Respondendo o post "Sextilha anônima", o poeta //Anizão, frequentador assíduo deste MundoCordel fez o seu comentário em verso. Vale a pena conferir. Boa, //Anizão, seja sempre bem vindo!
Acabei de escrever um conto sobre escravos, índios, portugueses e holandeses. Sobre raças e missigenação. Sobre escravidão e liberdade. Durante as pesquisas que realizei, acabei encontrando esse vídeo, com Paulo Autran declamando "Navio Negreiro", de Castro Alves, e imagens do filme "Amistad". Muito bom!
Navio Negreiro Castro Alves
I 'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço Brinca o luar — dourada borboleta; E as vagas após ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta. 'Stamos em pleno mar... Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro... O mar em troca acende as ardentias, — Constelações do líquido tesouro... 'Stamos em pleno mar... Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano, Azuis, dourados, plácidos, sublimes... Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas, Veleiro brigue corre à flor dos mares, Como roçam na vaga as andorinhas... Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço. Bem feliz quem ali pode nest'hora Sentir deste painel a majestade! Embaixo — o mar em cima — o firmamento... E no mar e no céu — a imensidade! Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa! Homens do mar! ó rudes marinheiros, Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos! Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem, livre poesia Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, E o vento, que nas cordas assobia... .......................................................... Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar — doudo cometa! Albatroz! Albatroz! águia do oceano, Tu que dormes das nuvens entre as gazas, Sacode as penas, Leviathan do espaço, Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. II Que importa do nauta o berço, Donde é filho, qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena As vagas que deixa após. Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor, Lembram as moças morenas, As andaluzas em flor! Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente, — Terra de amor e traição, Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso, Junto às lavas do vulcão! O Inglês — marinheiro frio, Que ao nascer no mar se achou, (Porque a Inglaterra é um navio, Que Deus na Mancha ancorou), Rijo entoa pátrias glórias, Lembrando, orgulhoso, histórias De Nelson e de Aboukir.. . O Francês — predestinado — Canta os louros do passado E os loureiros do porvir! Os marinheiros Helenos, Que a vaga jônia criou, Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou, Homens que Fídias talhara, Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu ... Nautas de todas as plagas, Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu! ... III Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! IV Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar... Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais... Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri! No entanto o capitão manda a manobra, E após fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!..." E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E ri-se Satanás!... V Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!... São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . . São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N'alma — lágrimas e fel... Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael. Lá nas areias infindas, Das palmeiras no país, Nasceram crianças lindas, Viveram moças gentis... Passa um dia a caravana, Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus ... ... Adeus, ó choça do monte, ... Adeus, palmeiras da fonte!... ... Adeus, amores... adeus!... Depois, o areal extenso... Depois, o oceano de pó. Depois no horizonte imenso Desertos... desertos só... E a fome, o cansaço, a sede... Ai! quanto infeliz que cede, E cai p'ra não mais s'erguer!... Vaga um lugar na cadeia, Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer. Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d'amplidão! Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar... Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm'lo de maldade, Nem são livres p'ra morrer. . Prende-os a mesma corrente — Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão. E assim zombando da morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute... Irrisão!... Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!... Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ... VI Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa... chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares!
QUANDO OS POETAS VÊM AO MUNDO CORDEL Já escrevi aqui que uma das coisas que mais me alegra e anima a continuar editando Mundo Cordel é receber de meus amigos CDs, livros, folhetos e outras mídias usadas para a divulgação da Literatura de Cordel e a Poesia Popular. É muito bom saber das pessoas encontrando essa arte pelo mundo e lembrando que este é um ponto de convergência dela. Mas, tem outra coisa que me alegra tanto quanto essa. É quando poetas enviam obras suas para enriquecer este espaço, este Mundo Cordel. Mundim do Vale sempre faz isso. Anizão e Carlos Silva também já estiveram por aqui, dentre outros. Hoje, é a vez de Felipe Júnior, poeta cordelista e declamador vindo do Berço Imortal da Poesia, São josé do Egito-PE. Formado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco, reside em Recife-PE, é, atualmente, coordenador da União dos Cordelistas de Pernambuco - UNICORDEL e membro da União Brasileira dos Escritores - UBE/PE. Quem quiser saber mais sobre o trabalho do poeta, é só visitar o seu blog:
FIM DE MISSA Poeta Felipe Júnior (Do livro “Relicário” e CD “Na boléia da rima e do Riso”)
Fica no templo somente O sacristão zelador Endireitando o andor Pra usá-lo novamente; Fica um cego no batente Tocando uma concertina, Se uma moeda retina Ele diz: Deus abençoe! Mesmo sem saber quem foi Depois que missa termina.
Uns dois ou três batizados; As portas entre abertas; Duas meninas espertas Arrumando seus trocados. O padre faz simulados E com o sacristão combina, Pra mostrar como se ensina Pedir trocado em Igreja, E o padre rindo, festeja Depois que a missa termina.
O zelador atrasado Limpa a Igreja ligeiro, Deposita no lixeiro Papel, chiclete mascado, ... Depois põe tudo ensacado Todo o lixo da faxina Põe o saco na esquina Pro carro depois levar E só volta a arrumar Depois que a missa termina.
Menino na escadaria Sacristão correndo atrás; Um candeeiro de gás Que bem pouco alumia. Com a Igreja vazia O padre tira a batina. Chega uma irmã vicentina Querendo se confessar, Vendo a porta se fechar Depois que a missa termina.
A noite chega de vez E envolve com sua sombra; Um pinto novo se assombra Com uma galinha pedrês; Um casal de camponês; Um cheiro se dissemina, É a ceia nordestina Saborosa com certeza, Porém só é posta a mesa Depois que a missa termina.
A dupla de cantadores Canta num pé-de-parede; Um velho arma uma rede, Reclama de suas dores; Um grupo de rezadores Uma novena combina; Alguém discerra a cortina Da porta da sacristia, Fica a igreja vazia Depois que a missa termina.
O grupo de jovem sai E casais em saudação; O padre leva sermão De um amigo do seu pai; Uma velhinha que vai Fazer sua reza divina, Com o rosto e a pele fina Quase revelando o osso, Mas tira a nota do bolso Depois que a missa termina.
O padre leva o dinheiro Pra casa paroquial E um coroinha mal Pega uma moeda ligeiro. Vai correndo pro oiteiro Em direção da cantina Compra rapadura fina Pra comer com pão bem cedo, E tudo fica em segredo Depois que a missa termina.
Um homem bem elegante Faz a sua doação, O padre dá gratidão Pelo seu gesto operante. E ele todo falante A uma pobre se destina, Era a dona Severina Que passou de sua hora E bota a pobre pra fora Depois que a missa termina.
E reina um silêncio orante Na velha Igreja barroca; Na porta uma velha moca Quer confessar neste instante; Alguém no auto-falante Faz a prece vespertina; Na calçada uma menina Risca com caco de telha; O sol apaga a centelha Depois que a missa termina.
Um casal de namorados Felizes e sorridentes, Namorando nos batentes Conversam de braços dados. Dois homens embriagados Falam alto na esquina; Cai uma rala neblina De uma nuvem passageira Para apagar a poeira Depois que a missa termina.
O sino não faz abalo Como uma prece propondo E um casal de maribondo Pousa em cima do badalo; O travão dá um estalo Que estremece a campina; Por trás da verde colina O sol esconde seu rosto E a lua assume seu posto Depois que a missa termina.
O padre na sacristia Recolhe seus paramentos; No oitão quatro jumentos Que servem de montaria; Reza uma Ave-Maria Uma velha bem franzina, Depois de rezar se inclina Fazendo o sinal da cruz Beija o santo e apaga a luz Depois que a missa termina.
Os morcegos esvoaçam Fazendo belas manobras; Entre as linhas duas cobras No cio se entrelaçam; Duas lagartixas passam Por cima da ripa fina; Debaixo da sarafina Sai uma “briba” cinzenta, Pois ela só se apresenta Depois que a missa termina.
Num canto do santuário Um presépio de natal; Duas velhas falam mal Da pregação do vigário. Outra recita o rosário Que aprendeu quando menina. O sacristão diz: Firmina, Deixe pra rezar depois! Ficam discutindo os dois Depois que a missa termina.
O padre soma a quantia Da coleta do domingo; Aquele velho mendigo Recolhe sua bacia. Um silêncio contagia A cidade pequenina, Reina uma paz divina E uma santa solidão. Isso se vê no sertão Depois que a missa termina.
A maioria das visitas a Mundo Cordel chega por meio de ferramentas de busca, tendo como argumento a expressão “como fazer cordel”. Não é para menos. Quando se digita essas três palavras no Google, e se clica “pesquisar”, a primeira URL da lista de resultados é o post “A técnica de fazer cordel”, de 02/07/2007. A segunda URL é “A técnica de fazer cordel II”, continuação da primeira.
Acredito que esses textos venham ajudando muita gente a elaborar os seus próprios cordéis, mas admito que eles me parecem mais úteis para mostrar as possibilidades de criação que para ajudar a criar.
Como fazer um cordel? Certamente, cada poeta tem o seu método de trabalho, mas deve haver pontos em comum. Falarei um pouco sobre o meu próprio método.
Quem nunca fez um cordel, pode tentar seguir esse caminho, e ver como se sai. À medida que for ganhando habilidade, pode ir adequando o método ao seu jeito próprio de fazer as coisas.
Penso que a primeira coisa a se fazer é escolher o tema. Não dá para desenvolver bem qualquer atividade escrita sem saber sobre o que se vai escrever; é claro que às vezes acontece de surgir uma idéia espontaneamente. Os fatos dos dia a dia são uma ótima fonte de inspiração, como destaco em “Uma visita inesperada”:
Para fazer os meus versos
Não falta matéria prima
Um elevador que desce
Um outro que vai pra cima
Uma van que vai parando
E nela alguém vai chegando
Atrasado pro trabalho.
Numa mesa improvisada,
Alguém vende, na calçada,
Caneta, isqueiro e baralho.
Mesmo assim, é preciso estar seguro quanto ao ponto central da obra, até para saber o caminho que se pretende seguir. Ao decidir fazer um cordel sobre um assalto ao qual assistiu na rua, você deve saber se o seu cordel terá como foco narrar o assalto, ou falar da violência urbana. Certamente que uma opção não exclui a outra. Em uma narração, sempre dá para fazer reflexões, e vice-versa, mas há que se definir a predominância.
Por falar em predominância, identifico alguns tipos de cordel:
a) Cordéis Narrativos, que contam uma história, um caso, um fato pitoresco. Podem ser subdivididos em:
1) Ficção, quando narra um fato criado pela imaginação humana, ainda que baseado em fatos reais (p.ex. “A chegada de Lampião no Inferno”), podendo ser:
i) Original, quando o próprio autor dos versos é também autor do enredo; e
ii) Adaptação, quando o autor dos versos aproveita um enredo já existente. Muito usada em relação aos clássicos da literatura.
2) Não ficção, quando o autor se propõe a narrar fatos efetivamente ocorridos (p.ex: “O ataque de Lampião a Mossoró”);
b) Cordéis dissertativos, quando o autor comenta, analisa, opina sobre determinados fatos. Muito usado para tratar de temas políticos e econômicos de interesse da população (p.ex: Cordel sobre as prisões brasileiras);
c) Cordéis descritivos, quando o autor “desenha” um cenário com seus versos. Jessier Quirino faz isso com maestria em “Paisagens do Interior” e “Parafuso de Cabo de Serrote”;
d) Cordéis em homenagem a algo ou alguém. Uma cidade, um herói, um mito, conforme se vê em “O Vôo da Patativa”, de Dideus Sales, homenageando Patativa do Assaré.
Definidos o tema e o tipo, já se pode estabelecer a mensagem central a ser transmitida, a qual pode se constituir em um “mote”. Mote é o tema sobre o qual o poeta desenvolve os seus versos, exposto no último verso da estrofe ou nos dois últimos, quando é mote de duas linhas.
Feito isso, é hora de escolher a forma. Aqui, o leitor pode buscar qualquer uma das formas relacionadas nos posts “A técnica de fazer cordel", I e II, ou criar uma nova – o que só é aconselhável para quem tem muita prática no assunto.
É bom lembrar as seguintes dicas: a) versos e estrofes mais longas funcionam melhor para temas mais complexos; b) o cordel fica melhor de ler quando cada estrofe encerra uma idéia completa, formando um conjunto harmônico.
Outra dica importante: versos curtos são melhores para situações em que se pretende dar idéia de velocidade.
Pronto. Se você já sabe o que vai dizer, quantas sílabas pode usar em cada linha e quantas linhas em cada estrofe, está com quase tudo pronto. Faltam só as rimas. Se você não tem muita prática em rimar, comece com sextilhas, rimando os versos 2, 4 e 6, e deixando os ímpares livres. Escreva a segunda linha pensando nas palavras que usará para terminar os outros dois versos pares, e deixe as idéias irem fluindo. Já há dicionários de rimas na Internet (Dicionário de Rimas; Rimador - SONETOS.com.br), isso pode ajudar, especialmente quem está começando.
Às vezes a necessidade de rimar nos afasta um pouco do que queremos dizer imediatamente; isso é normal; é aí que você vai descobrir o prazer de dizer as coisas de um jeito diferente, inesperado, algumas vezes inserindo palavras que não seriam necessárias, para fechar a métrica, outras, usando de muito poder de síntese, para dizer muito em um só verso. Gosto mais da segunda opção.
Para finalizar, não custa lembrar a “Receita para Cordel”, de Mundim do Vale, postada neste blog, na qual o poeta dá verdadeira aula prática, mostrando, em versos, todos os caminhos que um bom cordelista deve seguir.
Algumas palavras finais, mas não menos importantes: cada vez mais consolida-se o pensamento de que o cordelista deve buscar escrever corretamente. Como bem ensina Arievaldo Viana, um ou outro erro que passe, é porque o autor errou mesmo, pois todos estamos sujeitos a isso. O cordel tem ajudado muita gente a aprender a ler. Assim, se temos condição de escrever corretamente, devemos fazê-lo.
Depois de um mês fora do ar, Mundo Cordel volta à ação, e o faz exatamente onde havia parado, ou seja, falando do poeta PAULO BENZ, co-autor da poesia apresentada no post anterior. Pra quem ainda não sabe, PAULO BENZ foi um dos premiados no Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães, de 2004, o qual gerou o livro “Poetas do RN”, chegando em terceiro lugar na edição de 2006 do mesmo concurso. Embora sua especialidade não seja o Cordel, é uma honra trazer hoje uma de suas poesias publicadas na obra citada acima:
NOITE DESSAS
Se ao menos causassem os olhares esse modo Estulto que tenho de carregar as minhas frases na alma... Mas nada, quanto menos, menos, Se não sombreia a vontade, quem dirá a dor de mundo... Nas mesas recurvadas de alguns desses lares noturnos Os garçons não atendem só aos desesperados, Quando as vagas lembranças são garrafas na vitrine E massas de delicados lábios se encontram sem plano, Se teu gosto... ah, esqueça, Vinhos não são iguais, como poderíamos... E as margens eternas do rio sem suas águas Perenizam qualquer motivo.
Gestos, para quem deles depende, E uma suave atenção ao suceder de esquinas Quando o ponteiro da velocidade Ultrapassa o razoável... Mas amanhã estarei sentado em minha sala Como mesmo se nada em mim houvesse Além da fronte suada...
Recebi ontem convite para o lançamento do livro A HORA AZUL DO SILÊNCIO, do poeta Mossoroense MARCOS FERREIRA. A obra foi premiada na primeira edição nacional dos ‘Prêmios Literários Cidade de Manaus’, categoria Melhor Livro de Poesia – 2006.
Eu já peguei meu exemplar ontem mesmo, e dei uma boa lida antes de dormir. Com a permissão do poeta, transcrevo
O MENDIGO
Esse que você vê tão sem destino
feito carta jogada de um baralho
já foi muito benquisto e muito fino,
apesar dessa forma de espantalho.
Esse velho cansado peregrino
também teve seu lar e seu trabalho.
Não viveu toda a vida em desatino,
como triste e perdido rebotalho.
Pois quem diz há mais tempo conhecê-lo,
me garante que tanto desmantelo
tem alguma mulher por responsável...
Sendo assim, nós o vemos todo dia
carregando a suposta fantasia
por aquela que o fez tão miserável.
O lançamento ocorrerá hoje, às 18 horas, na Livraria Café & Cultura, em Mossoró. Veja o convite abaixo, que, aliás, é uma réplica da bela capa do livro:
Terminou ontem a FEIRA DO LIVRO DE MOSSORÓ, versão 2007. Lá estive no sábado (27) à noite e gostei do movimento. Muita gente visitando as lojas e no Circo da Luz também. Demorei especialmente no stand da Editora Queima Bucha, conversando com meu amigo Gustavo Luz sobre o mundo da literatura de cordel. Saí com uma sacola cheia de cordéis, desde clássicos, como A PELEJA DE RIACHÃO COM O DIABO e a HISTÓRIA DE JUVENAL E O DRAGÃO, de Leandro Gomes de Barros, a obras mais recentes, como PAULO, O FARISEU QUE VIROU CRISTÃO e A HISTÓRIA DO COMEÇO DO MUNDO – A TEORIA DO BIG BENG, de Fernando Paixão, aliás, ambos de ótima qualidade em rima, métrica e oração. Cabra bom esse Fernando Paixão! Mas de tudo o que vi, chamou-me particularmente a atenção a edição de cordéis voltados para o público infantil, publicados pela Editora IMEPH, de Fortaleza. Com linguagem simples, métrica e rima perfeitas, e gramática correta, os livros ainda vêm com ilustrações muito bem trabalhadas. As obras que vi são as seguintes, e as capas estão na imagem acima: A SEMENTE DA VERDADE: adaptação do conhecido conto de mesmo título, escrita por Fernando Paixão, com ilustrações de Arlene Holanda; O PAVÃO MISTERIOSO: adaptação do romance de cordel de José Camelo, escrita por Arievaldo Viana, com ilustrações de Jô Oliveira. UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ: de Rouxinol do Rinaré, com ilustrações de Rafael Limaverde. É muito bom ver o cordel sendo utilizado na educação das crianças, sem falar que elas adoram e se divertem muito com a leitura. Parabéns a todos que vêm apoiando essas iniciativas! Segue um trecho de
UM CURUMIN, UM PAJÉ E A LENDA DO CEARÁ
Vento que sopra do mar Enquanto a tarde desmaia Vem contar-me a antiga lenda Que corre da serra à praia A Lenda do Ceará “Terra onde canta a Jandaia”.
Dizem que há muito tempo No mais distante passado Onde hoje é o Ceará O nosso querido Estado Era um chão virgem, somente Por nativos habitado.
Nossos índios eram livres, Dos litorais às ribeiras, Nos sertões e altas serras Viviam tribos guerreiras E as Jandaias cantavam Pelas copas das palmeiras.
Até que um dia homens maus Chegaram aqui pelo mar, Vindos de outras nações Para esta terra explorar E pela força e astúcia Puderam, enfim, dominar.
Nossos índios reagiram Aos tais colonizadores, Uns morreram, outros fizeram Acordo com os invasores... Pois os vencidos se tornam Escravos dos vencedores!
Num tempo ainda distante, Mas já próximo do presente, Quando com a posse das terras Ficou o branco somente, No litoral tinha ainda Uma tribo remanescente.
E nessa tribo um costume Ainda era preservado Sentava-se um Pajé velho Por curumins rodeado Junto à fogueira e contava As histórias do passado.
E assim segue a história, contando a lenda que retrata a história daquela tribo.
Deslocando-me de Mossoró para Fortaleza, parei pertinho da capital cearense - já na parte onde a CE-040 se confunde com a Avenida Washington Soares - para comer uma tapioca com chocolate quente. Geralmente, toma-se a tapioca com café, mas não gosto de café. Cheguei já pensando na tapioca recheada com queijo e ovo, mas, na entrada do estabelecimento, outro recheio completou o repasto: o cordel “A PELEJA DE ZÉ DO JATI COM ZÉ LIMEIRA”, de Anchieta Dantas, o “Zé do Jati”, conhecido personagem do Programa Garras da Patrulha, da TV Diário, de Fortaleza.
Pra quem não conhece, Jati é uma pequena cidade situada bem no sul do Ceará, quase na divisa com os Estados de Pernambuco e da Paraíba, onde no passado mandavam os índios Kariris.
Já tive oportunidade de incluir Jati em meus versos, quando falei da chegada da Justiça Federal ao Cariri:
Pois a Vara Federal, Instalada em Juazeiro, Cidade de muita fé, Que acolhe tanto romeiro, Tem sua jurisdição Começando no sertão E subindo pelas serras, Até chegar a um lugar De onde dá pra olhar Pernambuco e suas terras.
Começando seu alcance Nas terras do centro-sul, A partir de Acopiara, Passando por Iguatu, Se estende até Mauriti, De Brejo Santo a Jati, Alargando suas fronteiras Baixio, Ipaumirim, Farias Brito e Jardim, Campos Sales e Porteiras.
Sobre o Zé do Jati, disse a jornalista Lea Queiroz, “é autor dos livros NÓS E A METRÓPOLE, O PASSAGEIRO DO TEMPO e RANCHO NOVA ESPERANÇA. Diz a JORNALISTA ISABEL PINHEIRO, que acompanha seus feitos literários há 20 anos, trata-se de uma obra literária que desperta a atenção e mexe com as emoções mais escondidas”.
ZÉ LIMEIRA Getúlio Vargas morreu Foi com saudade da esposa Lampião inda tá vivo Morando perto de Sousa Por detrás do Sete-Estrelo Tem um casal de raposa.
ZÉ DO JATI Foram amigos e compadres Julio César de Lampião E sócios em uma fábrica De chocolate e sabão E um dia de madrugada Ficaram sem fazer nada Numa noite de São João.
ZÉ LIMEIRA Santo Antonio foi pescar Mussú no rio Jordão Quando jogou o anzol Arrastou um camião Deu-lhe uma caimbra no pé Nisso passou São José Com três abrroba de pão.
ZÉ DO JATI Nelson Piquet comprovou Que é um grande vaqueiro São Tomé já fez promessa Pra pagar no Juazeiro E São José numa vã Faz lotação de manhã De Cabrobó a Salgueiro.
ZÉ LIMEIRA Jesus ia rezar missa Na capela de Belém Chegou Judas Carioca Que viajava de trem Trazia trinta macaco Botou tudo num buraco Não tinham nenhum vintém.
ZÉ DO JATI Jesus nasceu em Belém Pertinho de Cabrobó Quando passou Jati Já era “quage” de maió Passou dirigindo um jipe Com febre e com muita gripe Em busca de Mossoró.
Antes de retomar os estudos sobre a técnica de se fazer um cordel, mais um momento daqueles em que a gente faz um cordel meio de improviso, pra registrar um momento importante, agradável ou os dois.
Era fevereiro de 2006, e eu e minha esposa, Natália, estávamos viajando pelo litoral do Nordeste Brasileiro, no navio Pacific. Toda noite acontecia um show no salão principal do navio. Na última noite, o show era “O Turista é o Artista”, e era feito, obviamente, pelos próprios passageiros.
Quando soube disso, logo pela manhã, fiz imediatamente um cordel, registrando os principais pontos da viagem. À tarde, ensaiei com a banda, pois o mote seria apresentado como um refrãozinho cantado, e à noite apresentei a peça. O pessoal se divertiu um bocado.
Para minha maior alegria, Natália registrou tudo com nossa câmera digital. O clipe está aí em cima; o texto, abaixo:
NAVEGANDO Por Marcos Mairton
Quando olhei para o navio Atracado ali no cais Eu pensei como seria Muito bom, até demais, Conhecer os litorais As praias do meu Brasil Aquelas que Cabral viu Quando aqui foi chegando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
Embarquei todo animado Na maior felicidade Mais feliz fiquei ainda Quando vi minha cidade Já olhando, com saudade, Para o barco que partia Dentro dele, eu lhe dizia: – Logo estaremos voltando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
Daquele dia até hoje Navegamos um bocado Do balanço do navio Nunca fiquei enjoado Fiquei foi maravilhado De encontrar tanta beleza Que Deus ou a Natureza Por aqui foi espalhando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
Foram tantas belas praias Que daqui pudemos ver Que na memória gravamos Pra nunca mais esquecer Que nem tento descrever Com palavras o que vimos Desde o dia em que partimos Neste navio embarcando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
Mas como nada acontece Do jeito que a gente sonha Não pude desembarcar Em Fernando de Noronha Moça, não fique tristonha, Foi pra nossa segurança Tenho muita esperança De voltar, só não sei quando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
Aqui do lado de dentro Desta bela embarcação Recebemos o carinho De toda tripulação Vou dizer: - Ó capitão! Comandante Antonio Pata A vossa equipe me trata Como um rei, tá me mimando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.
É hora da despedida Já começo a ter saudade Do navio, das pessoas, De cada nova amizade Volto pra minha cidade No próximo amanhecer Mas nunca vou esquecer Deste Salão Carousel Do Lennon e do Iel, Nem da Banda Salvatagem De, durante a viagem, Andar no Deck Riviera, Aloha, Lido, quem dera, Voltar aqui, novamente, E encontrar toda essa gente Que estou encontrando Navegando, navegando, No oceano a deslizar E o Pacific me levando Sobre as ondas do mar.