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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Cordel e Internet

A imagem acima é a tela do site da Academina Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC (www.ablc.com.br)

DO FOLHETO DE CORDEL PARA O CORDEL VIRTUAL

A união entre a Literatura de Cordel e Internet vem se consolidando, mostrando a grande versatilidade desse gênero literário. A cada dia surgem novos sites e blogs tratando do assunto, o que só tem feito aumentar o interesse e a divulgação do Cordel. O fenômeno já atrai a atenção de estudiosos do assunto, como se vê no artigo “DO FOLHETO DE CORDEL PARA O CORDEL VIRTUAL: INTERFACES HIPERTEXTUAIS DA CULTURA POPULAR”, de
Madson Góis Diniz, disponível no site do Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologia Educacional – NEHTE, da Universidade Federal de Pernambuco, cujo resumo diz o seguinte:

O famoso folheto de cordel tão comum nas feiras do nordeste brasileiro parece ter alcançado o terreno do cyberespaço. O fenômeno da globalização e a instauração dos paradigmas tecnocráticos e mediáticos acabam por imprimir uma nova dinâmica na cultura popular, fazendo re-leituras dessa em vários âmbitos das tradições, reinterpretando e às vezes modificando o fenômeno cultural em si. No caso do cordel, alguns poetas populares partiram em busca do hipertexto como forma de divulgar seus trabalhos, fazendo com que essa transição de espaços provoque intervenções complexas no gênero em questão. A hibridização da cultura popular acionada pelas novas práticas mediatizadas e hipertextuais estaria pondo em risco uma tradição ou simplesmente ampliando e agregando um novo conceito à poesia popular? - Refletir a esse respeito será portanto o objetivo desse artigo, que terá por base traçar a transição do folheto de cordel, da matriz impressa para o virtual, e como o elemento tecnológico tem influenciado o respectivo gênero literário.

Acesse o texto completo em
http://www.ufpe.br/nehte/revista/artigo11-madson-gois.pdf.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A técnica de fazer cordel III

Figura obtida no Blog da Allan Campos:
(http://allancampos.wordpress.com/2008/04/08/governo-joga-mal-para-manter-professores-em-sala-de-aula/)

COMO FAZER CORDEL

A maioria das visitas a Mundo Cordel chega por meio de ferramentas de busca, tendo como argumento a expressão “como fazer cordel”. Não é para menos. Quando se digita essas três palavras no Google, e se clica “pesquisar”, a primeira URL da lista de resultados é o post “A técnica de fazer cordel”, de 02/07/2007. A segunda URL é “A técnica de fazer cordel II”, continuação da primeira.



Acredito que esses textos venham ajudando muita gente a elaborar os seus próprios cordéis, mas admito que eles me parecem mais úteis para mostrar as possibilidades de criação que para ajudar a criar.

Como fazer um cordel? Certamente, cada poeta tem o seu método de trabalho, mas deve haver pontos em comum. Falarei um pouco sobre o meu próprio método.
Quem nunca fez um cordel, pode tentar seguir esse caminho, e ver como se sai. À medida que for ganhando habilidade, pode ir adequando o método ao seu jeito próprio de fazer as coisas.

Penso que a primeira coisa a se fazer é escolher o tema. Não dá para desenvolver bem qualquer atividade escrita sem saber sobre o que se vai escrever; é claro que às vezes acontece de surgir uma idéia espontaneamente. Os fatos dos dia a dia são uma ótima fonte de inspiração, como destaco em “Uma visita inesperada”:

Para fazer os meus versos
Não falta matéria prima
Um elevador que desce
Um outro que vai pra cima
Uma van que vai parando
E nela alguém vai chegando
Atrasado pro trabalho.
Numa mesa improvisada,
Alguém vende, na calçada,
Caneta, isqueiro e baralho.

Mesmo assim, é preciso estar seguro quanto ao ponto central da obra, até para saber o caminho que se pretende seguir. Ao decidir fazer um cordel sobre um assalto ao qual assistiu na rua, você deve saber se o seu cordel terá como foco narrar o assalto, ou falar da violência urbana. Certamente que uma opção não exclui a outra. Em uma narração, sempre dá para fazer reflexões, e vice-versa, mas há que se definir a predominância.

Por falar em predominância, identifico alguns tipos de cordel:

a) Cordéis Narrativos, que contam uma história, um caso, um fato pitoresco. Podem ser subdivididos em:
1) Ficção, quando narra um fato criado pela imaginação humana, ainda que baseado em fatos reais (p.ex. “A chegada de Lampião no Inferno”), podendo ser:
i) Original, quando o próprio autor dos versos é também autor do enredo; e
ii) Adaptação, quando o autor dos versos aproveita um enredo já existente. Muito usada em relação aos clássicos da literatura.
2) Não ficção, quando o autor se propõe a narrar fatos efetivamente ocorridos (p.ex: “O ataque de Lampião a Mossoró”);
b) Cordéis dissertativos, quando o autor comenta, analisa, opina sobre determinados fatos. Muito usado para tratar de temas políticos e econômicos de interesse da população (p.ex: Cordel sobre as prisões brasileiras);
c) Cordéis descritivos, quando o autor “desenha” um cenário com seus versos. Jessier Quirino faz isso com maestria em “Paisagens do Interior” e “Parafuso de Cabo de Serrote”;
d) Cordéis em homenagem a algo ou alguém. Uma cidade, um herói, um mito, conforme se vê em “O Vôo da Patativa”, de Dideus Sales, homenageando Patativa do Assaré.

Definidos o tema e o tipo, já se pode estabelecer a mensagem central a ser transmitida, a qual pode se constituir em um “mote”. Mote é o tema sobre o qual o poeta desenvolve os seus versos, exposto no último verso da estrofe ou nos dois últimos, quando é mote de duas linhas.

Feito isso, é hora de escolher a forma. Aqui, o leitor pode buscar qualquer uma das formas relacionadas nos posts “A técnica de fazer cordel", I e II, ou criar uma nova – o que só é aconselhável para quem tem muita prática no assunto.

É bom lembrar as seguintes dicas: a) versos e estrofes mais longas funcionam melhor para temas mais complexos; b) o cordel fica melhor de ler quando cada estrofe encerra uma idéia completa, formando um conjunto harmônico.
Outra dica importante: versos curtos são melhores para situações em que se pretende dar idéia de velocidade.

Pronto. Se você já sabe o que vai dizer, quantas sílabas pode usar em cada linha e quantas linhas em cada estrofe, está com quase tudo pronto. Faltam só as rimas. Se você não tem muita prática em rimar, comece com sextilhas, rimando os versos 2, 4 e 6, e deixando os ímpares livres. Escreva a segunda linha pensando nas palavras que usará para terminar os outros dois versos pares, e deixe as idéias irem fluindo. Já há dicionários de rimas na Internet (Dicionário de Rimas; Rimador - SONETOS.com.br), isso pode ajudar, especialmente quem está começando.
Às vezes a necessidade de rimar nos afasta um pouco do que queremos dizer imediatamente; isso é normal; é aí que você vai descobrir o prazer de dizer as coisas de um jeito diferente, inesperado, algumas vezes inserindo palavras que não seriam necessárias, para fechar a métrica, outras, usando de muito poder de síntese, para dizer muito em um só verso. Gosto mais da segunda opção.
Para finalizar, não custa lembrar a “Receita para Cordel”, de Mundim do Vale, postada neste blog, na qual o poeta dá verdadeira aula prática, mostrando, em versos, todos os caminhos que um bom cordelista deve seguir.

Algumas palavras finais, mas não menos importantes: cada vez mais consolida-se o pensamento de que o cordelista deve buscar escrever corretamente. Como bem ensina Arievaldo Viana, um ou outro erro que passe, é porque o autor errou mesmo, pois todos estamos sujeitos a isso. O cordel tem ajudado muita gente a aprender a ler. Assim, se temos condição de escrever corretamente, devemos fazê-lo.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Cordel e Xilogravura


XILOGRAVURA E COMUNICAÇÃO POPULAR
Trecho do livro XILOGRAVURA POPULAR NA LITERATURA DE CORDEL, de Jeová Franklin
A imagem acima foi obtida em http://blog.teatrodope.com.br/2007/05/09/literatura-de-cordel-xilogravura-temas-e-ensino/

A Literatura de Cordel constitui-se no mais extraordinário meio impresso de comunicação popular no Brasil e, talvez, no mundo. Ela atingiu, entre as décadas de 1940 e 1950, audiência calculada em 30 milhões de pessoas, quase um terço da população brasileira. Os próprios poetas, semi-analfabetos, escreviam ou pediam para escreverem sua produção, parte dela ilustrada com xilogravura.

Os primeiros folhetos de cordel eram publicados em tipografia e se espalharam na região nordestina, pelas praças e feiras. Era um sistema de jornalismo matuto que funcionava, com notícias e anúncios de morte de personagens históricos, como Antonio Silvino e Lampião.

No princípio, os livretos eram encontrados em estações de trens, feiras e mercados públicos da Amazônia à Bahia. Leandro Gomes de Barros e Chagas Batista, no início do século XX, se valiam de tipografias de terceiros em Pernambuco e na Paraíba. Depois, passou Leandro a ter gráfica própria e os parentes de Chagas Batista utilizaram as gráficas instaladas em Guarabira e João Pessoa.

Leandro tinha falecido em 1918 e João Martins de Athayde comprou dos herdeiros todo o acervo de títulos deixado pelo poeta. Athayde transformou a rústica produção artesanal em atividade de considerável porte no Recife. Montou a maior folhetaria do Nordeste e foi o introdutor dos atuais modelos do cordel.

Athayde fez a empresa crescer, mas ignorou a produção da xilogravura na literatura popular em versos. Preferia as figuras de artistas de cinema norte-americano publicadas pela imprensa do Recife ou figuras de cartões românticos importados. No primeiro caso eram estampas em zincografia dos anúncios de artistas da moda atiradas no lixo, depois de o filme sair de cartaz.

Endividado e por sofrer infarto, Athayde vendeu a tipografia em 1949. O comprador foi o poeta alagoano José Bernardo da Silva que já tinha gráfica própria. Ele levou para Juazeiro do Norte todo o acervo de títulos, inclusive o de Lenadro para editá-los na Tipografia São Francisco, montada em 1926, no Juazeiro do Norte. Tinha permissão e benção do Padre Cícero Romão Batista. Ele já se impunha como maior distribuidor de folhetos do Nordeste.

Incorporando a sua gráfica antiga, à Tipografia São Francisco, esta assumiu a posição de maior folhetaria do país. Então a xilogravura, a mais importante expressão pictórica da fantasia nordestina, ganhou prestígio na gráfica dirigida por José Bernardo. A aplicação da gravura popular se difundiu pelo Nordeste depois das primeiras e inseguras experiências com a impressão das capas em xilogravura. Juazeiro do Norte, antes da aquisição da tipografia de Athayde, já tinha uma longa experiência na feitura de gravuras encomendadas pela gráfica de José Bernardo da Silva e Manoel Caboclo.

terça-feira, 4 de março de 2008

Cordel e comunicação (Mundim do Vale)



A IMPORTÂNCIA DO CORDEL
Mundim do Vale

Meu caro leitor amigo
Veja um relato fiel,
Eu já rimei a viola
Que faz bem o seu papel.
Agora passo a rimar,
Na cultura popular
A importância do cordel.

No sertão antigamente
Não tinha televisão
O sertanejo vivia
Carente de informação.
O rádio lá não chegava,
E o cordel é quem levava
Notícias para o sertão.

Quando pego num folheto
Me vem a grande lembrança,
Da ligação com cordel
Desde o tempo de criança.
Só sabia soletrar.
Mas consegui decorar
Os Doze Pares de França.

O cordel tem seu valor
Por ser de fácil leitura.
Tem muita arte na capa
Feita em xilogravura.
A métrica faz a grandeza,
A rima gera beleza
Para elevar a cultura.

Foi o cordel que falou
Dos crimes de Lampião
Foi também um seguidor
Do santo Frei Damião.
Fez morada em Juazeiro,
E deu apoio ao romeiro
Do Padim Ciço Romão.

Alfabetizou o pobre
Que não tinha condição
De freqüentar a escola
Pra receber a lição.
Foi o grande mensageiro,
De Antônio Conselheiro
O profeta do sertão.

O cordel já fez campanha
Em tempos de eleição.
Na seca de trinta e dois
Falou da destruição.
Fez festa em dia de feira,
Para o povo da ribeira
Pendurado num cordão.

O cordel tem união
Também com o repentista
Um exemplo do que falo
É Lucas Evangelista.
E falando em qualidade,
Eu lembro a capacidade
Da trindade irmãos Batista.

Eu fico muito feliz
Vendo o cordel resgatado,
Sabendo que hoje é feito
Com o papel resgatado.
Eu acho muito importante,
Não deixar o cordel distante
Como um valor do passado.

O cordel noticiou
Para o povo nordestino,
O suicídio de Vargas
E a prisão de Antônio Silvino.
Deu notícia da chacina,
No Largo da Catarina
Quando morreu Virgulino.

Falou daquela promessa
Do carregador da cruz,
Escreveu nas suas páginas
Que logo chegava a luz.
Rimou com muito talento,
A história do jumento
E o menino Jesus.

Se o leitor duvidar
Não acreditando em mim,
Saiba que o cordel já foi
Leitura até de jardim.
No nordeste brasileiro,
O cordel foi o primeiro
A falar do meu Padim.

Hoje em dia essa cultura
Foge um pouco do normal,
Pois os novos cordelistas
Procuram tema atual.
Falam da gíria da rua,
De mulher andando nua
E de briga de casal.

Tem aí a jovem guarda
Que ainda tá resistindo,
Mas de vez em quando eu vejo
Alguns deles desistindo.
Mas como tem resistente,
Como o vate Zé Vicente
O folheto vai fluindo.

A Cícero Modesto Gomes
O cordel me apresentou,
Poeta do Maranhão
Que no Ceará ficou.
Já rimou o Ceará,
De Sobral a Quixadá,
Pacajus e Quixelou.

Numa banca eu conheci
Edson Neto e Elizeu,
J. B. Num terminal
E um cordel ele me deu.
O poeta Zé Maria,
Conheci em cantoria
Divulgando um mote meu.

Outro poeta famoso
Criado aqui no sertão,
É o bom Arievaldo
Que do Klevison é irmão.
Avançou como um corcel,
Quando implantou o cordel
No setor da educação.

O doutor Sávio Pinheiro
Bom poeta e gente fina,
Já rimou o pé da serra
E a bodega da esquina.
Agora com mais virtude,
Botou cordel na saúde
Para o bem da medicina.

No Rio Grande do Norte
Onde a rima é atração,
Tem o local do poeta
Fazer a divulgação.
Já usei aquele espaço,
E daqui mando um abraço
Pra Mairton e Anizão.

Mas foi lá na Paraíba
Que o cordel chegou primeiro,
Era a grande novidade
Chegada do estrangeiro.
Posso dizer sem engano,
No sertão paraibano
O cordel foi pioneiro.

Quem também foi cordelista
Foi o bom Rogaciano
Foi repórter em Fortaleza
Mas era pernambucano.
Fez muita falta a cultura,
Com a morte prematura
Foi rimar no outro plano.

No Ceará o melhor
Com ele tomei café,
Aguarde só um instante
Que digo já já quem é.
Cantou lá e cantou cá
O Pássaro do Ceará
Patativa do Assaré.

Chegando agora ao final
Já faltando inspiração,
Peço desculpa aos colegas
Se houve alguma omissão.
Fiz esse verso bebendo,
Todo tempo defendendo
O cordel como atração.

Mandei mensagem bregeira
Unida com a poesia,
Negando ter intenção
De fazer apologia.
Inseri no Blogspot
Mundo Cordel avalia.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Cordel e comunicação (Marcos Mairton e Paulo Benz)



FAZENDO POESIA COM O AMIGO PAULO BENZ

A Rádio Mundo Cordel traz hoje, ao som do violão de Nonato Luiz, com a música "Rio Reno", uma poesia inspirada em e-mails que troquei com o poeta Paulo Benz.
Na verdade, parte da poesia é dele, pois aconteceu em um dia no qual conversávamos em versos.


A “Quinta de Poesia” à qual a poema se refere é mera ficção, mas que importância tem isso? O que importa um fato ter ou não acontecido, um lugar existir ou não, se no mundo dos poetas a realidade e a fantasia se misturam, e eles nunca sabem direito distinguir uma coisa da outra.


E quem sabe distinguir a realidade da fantasia?

CONVERSA DE POETA
(ou e-mails trocados entre dois poetas, combinando uma reunião)
Autor: Marcos Mairton, com participação muito especial de Paulo Benz

– Ó poeta, meu amigo,
Escrevo pra lhe avisar
Que a “Quinta de Poesia”
Que costumo organizar,
E ocorre toda vez,
Sempre e sempre, a cada mês,
Na primeira quinta-feira,
Vai cair em outro dia.
Porque senão ficaria
Pra mim, muito complicado.
Mas na terça dará certo.
Vá de coração aberto
E com o verso preparado.

– Olha, que interessante,
A quinta na terça-feira.
É possível que alguém queira,
Ter uma idéia brilhante,
Pra, de agora em diante,
A segunda ser na sexta.
E eu, que não sou nem besta,
Atraso o domingo um dia,
O sábado ficaria
Com quarenta e oito horas
Pra contemplar fauna e floras
Fazer amor e poesia.

– Fazer amor e poesia,
Era isso que eu queria.
Pegava, no calendário,
Só a folha do domingo,
Tirava cópias a esmo,
Sem da tinta perder pingo,
Renumerava o mês todo
Só com folhas desse dia.
E ficava olhando o povo
Na sua vã correria,
Enquanto eu, descansado,
Repetiria meus versos,
Só pra conversar fiado,
Na praia, c’os pés imersos.

– Na praia, c’os pés imersos
Na água fria do mar
Sentado numa cadeira
Dessas de se balançar,
Lendo “O direito à preguiça”,
Onde Paul diz, com justiça,
Que ela é mãe das invenções.
Por isso, as intenções,
Que tenho agora em meu ser
São de achar um paraíso
Onde não será preciso
Trabalhar nem escrever.

– Trabalhar nem escrever?
Não é um pouco demais?
Como poderás ter paz,
Suspendendo teus escritos?
Os teus amigos, aflitos,
Irão à tua presença,
Talvez, sem pedir licença,
Adentrarão em teu lar
Chegarão a implorar
Que voltes a escrever
E tu, já posso prever,
Começarás a chorar!

– Já comecei a chorar,
Só de ler tua poesia.
Eu não imaginaria
Resposta dessa maneira.
Era só uma brincadeira
O que há pouco eu escrevia.
Parar de fazer poesia
Não depende de eu querer
Me desculpe por dizer
Que pensei nisso algum dia.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A técnica de fazer cordel

Gravura da capa do livro "Cantadores", de Leonardo Mota

A MÉTRICA NA ELABORAÇÃO DA POESIA DE CORDEL

Certa vez ouvi William Brito, da Academia dos Cordelistas do Crato, dizer que o cordel é uma daquelas coisas que a gente primeiro aprende a fazer e depois aprende como é que faz.

De fato, pelos tantos nomes importantes da Literatura de Cordel que tiveram pouco estudo, é possível perceber que muitos passam a vida fazendo – ou pelos começam a fazer - as poesias, sem nunca ter estudado a contagem das sílabas ou a estrutura das rimas. Essas pessoas simplesmente têm o dom da poesia, dom esse muitas vezes despertado ao ouvir as pelejas dos cantadores nos desafios, ou a declamação dos cordéis, lidos ou decorados.

Isso não quer dizer que não seja importante estudar as técnicas, pois mesmo aqueles que nasceram com o dom, ou que aprenderam a arte do versejar na prática, acabam por aprender o que é uma sétima, uma décima, ou um galope à beira-mar. Além do que, a Literatura de Cordel é extremamente exigente com a forma, somente sendo reconhecida como de boa qualidade quando atende aos requisitos de rima, métrica e oração, como bem observa Arievaldo Viana, no Acorda Cordel na Sala de Aula:

Porém, professor, cuidado!
Escute o que eu vou dizer:
Nem todo folheto serve,
Tem que saber escolher.
Observe com atenção:
MÉTRICA, RIMA e ORAÇÃO,
Todo cordel deve ter.

No mesmo livro, Zé Maria de Fortaleza, explica:
Métrica: é a medida das sílabas de cada verso, em determinado gênero.
Rima: é a correspondência entre sons, com palavras diferentes.
Oração: é a coerência, encadeamento, coordenação, precisão, objetividade e fidelidade ao tema.

Neste texto, dedicar-me-ei especificamente à métrica, deixando a rima e a oração para outros que ainda pretendo escrever.

De uma certa forma, é a métrica que define os vários gêneros de poesia utilizados pela Literatura de Cordel. Leonardo Mota, em sua obra “Cantadores”, destaca os gêneros poéticos comumente utilizados pelos cantadores, cuja nomenclatura leva em consideração os seguintes conceitos: “obra é qualquer estrofe; é o verso, a linha”. Daí a denominação que se verá nos exemplos a seguir: “obra de seis, sete ou oito pés”.

Os estilos citados pelo autor são os seguintes, em cujos exemplos fiz correções na escrita, pois sou partidário do uso correto do vernáculo na Literatura de Cordel.

Obra de seis pés:

Agora vem-me à lembrança
Os passos do meu sertão
Pomba de bando, asa branca
Marreca, socó, carão,
Também pássaro pombinha
Arara e currupião.


Obra de sete pés:

Uma Carta de ABC
E uma velha Tabuada,
Um punhado de cordéis
Numa maleta encantada,
Me deram luz do saber.
Ali eu pude aprender
Até a História Sagrada.


Obra de oito pés

Gancho de pau é forquilha,
Catombo de pau é nó,
A franga pôs – é galinha,
O fumo ralado é pó,
Peitica cantou é chuva!
Pé de boi é mocotó,
Sumo de cana é cachaça,
Pé de goela é gogó.


Moirão de cinco pés:

Vamos cantar o moirão
Prestando toda atenção
Que o moirão bem estudado
É obra que faz agrado
E causa satisfação.


Moirão de sete (que é uma obra de sete pés):

Vamos cantar o moirão
Para o povo apreciar
Me diga logo o assunto
Em que nós vamos cantar
Meu colega, dê começo,
Que eu apenas me ofereço
Só mesmo pra acompanhar.


O martelo com versos de cinco sílabas, chamado de “embolada”:

Sou cobra de veado
Esturro de leão
Fiz pauta com o cão
Mato envenenado,
Sou desembaraçado,
Eu estruo gente,
Sou que nem serpente,
Rifle carregado,
Cantador lesado
Mato de repente.


O martelo com versos de sete sílabas, chamado “dez pés em quadrão”:

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio
Devido eu ser muito feio
As moças não me queriam
Quando prum forró eu ia
Com qualquer colega meu
Eles confiavam n’eu
Iam beber e brincar
No fim da fest’ia arengar,
Quem ia preso era eu.


O martelo com versos de dez sílabas, chamado “gabinete” ou "martelo agalopado". Neste, preferi usar uma estrofe minha como exemplo, do cordel "O viajante e o sábio":

Digo, ainda, com toda segurança,
Não se guarda a luz acesa num armário
Não se ensina padre nosso a vigário
A prudência é irmã da desconfiança
Não aceite o peso de qualquer balança
Pois nem todo rezador merece fé
Muita coisa parece mas não é
Muita coisa que é não se parece
Sob as vistas do dono a planta cresce
Um sapato não dá em qualquer pé.

Obra de nove por seis, estrofes de nove versos, dos quais seis têm sete sílabas, os três restantes – o segundo, o quinto e o oitavo – têm três:

Querendo mudar agora
Sem demora
Noutra obra eu pego e vou!
O que eu quero é que tu digas
Que em cantigas
Eu sou formado doutor!
Vamos mudar de toada,
Camarada,
Quero ver se és cantador...


A ligeira, quadra bipartida, de versos de sete sílabas, com a rima obrigatória em “á” e precedida do refrão “Ai, d-a-dá”:

Ai d-a-dá
Colega, pinique a polda
Se quiser me acompanhar
Ai!
Essa minha bola velha
Quanto eu mais puxo mais dá...


O quadrão:

Meu povo preste atenção
Agora é que eu vou cantar
Eu vou te dar um ensino...
Eu é que vou te aquietar...

O galope que, segundo o autor, é uma sextilha de decassílabos. Mas deve ter havido algum engano ou erro gráfico, pois sabe-se que o galope é sempre em versos de onze sílabas, como ocorre com o “galope à beira-mar”, cujos versos são de onze sílabas, só que em estrofes de dez versos. Aliás, o exemplo oferecido por Leonardo Mota é em onze sílabas, pelo menos nas quatro primeiras linhas:

Josué, o que é isso? Amansa, mano,
Que eu creio numa coisa é quando vejo...
Uma onça para mim é uma pulga,
Um tubarão pra mim é um percevejo,
E um tiro de rifle é caçoada,
É merenda de vim, de doce e queijo...

Veja mais em: