÉ DO JATI
Jesus nasceu em Belém
Pertinho de Cabrobó
Quando passou Jati
Já era “quage” de maió
Passou dirigindo um jipe
Com febre e com muita gripe
Em busca de Mossoró.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Rap e repente


ENCONTRO DE RAPPERS E REPENTISTAS

Chegou às minhas mãos hoje, por obra do meu amigo Eduardo Moreira, o folder informativo do RAP-REP, I ENCONTRO NACIONAL DE RAPPERS E REPENTISTAS, marcado para os dias 26 a 28 de outubro deste ano de 2007.
Achei a idéia muito interessante. Afinal, embora haja diferenças quanto à forma, em ambas as manifestações estão presentes a improvisação e a temática popular.
Os interessados eM maiores informações podem clicar no link
Rap Rep - Encontro Nacional de Rappers e Repentistas.
Segue um trecho do site do evento:

Rap & Rep

Os beats do hip-hop se encontram com os motes da cantoria entre os dias 26 a 28 de outubro, em Campina Grande, na Paraíba. Conhecida pelo Maior São João do Mundo e pelo internacional Encontro Para Nova Consciência, Campina, a 120 km da capital João Pessoa, irá sediar o I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas, que ganhou o apelido de 'Rap & Rep'.O evento, o primeiro do gênero no país, é promovido pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Governo da Paraíba, por meio da Subsecretaria de Cultura do Estado e com apoio cultural da Petrobras.Em quatro dias, estarão em Campina Grande, no Spazzio, nomes importantes do universo do hip-hop, como Zé Brow, Nelso Triunfo, Marechal, Z`Africa Brasil, Gabriel O Pensador e Gog, e da cultura popular, como Oliveira de Panelas, Cajú e castanha, Cabruêra, Selma do Côco e As 'Ceguinhas' de Campina (as irmãs protagonistas de 'A Pessoa É Para o Que Nasce'), entre tantos outros.A idéia do I Rap & Rep é mostrar que gêneros aparentemente tão distintos têm muito mais em comum do que nós pensamos. Assim a rima e a poesia, a dança de rua, a discotecagem e o graffiti irão coexistir junto com a embola, o cordel e o próprio repente.Tudo isso em meio a uma grande feira de música e informação, com shows, oficinas e debates, com acesso gratuito ao público.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cordel e índios (William Brito)


OS ÍNDIOS BRASILEIROS NO CORDEL DE WILLIAM BRITO

Um amigo perguntou se eu tinha algum cordel sobre índios brasileiros. Fui buscar em meu pequeno acervo e achei três: TRATADO DE PAZ (entre os reis Ca nindé e de Portugal), de Gerardo Carvalho, o Pardal; IRACEMA (a virgem dos lábios de mel), de João Martins de Athayde; e A SAGA DOS ÍNDIOS BRASILEIROS, de William Brito, o homem que ocupa a cadeira número um da Academia dos Cordelistas do Crato, que escolhi para transcrever neste post.
O folheto, de 2002, que atendeu a um pedido do Ministério Público Federal no Ceará, e contou com o apoio do IPHAN, FUNAI, CNBB, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Governo do Ceará e dos Índios Cearenses, começa com uma apresentação, de Josenir Alves de Lacerda, que traduz bem o sentimento que nos invade, quando o lemos. Diz Lacerda:

“Neste trabalho: A Saga dos Índios Brasileiros, o poeta William Brito faz do Cordel um portal e o abre com a chave mágica da inspiração, deixando que o leitor veja e vivencie o desenrolar dos fatos. Apesar do enredo ser entremeado de luta, traição, injustiça, exploração, perseguição e desamor aos nossos irmãos indígenas, devemos ler como quem sorve bebida de apurado sabor e que no lugar de embriagar, desperta e aguça sentimentos de brasilidade e compromisso para com os nossos ancestrais, cujo sangue quente, forte e guerreiro carregamos nas veias e teimamos em esquecer ou ignorar. Mais uma vez o poeta não poupa talento e mostra as diversas facetas e propostas do cordel como veículo de denúncia, didática, esclarecimento, conscientização. Enquanto houver mente aberta e consciente como a do poeta William, com coragem de expor páginas tão cruéis e injustas, haverá a certeza dde que alguma luz ainda brilha no horizonte da nossa história acenando com uma réstia de esperança”.


A SAGA DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

Sonhei com Tupã pedindo
Pra minha arte dispor
A serviço dos indígenas
E um folheto compor
Mostrando ao longo da história
A penosa trajetória
De humilhação e dor.

Me dispus porque carrego
Herança dos Kariri,
Sou mestiço como muitos
Que adoram roer piqui,
Acham a natureza jóia,
Se esbaldam num tipóia
Babam por mel de jati.

Me ensinaram no ginásio
Que somente há 10.000 anos
Quando o planeta esfriou
Os mongóis tomaram o plano
Do mar congelado usar
E da Ásia se mudar
Pro espaço americano.

E da América do Norte
Desceram para a Central,
Continuaram pro Sul
Fugindo do frio austral
E aqui se deram bem
Que era terra de ninguém
Rica em planta e animal.

Mas a arqueologia
Desmentiu esta versão,
Nas terras do Piauí,
No miolo do sertão,
Em São Raimundo Nonato
Tem vestígio de artefato
Que ensina outra lição.

Há mais de 30.000 anos
Já vivia no Brasil,
Um povo forte, trigueiro,
Gregário, simples, viril,
Adaptado à natura,
Desenvolvendo cultura
Debaixo do céu anil.

Em muitos pontos se encontra
Do nosso vasto Nordeste,
Vestígios dos ancestrais,
Na mata, sertão, agreste,
Eles não se aquietavam,
No território migravam
Fugindo de fome e peste.

Com muito esforço esse povo
Que era esperto e curioso,
Pesquisou a flora e a fauna
Com um resultado assombroso
Separando o que convinha
A comida e a “meizinha”
Do que era venenoso.

Ao longo do tempo o povo
No Brasil foi se espalhando
E em razão do ambiente
Aos poucos se transformando
Formando várias culturas,
Esquecendo a essa altura
O parentesco e brigando.

Lutava-se por comida,
Por coisas essenciais,
Não por ouro, pedrarias,
Ou por outros vis metais;
Se brigava, isso é notório,
Pelo santo território,
Como brigam os animais.

Pois bem, no século XV,
Em pleno mercantilismo,
Os europeus expandiram
O seu colonialismo.
Colombo, Pinzón, Cabral,
Tornaram a aldeia “global”
Fomentaram o consumismo.

Espanhóis e Lusitanos,
Bem antes da invasão,
Dividiram as Américas,
Depois de grande questão;
Pra guerra faltou um triz
E quem serviu de juiz
Foi o papado cristão.

Os nativos receberam
O povo vindo do mar,
Com boa disposição
Foram confraternizar
Depois se viram traídos,
Explorados, perseguidos,
Obrigados a arribar.

Cerca de 5 milhões
De índios tinha o Brasil,
E etnias, sabe Deus,
Talvez passasse de mil,
O terrível, o que eu lamento,
É não restar 10%
Dessa gente varonil.

Martins Soares Moreno,
Chegando no Ceará,
22 povos achou;
e hoje, quantos haverá?
Segundo doutor Pinheiro,
Só tem 11 companheiro,
Até onde a ciosa irá?

Os europeus cá vieram
Somente atrás da riqueza
Carregaram o pau-brasil,
Depredaram a natureza
Com fogo, foice e machado,
Trouxeram a cana e o gado,
Comprometeram a beleza.

Trouxeram ainda ao Brasil
A mancha da escravidão,
Africanos e ameríndios
Padeceram de aflição
De virar mercadoria.
Haverá selvageria
Acaso igual, cidadão?

Os tupis do litoral
Sofreram primeiramente
E os tapuias do sertão
Padeceram mais na frente,
Espanhóis ou Holandeses,
Lusitanos ou Franceses
Não agiam diferente.

Pra eles índios e negros,
Não tinham dignidade,
Se pareciam com gente
Mas não eram, de verdade.
Eram simples animais
Como o gado dos currais,
Sem direito nem piedade.

O tal Marquês de Pombal
Proibiu língua nativa,
Todos tinham de falar
Aquela língua aflitiva
Do malsinado invasor,
Muitos inda tem pavor
Da língua coercitiva.

E a medicina da terra,
Conhecida do pajé,
Foi vetada para os índios
Como também sua fé;
Quem não virasse cristão
Comprava grande questão
Com a forte Santa Sé.

As terras foram tomadas
Pelo gado e pela cana
E os índios missionados
Em Caucaia e Messejana,
Viçosa, Almofala, Crato
E Parangaba é o relato
De uma sina desumana.

À custa de muito sangue,
Deu-se a colonização,
Os nativos se uniram
Numa Confederação
Para enfrentar o invasor,
Mas, mesmo com seu penhor
Perderam a conflagração.

E quem ganhou a contenda
Fez a versão da história,
Fez-se o mocinho do filme,
Cobriu-se de honra e glória,
E o perdedor sem direito
Ficou cheio de defeito
E privado de memória.

Guerra química e biológica
Para os índios foi fatal,
Eles não tinham defesa
Contra vírus, coisa e tal;
E até bem pouco uns ladinos
Queimaram o índio Galdino
No Distrito Federal.

Na festa em Porto Seguro
Que lembrou a invasão,
Os índios foram excluídos
Sem direito a expressão
E todos que protestaram
Dos polícias apanharam
Sem dó e nem compaixão.

Mas pega a coisa a mudar
Na nossa sociedade
Os índios já se organizam
Reforçando a identidade,
E sua luta é tamanha
Que foi tema de campanha
Dita da fraternidade.

Somos um povo mestiço
Não temos o que negar,
Mas a discriminação
Teima em nos acompanhar,
Deixemos de preconceito,
Vamos todos dar um jeito
De nos unir, nos amar.

Vamos vencer o apartheid
Econômico e social,
Acabar com a exclusão
Criminosa e imoral
Ultrapassar a mazela
Que separa a favela
Condomínio colossal.

Honremos no Ceará
Kariris e Cariús,
Calabaças, Potiguares,
Quixelôs e Pacajús,
Kanindés e Tabajaras,
Tremembés, Jaguaribaras,
Jucases, Tacarijús.

Que as novas gerações
Protejam os Tremembés,
Pitaguarys e Tapebas,
Jenipapos, Kanindés,
E que nunca falte abrigo
Pra memória dos antigos
Como os grandes Anacés.

Que o Brasil respeito o índio
Como etnia ancestral.
Genética e culturalmente
Basilar, essencial,
Respeite a diversidade
Que faz nossa identidade
Ser mais rica, mais plural.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Poesia de cordel e Música Popular Brasileira

CORDEL PARA SE CANTAR

No post anterior, falei do cordel ME ENGANEI COM MINHA NOIVA, de Luiz Campos, e de sua gravação no CD de Genildo Costa.
Isso me fez lembrar de inúmeros exemplos de músicas que utilizam os versos de cordel em sua letra. O próprio Genildo gravou músicas como MEU BRASIL DE CANTO A CANTO, com letra de Antonio Francisco, em “dez pés em quadrão”, e BAIXO ASSU, de Crispiniano Neto, um espetáculo de martelo agalopado.
O martelo agalopado é encontrado também na voz de Elba Ramalho, quando gravou os versos de Ivanildo Vilanova, IMAGINE O BRASIL SER DIVIDIDO/ E O NORDESTE FICAR INDEPENDENTE, e na voz de Zé Ramalho e Amelinha em MULHER NOVA BONITA E CARINHOSA/ FAZ UM HOMEM GEMER SEM SENTIR DOR.
De patativa do Assaré, Luiz Gonzaga gravou A TRISTE PARTIDA, e Fagner gravou VACA ESTRELA E BOI FUBÁ.
Se você lembra de mais alguma música feita a partir de versos de cordel, envie um comentário, para que outros tenham acesso.
Encerro com um “galope à beira mar” de Antonio Francisco:

NA BEIRA DO MAR
Antonio Francisco e Mazinho
Na beira do mar, um pouco apressado,
O tênis esquerdo caiu do meu pé.
Parei pra calçá-lo, aí eu dei fé
Das coisas que antes não tinha notado;
O meu coração bateu apressado,
Pedindo a mim mesmo pra me perdoar
Por não ter parado nunca pra olhar
As coisas que tem no mar pra se ver,
Não fiz outra coisa somente escrever
As coisas que tem na beira do mar.

Na beira do mar tem fonte que chora,
Dunas de areias com ventos uivantes,
Marés ritmadas com ondas gigantes,
Coqueiros, palmeiras que formam a flora...
Tem peixe que pula da água pra fora,
Tem outros que sabem até mesmo voar,
Golfinhos que dão cambalhotas no ar,
Na crista da onda, quando ela se agita,
Tem vento que canta, gaivota que grita,
Brincando de tique na beira do mar.

Na beira do mar eu parei um segundo
Para observar um grande coqueiro,
Mas parecia um velho guerreiro
Em fim de carreira cansado e corcundo:
Raízes de fora, quase moribundo,
Pedindo pro vento vir lhe derrubar,
Que antes a morte do que recordar
Que toda a sua vida, suaves marés
Vinham de manhã lamber os seus pés,
Com a língua gelada da boca do mar.

Na beira do mar, um pouco sisudo,
Chapéu na cabeça, cobrindo o semblante,
E me perguntando qual fabricante
Que se lembrou de fazer isso tudo?
Qual engenheiro que tem tanto estudo?
A cabeça fervia de tanto pensar.
Mas disse-me o vento, no seu linguajar:
Esfria a cabeça e tira o chapéu,
Quem fez isso tudo reside no céu...
Só deixou as pegadas na beira do mar.