terça-feira, 30 de março de 2010

Cordel sobre o dia da mentira

O SURGIMENTO DA MENTIRA NO BRASIL
Manoel Messias Belizario Neto
http://www.cordelparaiba.blogspot.com/


 
Leitor para ser um homem
Ou uma mulher de verdade
A criatura precisa
Ter no mínimo honestidade
Que é a mãe dos princípios
Morais de uma sociedade.


Hoje em dia é comum
Homem e mulher de mentira.
Nesse verso vou narrar
De onde isto surgira.
Trazer à tona a verdade.
Esta é a minha mira.

Toda a saga tem início
Nas plagas de Portugal
Ainda na construção
Da esquadra de Cabral.
A mentira se escondeu
No porão de uma nau.


Coitada quase morreu
De calor, fome e sede.
Porém aguentou calada,
Encostada na parede.
Pensando:’que bom seria
Se já existisse rede’!

Quando em 1500
Cabral chegou no Brasil
A mentira, de fininho,
Do seu recanto saiu.
Passou pelos tripulantes.
Pulou no mato e sumiu.

A verdade já morava
Nas terras de Pindorama.
Ninguém avisou a ela
Para apagar as chamas
Que a mentira acendia
Em favor de sua trama.

A mentira foi ganhando
Importância no reinado.
Disfarçada de verdade
Tinha todos do seu lado.
Portugueses e indígenas
Por ela foram enganados.

Já a verdade, coitada,
Caiu numa confusão.
Confundida com a mentira
Foi levada à inquisição.
Escapando da fogueira
Exilou-se no sertão.

Por isso que no sertão
Inda hoje tem sofrimento.
Porque a verdade quer
Eleger seu movimento.
Mas a mentira vem antes
E conquista o parlamento.

Com a verdade exilada
A mentira ganha fácil.
Vai abrindo filiais
No país sem embaraço.
Aonde hoje é Brasília
Ela constrói seu palácio.

Nos fundos deste palácio
Ela faz seu cemitério.
Quem foi enterrado lá?
Até hoje é um mistério.
No lugar hoje se encontra
O prédio dos ministérios.

Já em 1700
Com o mundo modernizado
A mentira deicidiu
Abandonar seu reinado.
Em pouco tempo o palácio
Estava arruinado.

Na década de 50,
Coitado de JK!
Inocente escolheu
O mesmíssimo lugar
Que a mentira habitou
Para a Brasília implantar.

Pou um tempo no país
Houve paz e harmonia.
Foram buscar a verdade.
Deram-lhe a anistia.
Pena que a tempestade
Vem depois da calmaria.

Porque a mentira estava
Na Europa passeando
Quando viu numa esquina
Um jornaleiro gritando
Que a capital brasileira
Estaria prosperando.

A mentira ao vir a foto
Conheceu na mesma hora.
Passou um desconhecido
E perguntou: ‘por que chora’?
A mentira disse:’eu
Estou muito triste agora’.

‘Há alguns anos atrás
E morei em um país.
Lá fiz amigos, riqueza,
Aprontei tudo o que quis.
Escolhi um lugar lindo
E ergui uma matriz.’

‘Por estar podre de rica
Resolvi abandonar
O país e me botei
Por este mundo a andar.
Curtir a vida e também
Outro povo atasanar.’

‘Vi agora no jornal
Que minha linda morada,
Construída com suor,
Dela não resta mais nada.
Fizeram uma cidade
Onde ficava a coitada.’

‘Sabe de uma coisa, amigo,
Farei a seguinte trilha:
Vou retornar ao Brasil,
À cidade de Brasilia.
O bom filha a casa torna,
Para rever a família’.

‘Quero de volta o palácio
Porque é meu de direito.
Se eu não for atendida
Levarei tudo no eito.
Dissemino a inverdade.
Todo o país desajeito.’

Ao dizer isto partiu
De trem, rumo aoceano.
Pegou o primeiro navio.
Tracou um único plano:
Ou tinha tudo de volta,
Ou espalharia dano.

Numa tarde de verão
Ela aporta na Bahia.
Vê um Brasil diferente
Daquele que conhecia.
Agradou-se do lugar,
Porém ficar não podia.

Quando chegou em Brasília
Ficou muito emocionada
Ao rever aquelas terras
Que fora sua morada
Cheia de gente vivendo
Em casas modernizadas.

Avistou a Esplanada
Dos Ministérios pomposa.
Disse: ‘não tenho o palácio,
Minha mansão fabulosa.
Mas tenho em seu lugar
Uma construção honrosa’.

'Sabe de uma coisa, amigo,
Não quero a morada antiga.
Vou ficar é nesta nova.
Besteira entrar em briga.
O chalé aqui é grande.
Qualquer quartinho me abriga.’

A mentira se instalou
No prédio da Esplanada
Do Ministérios e até
Hoje lá está plantada.
Vez em quando sai da toca
Pra tomar sol na calçada.

Às vezes ela percorre,
Em excursão, o Brasil.
Depois volta alegremente
Com um olhar infantil
À sua eterna morada.
Tem recepção gentil.

Por isso, caros leitores,
Que temos corrupção.
Não culpe a classe política.
Dê a ela seu perdão.
A culpa é dessa mentira
Em constante tentação.

Autor: Manoel Messias Belizario Neto
http://www.cordelparaiba.blogspot.com/

4 comentários:

  1. Muito Manoel, me agradei de teus versos tão singelos. Vinda da "santa terrinha" a inspiração portuguêsa, borrifada de sertão; mistura o ingênuo nativo e a malandragem "portuga", "feita amiga" e benemérita, cheia de meias verdades e várias meias mentiras, que tragam pleno poder, muit'ouro às proprias burras, enquanto as gentes no eito, vêm a esp'rança morrer...
    Esp'rança de liberdade, de construções e partilhas, de todos estarem juntos na plantação e colheita, na festa da claridão, plantadores, colhedores usufruindo ao suor, do sempre mesmo e bom pão. Já parando por aqui senão começo a chorar, desando a fazer discurso, de inconformismo, revolta, ante tanto que acontece, nesta imensa terra nossa, outrora tão verde e plena, de aragens puras, de rios tão caudalosos, nossa terra decepada de irmandade, de amor! E nós meio atarantados, labutando e agradecendo, quando nos dão uma esmola disfarçada de Crescimento.

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  2. Agradeço Manoel, registrar meu comentário, apesar de não ter dado um nome de referência...Miriam é o primeiro nome, sobrenome: Guimarães, que veio de minha'vó
    (mestiça de português com uma índia nativa...) Sempre que escrevo me lembro, de seu jeito de cabocla que vivia a declamar, arranhar seu violão e a cantar velhas canções, para nosso encantamento...
    Vou saindo e me despeço...agradeço a você, ter re-despertado em mim o desejo de escrever...

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  3. oi amei seu cordel me diverti muito vc e muito muito talentoso.

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  4. Boa tarde, Poetado (poeta-magistrado)Mairton.
    Apois me acredite... Num tem um cordel igualzinho - mudando apenas o titulo (A HISTÓRIA DA MENTIRA) e o autor (A. LIMA) - impresso nas terras do RN e cirdulando por cá?
    Afinal... É do Manoel Belizário ou do A. Lima?
    Kydelmir Dantas - Mossoró - RN

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