sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Humberto Teixeira - O filme



O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS




Já está nos cinemas, desde 16 de janeiro, o filme "O homem que engarrafava nuvens", sobre a vida de Humberto Teixeira. Mas, quem foi esse Huberto Teixeira?

Bem, o trailer do filme dá uma noção, mas acho que precisa ver o filme todo para entender um pouco porque tantos artistas famosos o reverenciam...




domingo, 17 de janeiro de 2010

Cordel em prosa



A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO,
O HOMEM QUE VIROU MULHER
Marcos Mairton(*)
Parte I


Era uma vez Zé Luando, que um dia nasceu menino, cresceu, casou, descasou, mas, por obra do destino, não ficava à vontade, nem tinha felicidade, no seu corpo masculino. No sertão do Ceará dizem que ele nasceu. Numa pequena cidade, estudou, brincou, cresceu. Todo mundo o conhecia, mas ninguém esperaria ocorrer o que ocorreu.

Esse nome “Zé Luando” veio de um combinado do nome de sua mãe com o de seu pai ligado. Luana a mãe se chamando, e o pai, José Fernando, o nome assim foi formado.

Desde que era pequenino, muita gente já notava que brinquedo de menino a ele não agradava. Soltar pião, jogar bola, brincar de luta na escola, nada disso ele gostava. Mas logo se alegrava se chegava à sua mão um batom ou um espelho que achasse pelo chão. Com a boca toda pintada, deixava a mãe intrigada com a sua animação. O pai não tinha noção do que estava acontecendo. Ou estava trabalhando, ou em algum bar, bebendo. O menino delicado, e o pai, sempre ocupado, nada ia percebendo.

Assim ele foi crescendo com seu jeito diferente. De menino em rapaz tornou-se rapidamente. Mas, arranjar namorada era coisa complicada, que lhe deixava doente. Quando ia a uma festa, bem que ele até tentava. Aproximava-se das moças, conversava, conversava, mas, só de imaginar a sua boca beijar, seu estômago embrulhava. Na verdade, nessas horas, quando estava perto delas, olhava era para as roupas usadas então por elas. Ficava a imaginar, algum dia desfilar, usando uma daquelas.

Na cidade, àquela altura, todo mundo comentava, pois chamava a atenção Zé Luando onde passava. Fosse na volta da missa ou no bar da Dona Ciça, assunto é o que não faltava.
Assim, foi grande a surpresa quando chegou a notícia:

– Zé Luando vai casar com a filha de Dona Eunícia! E não pode ser boato, pois quem me contou o fato foi um cabo da polícia!

Segundo o cabo, ele esteve na Igreja Transversal, conversou com o pastor, explicou o principal e perguntou:

– Terá cura para uma criatura que nasce homossexual?

O pastor disse:

– É claro! O milagre é dos pequenos! Basta só você ter fé, e os resultados são plenos. Mas, pra mostrar devoção, faça uma doação de cem reais, pelo menos.

Zé Luando acreditou e fechou logo o negócio. Entregou os cem reais ao chefe do sacerdócio, que lhe disse:

– Tenha fé, pois Jesus agora é, além de amigo, seu sócio.

A partir daquele dia, Luando ficou mudado. Só vivia na igreja rezando, ajoelhado. Um dia o pastor falou:

– A maldição acabou. O irmão está curado. Você agora é homem para o que der e vier. Vai casar e ser feliz, ter os filhos que quiser. Espere que, amanhã, apresento-lhe a irmã que vai ser sua mulher.

Zé Luando, emocionado, quase não acreditava no milagre que o pastor então lhe comunicava. Por ele, no mesmo dia, a noiva conheceria e com ela se casava.

É aí que entra na história a Maria Salomé, filha de Dona Eunícia com Seu João Buscapé. Uma mocinha faceira que trabalhava de obreira na mesma igreja de Zé. Era ela a dita noiva que o pastor lhe arranjou, e depois disse que ela por José se apaixonou. Entre Luando e Maria, na noite do mesmo dia o noivado começou.

A notícia do noivado foi uma grande surpresa. Lá no bar da Dona Ciça, era assunto em toda mesa, porque, mesmo namorando, ninguém via em Zé Luando qualquer sinal de macheza. Ficava até esquisito, quando o casal passava. Saía gente na porta, todo mundo olhava, olhava... Luando até parecia mais mulher do que Maria, e ela nem se incomodava.

E assim foi o namoro e o tempo do noivado. O dia do casamento também foi logo marcado. Quando esse dia chegou, o povo se ajuntou pra ver Luando casado. No casório, o pastor sorria todo contente. O milagre de Luando encheu a igreja de gente. E a arrecadação de dízimo e doação aumentava de repente.

A história poderia acabar neste momento. Um “felizes pra sempre”, logo após o casamento, e a história de José, com Maria Salomé, terminaria a contento. Mas tenho que prosseguir narrando o que aconteceu, pois, sete meses depois, o filho de Zé nasceu, mas, em vez de animado, Zé ficou acabrunhado, com cara de “já morreu”.

Os amigos visitavam o bebê recém nascido, que, apesar de prematuro, era grande e bem nutrido, mas o Zé continuava alheio ao que se passava, de alegria desprovido.

(*) Saiba um pouco sobre esta obra:
Ano passado, participei do concurso "Arte da Magistratura", uma iniciativa muito interessante da Associação Paulista da Magistrados, abrindo espaço para os juízes que, apesar da complexidade e seriedade de seu trabalho, conseguem manter viva em seu espírito a chama da arte e da sensibilidade. O concurso era aberto a juízes estaduais de São Paulo, mas juízes federais e do trabalho poderiam ser de qualquer estado da federação, o que permitiu que eu concorresse.
Havendo duas categorias - artes plásticas e obra literária - Claro que participei da segunda. Para minha felicidade, dois de meus escritos ficaram entre os 24 semi-finalistas: a crônica "Uma confissão apaixonada" e o conto "A história de Zé Luando, o homem que virou mulher". No finalzinho de 2009, foi divulgada a lista dos dez finalistas e, para minha alegria, lá estava meu nome entre eles, com a obra "Uma confissão apaixonada". Resolvi postar as duas neste MundoCordel, começando pela "História de Zé Luando", que tem uma peculiaridade: originalmente, o conto foi escrito em cordel, mas, para concorrer como conto, achei que a apresentação em versos poderia confundir a cabeça da comissão julgadora. Afinal, como o cordel poderia concorrer como conto, se os contos são em prosa e os cordéis em verso? Perguntei a uma amiga, Juliana, prima de minha esposa, doutora em letras, o que fazer. Segundo ela, o cordel é poesia. Poesia épica, como a "Ilíada" a "Odisséia" e "Os Lusíadas". Enchi-me de orgulho diante de tal parecer - ainda mais vindo de quem entende do assunto - mas, continuei achando que, na categoria poesia, a coisa seria complicada. Além disso, eu lia o texto e continuava vendo um conto. Foi aí que veio a idéia de apresentá-lo como um texto escrito em prosa, inclusive abrindo mão da rima e da métrica de vez em quando, se necessário fosse para melhorar o resultado final. Afinal, são técnicas diferentes de escrita, então, algumas construções muito boas em verso não ficam bem quando em prosa, e vice-versa. Bem, o resultado está logo acima. Como ficou um pouco longo, está dividido em três capítulos. Espero que esses comentários não tenham cansado o leitor, a ponto de fazê-lo desistir da leitura dos próximos capítulos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um conto de natal

Fecho o ano com esse lindo conto de natal de Luís Campos. Feliz 2010!
Ainda Há Esperança!
(Um Conto de Natal)
Um conto de Luís Campos (Blind Joker)
Estava quase à hora da ceia e Armando não sabia onde se metera oYuri. Perguntou à sua mulher, mas ela também não sabia do menino. Rosa indagou à pequena Miucha sobre o paradeiro do irmão e ela disseque não sabia dele. O vira sair em direção ao Campo Grande, por voltadas quatro horas.
Armando e rosa sentaram-se num dos bancos. Nada diziam, apenas olhavam para o nada ou, quando muito, para o céu estrelado. Miucha, alheia à preocupação dos seus pais, nos seus oito anos, brincava com sua boneca.
O homem recordava o sítio. Por que o vendera? Por que viera para Salvador atrás de um sonho que talvez nem fosse o seu? Mas ele tinha certeza que fizera essa bobagem pensando em dar um futuro melhor para as crianças. Aqui elas poderiam estudar, ser alguémna vida e quem sabe, dar-lhes uma velhice tranqüila! Por ele, ficaria no sítio. Cuidar da horta, da rocinha de feijão, milho e mandioca, ordenha Gabiroba, ver Rosa cuidar das galinhas e da Cabriolé e do Fantoche, seu casal de porcos. Sentia agora o cheiro da comida gostosa que Rosa fazia tão bem. Seu colchão de palha, suas noites de lua cheia no terreiro da casa, proseando com sua Rosa. Aquele delicioso café com tapioca toda manhã. Nada disso voltaria!
A mulher também pensava. Nunca condenou o marido e estaria disposta aseguir com ele este caminho do inferno. Procurava não pensar no que ficou pra traz. Ele lhe contara seu sonho e Rosa quis sonhar com ele!
No dia em que chegaram aqui, foram morar num barraco cedido pelopatrão. Rosa procurou uma escola próxima e matriculou as crianças. Com nove e sete anos, ainda não tinham freqüentado uma escola, embora soubessem ler, pois tanto Rosa quanto Armando lhes ensinara. Quase todas as crianças da redondeza do sítio, na idade dos seus, eram analfabetas. Em grande parte da zona rural desse País, até hoje, não há escolas. Também não há professoras. Como poderia haver professoras ou escolas se não existem estradas? A maioria dos sítios e pequenas fazendas são interligadas por caminhos estreitos e esburacados que mal dão para passar uma carroça. Assim acontecia no interior onde vivia Armando. O acesso ao seu sítio e dos vizinhos era tão estreito que quase não dava para ele passar com sua carroça, puxada por Café, seu jeguinho, quando precisava ir à"cidade" levar seus produtos para vender na feirinha e, na volta,trazer açucar, café, farinha de trigo e biscoitos para os meninos. Na região passava um pequeno rio, o que dava alguma tranqüilidade aos moradores. Também havia muitas árvores frutíferas, o que contribuía para que a alimentação das crianças fosse mais saudável. Quando a coisa "pegava", Armando saía em busca do alimento na mata. Como ainda havia alguns animais de pequeno porte por ali, Armando, devez em quando, se aventurava pela mata para caçar, acompanhado de Geléia que, aos latidos, acuava os animais, deixando-os à mercê do tiro certeiro da espingarda-de-socar que o próprio Armando fizera. Com o "almoço" da família garantido, ele retornava para casa e, pelo caminho, pegava algumas raízes e folhas para que Rosa fizesse os "santos remédios" que, nem só matavam as "bichas", como serviam para os ungüentos, usados nos machucados, bem como para os chás e xaropes.
Nem completara dois anos como frentista e fora despedido. Teve que deixar o barraco, tirar as crianças da escola e procurar onde abrigar os seus. Arrependia-se de ter vendido seus bens para vir à Capital em busca de oportunidade para seus filhos. Estava tão aéreo em suas divagações que não percebeu dois carros da Polícia Civil que se aproximavam. Quando as viaturas pararam, Armando nem imaginava a que vinham!
Vez por outra, elas estavam por ali. Algumas vezes paravam, davam uma olhadinha e iam embora. Noutras, apenas passavam devagar, olhando para um lado e para o outro.
Destas desceram quatro mulheres e três homens. Elas traziam algumas sacolas e se aproximaram deles e uma delas perguntou:
- O Senhor é o Armando Jaguaripe?
Armando olhou as mulheres. Elas sorriam. Os homens ficaram à parte, mas observavam a cena e os arredores. Miucha levantou-se do chão e veio ficar junto aos pais. Rosa também olhou aquelas mulheres muito bem vestidas e bonitas. Outros moradores se aproximaram. Armando, antes de responder, pensou em como são curiosas as pessoas.
- Sou eu sim, Senhora...
A mulher, que parecia ser a "mandona", falou para um dos homens:
- Coimbra! Trás o Yuri!
O homem foi até uma das viaturas e voltou trazendo o menino pela mão. A mulher que havia dado a ordem, disse:
- Seu Armando, pegaram o Yuri roubando umas coisas num supermercado. Ele nos contou a história de vocês e então resolvemos trazê-lo atéo Senhor!
Armando olhou para o filho carinhosamente, mas, com ar de reprovação na voz, perguntou-lhe:
- Filho, por que você fez isso? É essa a educação que lhe damos? Você viu alguma vez seu pai ou sua mãe pegar qualquer coisa de alguém?
Yuri, entre soluços e abraçando-se ao pai, respondeu:
- Me perdoe, Paizinho! Eu só queria que a gente tivesse um Natal...
- Que Natal seria esse, filho?
- Pai, um Natal de gente e não de bicho... como agente tinha na roça!
Disse o menino ainda chorando. Armando, com os olhos encharcados, replicou:
- Filho, antes um Natal de bicho a ver meu filho roubando!
- Me perdoe, Paizinho... perdoe, Mãezinha!
A esta altura, todos que estavam presentes à cena, tinham lágrimas nosolhos, até mesmo os "durões" policiais. A Delegada interrompeu esse diálogo, dizendo:
- Bem, Seu Armando... nós viemos cear com vocês e trouxemos algumas coisinhas!
Uma das moças tirou da sacola que trazia, duas toalhas de mesa com desenhos natalinos e as estendeu no chão. As outras colocaram sobre estas alguns panetones, bolos, refrigerantes de dois litros, um queijo-cuia, três frangos assados, uma vasilha com farofa e outra com arroz, além de caixinhas de passas. Um dos homens foi até a viatura. Pegou duas garrafas de "cidra", pratinhos, copos e talheres plásticos e veio juntar-se aos demais. A Delegada, sentando-se no chão, falou para os curiosos:
- Todos vocês que moram aqui na praça, podem sentar-se conosco!
E complementou, indicando um lugar:
- Venha, Seu Armando... sente-se aqui com sua família!
Então todos sentaram-se no chão, em torno das toalhas, inclusive os policiais. As quatro mulheres prepararam os pratinhos e distribuiram entre os presentes, colocando nestes, um pouco de cada coisa. Brindaram com a cidra e depois da ceia beberam refrigerante. E aqueles desafortunados que moravam na praça, nesta noite, tiveram um Natal menos indigno...
Meia hora depois, felizes, os policiais retornavam à Delegacia! Nesta noite, brilhou entre os homens a estrela da solidariedade e dacompreensão!
Ainda há esperança!
FIM

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Negros, índios, portugueses e holandeses

Acabei de escrever um conto sobre escravos, índios, portugueses e holandeses. Sobre raças e missigenação. Sobre escravidão e liberdade. Durante as pesquisas que realizei, acabei encontrando esse vídeo, com Paulo Autran declamando "Navio Negreiro", de Castro Alves, e imagens do filme "Amistad". Muito bom!
Navio Negreiro
Castro Alves


I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço Brinca o luar — dourada borboleta; E as vagas após ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro... O mar em troca acende as ardentias, — Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano, Azuis, dourados, plácidos, sublimes... Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas, Veleiro brigue corre à flor dos mares, Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora Sentir deste painel a majestade! Embaixo — o mar em cima — o firmamento... E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros, Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem, livre poesia Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, E o vento, que nas cordas assobia... ..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano, Tu que dormes das nuvens entre as gazas, Sacode as penas, Leviathan do espaço, Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço, Donde é filho, qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor, Lembram as moças morenas, As andaluzas em flor! Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente, — Terra de amor e traição, Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso, Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio, Que ao nascer no mar se achou, (Porque a Inglaterra é um navio, Que Deus na Mancha ancorou), Rijo entoa pátrias glórias, Lembrando, orgulhoso, histórias De Nelson e de Aboukir.. . O Francês — predestinado — Canta os louros do passado E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos, Que a vaga jônia criou, Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou, Homens que Fídias talhara, Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu ... Nautas de todas as plagas, Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra, E após fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N'alma — lágrimas e fel... Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas, Das palmeiras no país, Nasceram crianças lindas, Viveram moças gentis... Passa um dia a caravana, Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus ... ... Adeus, ó choça do monte, ... Adeus, palmeiras da fonte!... ... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso... Depois, o oceano de pó. Depois no horizonte imenso Desertos... desertos só... E a fome, o cansaço, a sede... Ai! quanto infeliz que cede, E cai p'ra não mais s'erguer!... Vaga um lugar na cadeia, Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d'amplidão! Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm'lo de maldade, Nem são livres p'ra morrer. . Prende-os a mesma corrente — Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão. E assim zombando da morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!... Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa... chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS (SHOW)


Para quem ainda não me conhece eu sou o cangaceiro virtual
E serei o apresentador nesse grande show musical

Levante da cadeira e aumente o som
Vai começar o ShowBlog Baião com sucessos que você conhece
E artistas que você adora.

O nosso show está dividido em quatro partes,
Fique até o final e não vá embora,
Eu prometo diversão e muita canção
Nessa Homenagem a Humberto Teixeira
O doutor do baião.

Mas vamos deixar de Blá Blá Blá que o show já vai começar.









































Se você gostou do show dia 15 de janeiro corra para os cinemas
O Homem que Engarrafava Nuvens vai estrear com mais musica e festa para você se divertir e se emocionar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS



FILME SOBRE HUMBERTO TEIXEIRA

Dia 16 de dezembro às 18hrs será divulgado no Blog Oficial do filme "O Homem que Engarrafava Nuvens" em homenagem ao "Dr. do Baião" Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, filme que contou com a participação de diversos artistas renomados da música popular brasileira, cantado os principais sucessos do Dr.do Baião.
Esse show conta com a participação de Lenine, Elba Ramalho, Zeca Pagodinho,Cordel do Fogo Encantado, Gilberto Gil dentre outros artístas de sucesso.
Única apresentação deste show será dia 16 de Dezembro às 18 hrs no Blog Oficial.
http://ohomemqueengarrafavanuvens.blogspot.com/

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Jessier Quirino



RASGA RABO BAGUNÇADOR DE BAGUNÇA


Copiei essa do Jornal da Besta Fubana (
www.luizberto.com), da coluna “De cumpade pra cumpade”, do mestre Jessier Quirino. Já conhecia de seu livro/CD “Bandeira Nordestina”. Fantástico!


Trupizupe oia tu num me assusta
Com a fama da tua valentia
Porque esta macheza é freguesia
E até nem me parece tão robusta
Uma boa palmada não me custa
Pois no fundo eu te acho delicado
Se tu és um valente escolado
Eu quebrei no cacete a tua escola
O teu mestre saiu de padiola
E teu supervisor invertebrado.

No jardim da infância eu fui valente
E o nome da escola era bufete
No primário estudei no canivete
No ginásio no bote de serpente
Como eu era um aluno inteligente
Logo cedo já tinha me formado
Lampião tinha sido reprovado
Por froxura e por falta de frieza
Hoje, pós-graduado em malvadeza,
Vendo pena de morte no mercado.

Eu sou topada de unha encravada
Sou gilete no mei do tobogã
Sou o flagra da foda no divã
Sou feiúra dum talho de inchada
Sou um choque no furo da tomada
Sou ferrugem na agulha de injeção
Sou judeu se vingando de alemão
Cata-vento voando num comício
Sou a falta de droga num hospício
Queimadura de larva de vulcão.

Sou rolo compressor desgovernado
Libanês dirigindo um carro-bomba
Sou uns 300 quilos de maromba
Despencando do braço levantado
Sou carrasco esperando um condenado
Sou a queda fatal da guilhotina
Metralhada cruel de uma chacina
Marretada no dedo polegar
Eu sou o fósforo acesso pra fumar
Que explodiu o tambor de gasolina.

Eu sou a folha perversa da urtiga
Despontando no vaso sanitário
Querosene na mão do incendiário
Solitária mexendo na barriga
Sou machado afiado numa briga
Sou o chifre botado em Romeu
Sou Menguele com raiva de judeu
Sou o tiro certeiro do arpão
Sou a aids injetada no machão
Que enlouquece jurando que não deu.

Eu sou navalha na mão de delinquente
Jacaré triturando um caçador
Tirotei dentro dum elevador
Araldite numa escova de dente
Eu sou ninho de cobra num acidente
Sou ladrão seqüestrando um delegado
Comeine depois do atentado
Sou 500 mil watts de energia
Sou tesoura cruel de cirurgia
Que ficou na barriga do operado.

Eu sou o estouro brutal de uma boiada
Sou a fúria de um tubarão faminto
Cão de guarda trancado num recinto
Sou três tapas depois de uma facada
Eu sou rinoceronte em disparada
Explosão de usina nuclear
Sou mudança que cai do décimo andar
Sou o corte inflamado do punhal
Cianureto maior que sonrrisal
Que o nazista obrigou a mastigar.

Eu sou o maior beliscão do alicate
Maçarico cortando gente ruim
Tiro ao alvo na cara de Delfim
Criolina na sopa de tomate
Eu sou o pênalti perdido num empate
Sou scania sem frei na contramão
Gente besta coberto de razão
Matador disfarçado de molengo
Sou torcida irada do Flamengo
Perseguindo o juiz que foi ladrão.

Eu sou a explosão de foquete iraniano
Que subiu carregado de safado
Sou negrada invadindo o senado
Dando o golpe em galego africano
Peixerada de paraibano
Sou mijada na cara do doutor
Instrumento de esquartejador
Sou engasgo com bola de sinuca
Eu sou o tiro certeiro de bazuca
Que matou o infeliz do ditador

Trupizupe prepara a tua cova
É chegado o dia da decisão
Vai fazer tua última comunhão
Pois eu já preparei a tua prova
De arame farpado vai ter sova
Vai lembrando do teu aprendizado
Pois eu já tô ficando endiabrado
Só de raiva já dei um saculejo
Dei até beliscão num azulejo
Mas ainda não tô mal-humorado.