quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Cordel e Doutorado



"O ADVOGADO, O DIABO E A BENGALA ENCANTADA" estudado em tese de doutorado


Tive uma surpresa agradável neste carnaval. Estava vasculhando a Web quando descobri que meu cordel "O advogado, o diabo e a bengala encantada" foi um dos analisados pelo Professor ANTONIO CARLOS FERREIRA LIMA em sua tese de doutoramento em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Alagoas.

Esse cordel é danado: primeiro foram os estudantes da UNIFOR que o transformaram em radionovela. Agora tornou-se objeto de estudos em nível de doutorado, o que me enche mais uma vez de orgulho e alegria.

Bem, o trabalho tem como título “A permanência do ciclo místico-religioso na literatura de cordel e suas correlações com os níveis de construção textual”, e tira suas conclusões a partir da análise de obras da literatura de cordel, relacionando-as com as sagradas escrituras e a religiosidade do nosso povo. Não conheço o Professor Antonio Carlos, mas desde já agradeço suas generosas palavras a respeito de minha obra. Segue, abaixo, trecho que a aborda. Pus "(...)" onde há transcrições do texto do cordel:


Nossa última poesia desse ciclo reúne vários elementos referidos acima. Em “O advogado, o diabo e a bengala encantada”, de Marcos Mairton da Silva, em folheto de dezesseis páginas, composto por cinquenta e sete setilhas setessilábicas, com rimas ABCBDDB, temos um diabo à procura de ajuda e compreensão. Insatisfeito por ter sido expulso do céu e se sentindo injustiçado, o diabo procura um advogado para tentar “melhorar sua imagem”, em troca promete-lhe fama e riqueza: (...).
A poesia de Mairton é duplamente surpreendente: primeiro, porque mostra uma faceta do diabo dificilmente encontrada na LC, pois, nunca se viu um diabo buscando reabilitação e justificando sua ação na terra. Porém, o que mais se destaca, é ódio por ter sido banido da corte celestial; segundo, pelo forte teor teológico, ao discorrer sobre temas delicados como “pecado” e “tentação” e ao dialogar com alguns textos bíblicos, tais como a primeira carta do apóstolo João (I Jo), o Apocalipse (Ap) e o livro do profeta Ezequiel (Ez).
Em I Jo. 3, 9 lemos: “Quem comete pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo”. O pecado do diabo foi ter desafiado o criador, “a intriga” e a “briga com o dono do céu” foi, de acordo com os textos canônicos, fruto do desejo de ser maior que Deus, de tomar-lhe o poder e de ser o centro da criação. Percebemos na narrativa poética quão bem o poeta se apropria do texto bíblico, para, numa releitura criativa, colocar a questão da queda do diabo na oposição a Deus, devido à inveja, pois Deus criara um paraíso para colocar neles seres humanos e não um “anjo tão preparado” quanto se imaginava Lúcifer. No livro do profeta Ezequiel, encontra-se parte da justificativa do diabo para contender com Deus pela primazia na terra: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou a iniquidade (Ez.28,15)”, ou, como escreveu o poeta acima “Ele me criou perfeito”.
O que causou a queda de Satanás? Na Bíblia encontramos algumas respostas no livro de profeta Ezequiel (28,17): “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei [...]”; e, no livro do profeta Isaías também encontramos outr explicação para queda:
Como caíste do céu, ó estrela da amnhã, filha da alva! Como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14, 12-14).
A soberba e a inveja levam os anjos, anteriormente perfeitos, a serem lançados na terra. Uma vez nela, sua função seria – como traduz o poeta – “incentivar os homens a se enterrar em seu próprio lamaçal”, ou seja, viverem uma vida de pecados, afastados de seu criador. A maneira pela qual Satanás intervém nos destinos da humanidade é chamada na Bíblia de tentação, e o protótipo da tentação demoníaca pode ser lido no Evangelho de Mateus (Mt 4,1), quando Jesus é levado em espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo, que lhe faz doois pedidos para que prove ser o filho de Deus (transformar pedras em pães e se lançar do ponto mais alto do templo), no que é prontamente repreendido (“não só de pão vive o homem” e “não tentarás o senhor teu Deus”). Além da oferta de glória e riquezas, em troca de adoração, que é também rechaçada com veemência (Mt 4,10): “Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”. Essa última oferta – poder e riquezas – vai aparecer como modelo de tática demoníaca ao longo da história, para subverter os caminhos do homem espiritual, cuja imersão no mundo dos prazeres materiais, que o dinheiro proporciona, se afastá-lo-ia cada vez mais dos caminhos que levam a Deus. Quando o diabo pede ao advogado que melhore sua imagem, pois já está cansado de ser “tão caluniado”, o que oferece em troca é justamente fama e riqueza para realizar os sonhos do homem comum: (...).
Todo o restante da poesia vai tratar das consequências desse pacto frustrado. Ao não aceitar a proposta do diabo, e ainda humilhá-lo, perdoando-o por não ter dinheiro para dividir a conta, tem início um duelo que culimna com a intervenção mágica do “padrinho Pe. Cícero”, que empresta seu bastão encantado (espécie de varinha de condão ou Excalibur), pondo fim ao combate, com a derrota do príncipe das trevas e de sua legião de demônios, e a consequente exaltação do advogado farrista, que pede àqueles que duvidarem da história que ‘liguem pro cão’ e confirmem a veracidade da mesma: (...).
Acreditamos que a variedade temática das poesias acima são suficientes para situar a abrangência do ciclo temático místico religioso da LC. Entretanto, não pretendemos, com o corpus apresentado, limitar ou esgotar a possibilidade de variações – que são incontáveis – dentro de um mesmo tema, já que o cordel se desenvolve em sintonia com o desenvolvimento da sociedade, traduzindo valores culturais e autalizando os anseios dos homens e mulheres de uma região nas diversas áreas da existência. E a fé, com todas as implicações que dela decorrem, faz parte desse universo atemporal, cantado na poesia de cordel, atingindo seu ápice nas poesias dedicadas aos queridos santos da devoção popular do Nordeste do país: Antonio Conselheiro, Pe. Cícero Romão Batista, Frei Damião de Bozzano e a Virgem das Dores.

(páginas 89 e seguintes).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cordel e Língua Portuguesa

(peguei a imagem em http://blogdofavre.ig.com.br/2008/09/nova-ortografia-da-lingua-portuguesa/)
ALGUNS VERSOS SOBRE
O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA


Semana passada estive em Recife, participando de um curso sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. No final, tinha que fazer um paper sobre o tema. Achei mais interessante fazer uns versos sobre o assunto.


O ACORDO ORTOGRÁFICO E AS MUDANÇAS NO PORTUGUÊS DO BRASIL

Com licença, meus amigos,
Quero falar com vocês
Sobre o que estão fazendo
Com o nosso português.
Eu não sei se é bom ou mau
Mas, Brasil e Portugal
Assinaram um tratado
Pra que em nossa ortografia,
Que é diferente hoje em dia,
Seja tudo unificado.

Moçambique, Cabo Verde,
Angola e Guiné-Bissau
Assinaram o acordo
Com Brasil e Portugal.
O Timor Leste também
Embarcou no mesmo trem
E andaram me dizendo
Que entrou até São Tomé,
Mas este, sendo quem é,
Eu só acredito vendo.

Eu sei é que para nós,
Do português-brasileiro,
O acordo entrou em vigor
A primeiro de janeiro.
E agora não tem jeito,
Reclamando ou satisfeito,
O que é preciso fazer
É estudar a reforma
Para conhecer a forma
Que nós temos que escrever.

Eu já soube, por exemplo,
Que acabaram com o trema
E, aliás, quanto a isso,
Não vejo o menor problema.
Pois pronunciar “frequência”,
“tranquilidade”, “sequência”
e até “ambiguidade”,
A gente foi aprendendo
Ouvindo e depois dizendo
Através da oralidade.

O “k”, o “y” e “w”
Entraram no alfabeto.
E quanto a isso eu achei
Que o acordo foi correto
Pois já tinha muita gente
Com nome bem diferente
No sertão do Ceará:
O Yuri e o Sidney,
Franklyn, Kelly e Helvesley,
Já usam essas letras lá.

Mais complicado é o hífen
Que ora tem, ora não.
Parece que há uma regra
Pra cada situação.
Em muitas ele caiu
Mas em algumas surgiu.
E, como a coisa complica,
Já falam em reunir
Mais gente pra discutir
Quando sai e quando fica.

Mas, parece que os problemas
Que vão incomodar mais
Vêm com a queda dos acentos
Ditos diferenciais.
Pólo, pêra, pêlo e pára
Ficam com a mesma cara
Pra sentidos diferentes.
Mas, de acordo com reforma,
“pôde”, “pôr”, “dêmos” e “forma”
São exceções existentes.

Tem muitas outras mudanças
Que ainda temos que estudar.
Permitam-me um conselho
Que agora quero lhes dar:
É bom ficar bem atentos
Para essa queda de acentos
Na escrita brasileira.
E quando for se sentar
Cuide pra ninguém tirar
O assento da cadeira.

Já chega de falar tanto
Sobre a língua portuguesa.
Vou pegar um avião
E voar pra Fortaleza.
Mas, antes desse percurso
Devo dizer que esse curso
Valeu mais que ouro em pó.
Tomara que o tratado
Seja também adotado
No país de Mossoró.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Rock & Cordel

Da esquerda para a direita: Abimael Carvalho, Moisés Veloso, Marcos Mairton, Leo Carlos e Franzé Batera
(A foto foi obtida em http://picasaweb.google.com.br/rockcordel03/ProjetoEnxofre#. Clique no link para ver mais fotos)

PROJETO ENXOFRE NO ROCK CORDEL

Dia 31 de janeiro de 2009 a Banda Projeto Enxofre se apresentou no Rock Cordel, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza. O nome do festival é bem escolhido, pois passaram por ali várias formas de manifestação cultural, umas mais ligadas ao rock, outras à cultura nordestina.

Não sei se o Projeto Enxofre era a única banda de rock que tinha um cordelista entre seus participantes (eu), mas fiquei feliz ao pisar no palco e lembrar que trafego pelas duas áreas.
Para ver o Projeto Enxofre interpretando a música "Sobrinho", de nossa autoria, clique aqui: http://www.youtube.com/watch?v=eOvwBdQBnzQ

Na abertura, declamei esse martelo:


Nesse espaço de arte e de cultura
Tem lugar pra guitarra e pro pandeiro
Repentista se encontra com roqueiro
Rock'n roll com xaxado se mistura.
Cada um chega aqui e logo procura
Cumprir com maestria seu papel.
Nessa torre que não é de Babel
É melhor você ir se preparando:
O Projeto Enxofre está chegando
Pra botar fogo no Rock Cordel!


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Poesia de Mundim do Vale



POESIA LIMEIRIANA


Meu generoso amigo Mundim do Vale me enviou mais uma de suas obras. Dessa vez o tema é a carta escrita por Pero Vaz, quando do descobrimento do Brasil. Só que em uma versão limeiriana, que todo mundo sabe que era fantástico em rima e métrica, mas deixava a desejar na fidelidade aos fatos históricos. Afinal é de Zé Limeira a glosa que diz:


Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na banda do Zé Leal.
Mas como tocava mal
Injeitou três instrumento
Jesus saiu lá de dento
Correndo atrás duma lebre
Quem for podre que se quebre
Diz o novo testamento.


Vejamos como ficou a carta limeiriana de Mundim do Vale. E obrigado, Mundim, por mais essa colaboração!


Carta de Pero Vaz segundo Zé Limeira

Mundim do Vale

Certa vez lá em Natal
Limeira tava cantando
Todo tempo misturando
Mossoró com Portugal.
Falava de carnaval
Numa casa de farinha,
Até que Zé de Ritinha
Perguntou: - Tu é perito?
Pois rime o que tava escrito
Na missiva de Caminha.

A carta:

Senhor rei de Portugal
Aos vinte e nove de abril
De um tronco de pau Brasil
Escrevo a carta real.
A viagem foi normal
Com as graças de Jesus
Que nos mostrou uma luz
Para uma ação pioneira.
Onde ergui sua bandeira
Na terra de Vera Cruz.

A terra aqui é tão boa
Que até já me acostumei
Confesso para o meu rei
Que já esqueci Lisboa.
A nativa sobe à toa
Na árvore pra chupar manga
Vestida só com uma tanga
Com o peito descoberto.
E a gente olha bem de perto
E a danada nem se zanga.

Não vou mais voltar aí
Pra não ter que trabalhar
Pois levo o tempo em pescar
E comer Índia tupy.
Vou ficar mesmo é aqui
Porque não sou abestado
Me esqueça no seu reinado
Que aqui tudo é maravilha.
Já comi até a filha
Do chefe Touro Deitado.

Tou fazendo um relatório
De tudo que acontece,
Dos índios fazendo prece
Na frente do oratório.
Já montei meu escritório
Na taba do feiticeiro,
Mas mande pena e tinteiro
E também papel paltado,
Que estou comprando fiado
A um cigano estradeiro.

Os índios querem adotar
O costume português.
O vício da embriagues
E a mania de trocar.
Não tenho como evitar
Essa permuta ilegal
Porque o próprio Cabral
Vive trocando arruela.
E até a índia mais bela
Já foi trocada por sal.

Quero também avisar
Pra meu rei tomar ciência
Que precisa providência
Urgente nesse lugar.
Os europeus vão chegar
Mudando a religião.
Vai chegar também ladrão
Para furtar à vontade,
Daí nasce a impunidade
Para a futura nação.

Chegou aqui um francês
Que é metido a bichinha
Ele esculhamba a rainha
E tudo quanto é português.
Aconteceu certa vez
Aqui no Monte Pascoal
Que ele assediou Cabral
Oferecendo o caneco.
Cabral quase teve um treco
Lá dentro do matagal.

Aqui já apareceu
O tal do esquentamento
Precisa medicamento
Que muita gente morreu.
Escute esse servo seu
Pra coisa não desandar,
A corte tem que mandar
Um médico para esse povo.
Eu mesmo já tou com um ovo
Em tempo de cozinhar.

Aqui já tem confusão
De índio com português
Já é a terceira vez
Que eu faço intervenção.
O nativo faz questão
De uma vida reservada,
Sem calçar nem vestir nada
E meu rei tem que entender
Que faz gosto a gente ver
Uma nativa pelada.

Prepare um navio cargueiro
Pra trazer equipamento,
Mande birô e acento
Pra seu fiel cavalheiro.
Eu passo um mês inteiro
Vivendo nesse sufoco
Recebendo muito pouco
Nessa minha sub-vida.
Já tou com a bunda doída
De viver sentado em toco.

O meu rei deve lembrar
Que a terra foi Deus que deu,
Depois vem o europeu
Querendo se apossar.
Os índios não vão gostar
Dessa perversa invasão
E vão entrar em questão
Mas não vão levar vantagem,
Porque somente a coragem
Não pode vencer canhão.

Não é bom meu rei mandar
Jogadores nem detentos
Pois esses maus elementos
Só servem para furtar.
É bom a corte cortar
O mal cheiro pela essência,
Pra não gerar descendência,
Dessa raça malfazeja.
Evitando que um esteja
Um dia na presidência.

Sei que vossa majestade
É o nosso rei soberano
Mas desenvolvi um plano
Pra essa comunidade.
Mostre a vossa autoridade
Agindo com inteligência,
Munido de coerência
E coragem de pra reinar,
Na hora de decretar
O ato da independência.

Se um dia meu rei vier
É melhor que venha só
Aqui se arranja xodó
Porque não falta mulher.
Índia não sabe o que quer
Nem manda botar baralho.
E pra findar meu trabalho
Assino na última linha.
Seu Pero Vaz de Caminha
Sarney Magalhães Barbalho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Poesia e Direito



SENTENÇA POÉTICA


Recebi esta do meu amigo Alexandre Goiana, advogado em Fortaleza-CE, grande apreciador daLiteratura de Cordel. O caso revela mais um desses casos jurídicos nos quais o Direito se encontra com a poesia:


RS - Magistrado profere decisão em forma de versoO Juiz de Direito Afif Jorge Simões Neto, da 2ª Turma Recursal Cível, doestado do Rio Grande do Sul, proferiu voto em forma de verso, em julgamentorealizado ontem, 21/1. A ação, que tramitou perante o Juizado Especial Cívelda Comarca de Santana do Livramento, trata de pedido de indenização por danomoral.

O autor da ação, patrão do CTG Presilha do Pago, afirmou ter sido ofendido em sua honra pessoal durante pronunciamento feito por Conselheiro Fiscal da18ª Região Tradicionalista durante o uso da tribuna livre da Câmara deVereadores. O ofensor teria dito que o Patrão não prestava conta das verbas públicas recebidas para a realização de eventos. Salientou que as afirmações foram publicadas também no jornal local A Platéia. O réu negou as ofensas.

A decisão no Juizado Especial Cível de Livramento condenou o Conselheiro ao pagamento de R$ 1,5 mil. Houve recurso à Turma Recursal. Para o relator, a ofensa não aconteceu. Os Juízes Eduardo Kraemer e a Leila Vani Pandolfo Machado acompanharam ovoto do relator, reformando a decisão de 1º Grau para negar o pedido de indenização.

Confira abaixo a sentença "poética" na íntegra.


Este é mais um processo
Daqueles de dano moral
O autor se diz ofendido
Na Câmara e no jornal.

Tem até CD nos autos
Que ouvi bem devagar
E não encontrei a calúnia
Nas palavras do Wilmar.

Numa festa sem fronteiras
Teve início a brigantina
Tudo porque não dançou
O Rincão da Carolina.
Já tinha visto falar
Do Grupo da Pitangueira
Dançam chula com a lança
Ou até cobra cruzeira.

Houve ato de repúdio
E o réu falou sem rabisco
Criticando da tribuna
O jeitão do Rui Francisco

Que o autor não presta conta
Nunca disse o demandado
Errou feio o jornalista
Ao inventar o fraseado.

Julgar briga de patrão
É coisa que não me apraza
O que me preocupa, isso sim
São as bombas lá em Gaza.

Ausente a prova do fato
Reformo a sentença guerreada
Rogando aos nobres colegas
Que me acompanhem na estrada.

Sem culpa no proceder
Não condeno um inocente
Pois todo o mal que se faz
Um dia volta pra gente.

E fica aqui um pedido
Lançado nos estertores
Que a paz volte ao seu trilho
Na terra do velho Flores.”


* Proc. nº 71001770171 -

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Cangaço


POESIA CANGACEIRA

Outra valiosa contribuição que recebi durante as férias foram as poesias de Sandro Kretus, que vieram em forma de comentário. Uma delas é essa:

CODINOME LAMPIÃO

O meu nome é Virgulino
O lagarto nordestino
Ouça bem o que lhe digo
O cangaço é meu quintal
Meu sobrenome é perigo
Vai logo me dando essas moedas
Vai logo rezando á padre Ciço

Foi com Antônio e Levino
Com meus irmãos eu aprendi
Que no cangaço o homem
Tem que ser macho
No cangaço o homem
Não pode dormir


Leão valente e cangaceiro
Macho de todas as maneiras
Foi assim que eu me apresentei
Na tropa do sinhô Pereira

Vendo o sofrimento de meu povo
Nas mãos do crime eu cai
Na casa da baronesa
De água branca eu bebi

Peguei o bicho pelo pescoço
Prendi Antônio Gurgel
Um frio na espinha desceu pelas costas
Me gelando a boca do céu

Numa agonia de dá dó
Foi dois de uma vez só
Perdi Colchete e Jararaca
Na invasão á Mossoró

O calango escondido
Não aceitou a derrota
Mas tive que esperar
Pois Pernambuco, Paraíba
E Ceará, estavam á me caçar

Atravessei o São Francisco
Com cinco cabras na mão
E foi lá na Bahia
Que eu me levantei do chão

Um certo dia escondido
Na fazenda de um coiteiro
Foi lá que eu encontrei
Meu amor verdadeiro

Só tinha um problema
Era a mulher do sapateiro

Fugiu comigo em nome desse amor
Enchendo meu coração de alegria
Maria Déia, cheia de idéia
Flor nordestina

Na caatinga
Debaixo de um umbuzeiro
Nasceu minha filha Expedita
Lindo anjo vindo do céu
Á iluminar minha vida

Com minhas roupas de Napoleão
Feitas pelas minhas mãos de artesão
Apresentei meu bando e minhas cartucheiras
Ás lentes de Abrão

O meu olho que vazava
Dr: Bragança arrancou
Confesso tive medo
Mas não senti nenhuma dor

Meu destino tava chegando
Senti meu peito sangrar
João Bezerra e Aniceto Rodrigues
Vieram me atocaia

Vi cai Quinta-feira
Vi cai Mergulhão
Vi cai Enedina
De joelho no chão

Vi Moeda e Alecrim
No rabo do foguete
Vi cai Macela
Vi cai Colchete

Antes de dar meu último suspiro
Pensei no meu amor
Onde tá Maria Bonita?
Minha amada
Minha flor

Fui Virgulino Ferreira da Silva
Codinome Lampião
Vivi, amei, e morri
Nos braços do Sertão.

Sandro Kretus
O andarilho da terra do fogo

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Poesia de Sávio Pinheiro



2009. VOLTA À ATIVIDADE

Finalmente, retomo as atividades blogueiras neste 2009. Felizmente, no período em que Mundo Cordel ficou sem publicar, recebi valiosas contribuições para o retorno. Aí vai uma, do poeta Sávio Pinheiro.

CONSOLO DE PERDEDOR
Autor: Sávio Pinheiro


Cidadão desesperado
Que perdeu a eleição
Procure se sossegar
Dentro da nova gestão,
Pois o que aconteceu
Não é pra desilusão.

Durante o pleito acontece
As intrigas de rotina,
Discussões desnecessárias
Que maltrata e desatina,
Já que a indústria de fuxicos
Surge por trás da cortina.

Um eleitor consciente
Quase a gente nunca vê.
O político prometendo
Aparece na TV
E organizando o curral
Vai manobrando você.

A população presente
Ouve aquela citação
E acredita que vai ter
Grande valorização
Confiando com vigor
Num discurso sem ação.

O cidadão derrotado
E humilhado a sofrer
Tem medo da represália
Que derrotará o ser
E sofrendo de dá pena
Sente até que vai morrer.

Todavia, meu amigo
Procure ficar ciente.
Vou dizer para você
A situação dolente:
Quanto o poder oferece
Para a nossa pobre gente.

A maior parte da grana,
A qual chega à prefeitura
Dá pra dois, no máximo três,
Detentores da fartura,
Pois o esquema organizado
Vem da velha ditadura.

Outro time que se acha
E não pisa sobre o chão
Tem uns trinta componentes
Com postura de barão:
Este, não perde um churrasco
E tem nome de babão.

Este grupo é que conduz
E valoriza a disputa
Já que está na dependência
Da sobra da trinca astuta,
Pois os trinta não ganhando
Vão penar em sua labuta.

Um carro terceirizado
Uma venda pro poder
Um cargo de nome longo
Um momento de lazer
E a prestação de serviços
O faz se submeter.

Este tem a obrigação
De bajular em voz alta:
- O churrasco tinha a carne
Mais gostosa da ribalta
E a mulher do deputado
Boniteza não lhe falta.

Para o grupo que perdeu
E que tinha a intenção
De fazer parte dos trinta,
Ser do segundo escalão,
Sobra só o bom consolo
De escapar de ser babão.

Resta agora analisar
Com bastante coerência
Pra onde irão os demais,
Que detêm a paciência
E que tentam adquirir
Um grau de benevolência?

A população carente
De afeto e de ação
Comporá o grande grupo
Sem direito a um quinhão:
Parte tendo de acatar
E aplaudir a falação.

Mas o grupo tem dois lados:
O que perdeu e o que ganhou.
O primeiro gritará
Que o seu prefeito roubou
E o segundo, coitadinho
Ficará sempre mansinho
Sem admitir, que sobrou.