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sábado, 14 de maio de 2011

Conto-Cordel de Marcos Mairton


O ÚLTIMO CORDEL
Marcos Mairton
Publicado originariamente em "Contos, Crônicas e Cordéis

Já havia alguns meses que o velho poeta estava prostrado naquela cama de hospital. Muitas foram as vezes em que as enfermeiras comentaram que daquele dia ele não passaria. Mas o dia terminava e ele continuava firme. Quando dava a impressão de que não veria o amanhecer, acordava melhor. 

E o mais incrível era que, apesar da saúde tão debilitada, todo dia o velho poeta aparecia com versos novos. Às vezes uma simples quadrinha, falando da luz do sol que entrava pela janela; outras vezes um romance inteiro de cordel, em sextilhas, septilhas ou décimas; outras ainda, decassílabos elogiando os dotes físicos de alguma das enfermeiras ou reclamando da comida.

Ele escrevia os versos em um caderno e depois os declamava, geralmente depois do jantar. Quando estava muito abatido e não conseguia ler em voz alta, pedia a alguma enfermeira que fizesse a leitura. As pessoas que trabalhavam ali, e até os outros doentes daquela enfermaria, divertiam-se com aquilo e afeiçoavam-se ao velho poeta.

Com o tempo, a doença foi se agravando e ele não pôde mais escrever. Pediu então, a um de seus filhos, um gravador, para que pudesse continuar criando seus versos sabendo que depois alguém os passaria para o papel. Isto fez com que o velho poeta se tornasse uma atração ainda mais especial daquele lugar. Gente que trabalhava nas outras enfermarias - e até em outros andares do prédio - passava por lá e se demorava perto do seu leito para ouvi-lo gravando as declamações de seus versos.

Um dia ele recebeu a visita de um repórter. O jovem jornalista queria saber da sua vida, das suas obras, mas, principalmente, da sua capacidade criativa, estando tão doente. Afinal de contas, a história de seus dias fazendo versos no hospital havia se espalhado e agora ele estava bem mais famoso do que fora em toda a sua vida.

O velho poeta respondia com boa vontade - e até com alegria - cada uma das perguntas. A certa altura, o repórter perguntou, como quem encaminhava a entrevista para o final:

- Depois de tantos cordéis, tantos poemas, tantas histórias de heróis, fadas e amores proibidos, ainda ficou faltando algum assunto que você gostaria de tratar em seus versos?

O velho olhou para a porta da enfermaria por alguns segundos, pensativo. Os olhos fixos no vazio, como se observasse imagens que só ele via. Depois, ligou o gravador e pediu ao repórter que também ligasse o dele, pois tinha mais uma história para contar. E começou.

O velho poeta estava
Na cama de um hospital
Dando uma entrevista
Ao repórter de um jornal,
Mas, no meio dessa prosa,
Uma mulher bem formosa
Chegou naquele local.

Ela estava bem vestida,
Elegante e perfumada,
Entrou sem fazer barulho,
Discreta e muito educada.
Em seguida, aquela dama
Postou-se ao lado da cama
E ficou sem dizer nada.

O velho continuou
O que já estava fazendo.
Às perguntas do repórter
Prosseguia respondendo.
E, enquanto o tempo passava,
A mulher observava
O que ia acontecendo.

A verdade é que o poeta
Desde cedo esperava
A chegada da mulher
Que agora ali estava.
Pois há meses ela ia
Ver o velho todo dia
E ali horas ficava.

Apesar disso, o poeta
Não lhe deu muita atenção.
Falava com o repórter,
Dando mesmo a impressão
De que estava incomodado
Com a mulher ao seu lado,
Feito um anjo guardião.

O tempo ia passando
E o velho não se calava.
Até mesmo o repórter
Nada mais lhe perguntava,
Pois o poeta dizia,
Em forma de poesia,
Cada coisa que lembrava.

Até que, uma certa hora,
A mulher se irritou.
Ficou de frente pro velho
E nos seus olhos olhou,
Disse: “Não quero ser rude.
Esperei tudo o que pude,
Mas agora terminou”.

“Faz meses que todo dia
Venho aqui pra lhe buscar,
Mas você encontra um jeito
De eu nunca lhe levar.
Pede sempre mais um dia,
Para alguma poesia
Que ainda tem de terminar”.

“Eu, que não sei fazer versos,
Mas acho lindo quem faz,
Sem querer vou lhe deixando
Ficar sempre um dia a mais,
E você, espertamente,
Usa desse expediente
Para me passar pra trás”.

“Agora é essa entrevista
Que parece não ter fim.
Que poeta embromador!
Nunca vi alguém assim.
Mas, chega desse tormento,
Não vou mais dar cabimento
Pra você zombar de mim”.

O velho fez uma pausa e pediu um pouco d’água. Respirava com dificuldade. A voz estava fraquinha, abafada, como se saísse de dentro de uma mala fechada. 

O repórter olhava espantado. Será que todos aqueles versos estavam sendo recitados de improviso? Ou o poeta já os havia criado antes, os guardou na memória e agora estava apenas declamando? De um jeito de outro, aquele homem velho e moribundo era um verdadeiro gênio.

Enquanto o repórter fazia essas conjecturas, o poeta respirou fundo e prosseguiu, falando pausadamente.

Então o velho entendeu
Que não adiantaria 
Encompridar a conversa
Nem fazer mais poesia.
Era hora da partida,
Desta para a outra vida,
Chegara enfim o seu dia.

De partir nessa viagem
O velho ficou com medo,
Mas a mulher disse a ele:
“Vou lhe contar um segredo:
Se você tivesse visto
Pra onde vai, eu insisto,
Tinha ido bem mais cedo”.

“O lugar do seu destino
Tem paz e tem alegria,
Tem amizade de todos,
Tem amor, tem harmonia
E uma turma preparada
Pra fazer, na sua chegada,
Uma grande cantoria”.

O velho inda duvidava
Que ela falasse a verdade,
Mas, ia fazer o quê,
Doente e naquela idade?
O jeito, então foi seguir,
E finalmente partir
Em busca da eternidade.

A mulher de quem eu falo,
O senhor já percebeu,
É a morte, que, nesse instante,
A sua mão me estendeu.
Então, o velho, cansado,
Naquela cama deitado,
Deu um suspiro...

E a voz do velho se calou para sempre, pelo menos por estas bandas. Não conseguiu pronunciar as últimas palavras do último verso, mas elas ecoaram na mente do repórter, das enfermeiras, dos médicos e dos outros empregados do hospital que se haviam aglomerado em redor de seu leito. 

A partir de certo ponto, todos haviam percebido que aquele seria o seu último cordel.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Poesia de Rosário Pinto


Fio da navalha
Rosário Pinto
abril, 2011

1
O fio da navalha é
Muitas vezes perigoso
Manejá-lo é ofício
De barbeiro habilidoso
Na vida se deve sempre
Ser bastante cuidadoso

2
Pois vivemos situações
Que nos deixam à deriva
Sempre buscando equilíbrio
Nos frágeis fios da vida
Num andar desajeitado
Buscando alguma acolhida

3
Ficamos de mãos atadas
Buscando forma de escape
Das teias que aparecem
Lutar sem arma ou tacape
Com olhos aparvalhados
Medo que a vida desate

4
A visão da consciência,
Às vezes, fica confusa
Pensamento embaralhado
Pensar é coisa difusa
O raciocínio nos foge
Nossa mente nos acusa

5
Há dias que relutamos
A nos levantar da cama
O corpo cansado grita:
-Quero ficar de pijama!
Mas o dever solicita
Não vale psicodrama

6
Saímos para o trabalho
Naquela lida infinita
Conduções sempre lotadas
Todo mundo se agita
E naquele empurra-empurra
Do mundo cosmopolita

7
Chegando ao nosso trabalho,
Há sempre muito a fazer
São milhares de papéis
E tudo pra resolver
São oito horas diárias
Sem poder nos abster

8
Na hora da Ave-Maria
Nosso dia chega ao fim
Com problemas resolvidos,
Saímos pro botequim
E tomar uma cerveja
Requeijão com aipim

9
Não é sempre que podemos
Falar de alma lavada
As emoções conturbadas
Ficam de forma engessada
E é por isto que vivo
De forma desatinada

10
Andamos na corda bamba
Com a vida por um fio
Todo dia, sempre igual:
Viver sob calafrio,
Dia e noite, noite e dia
A vida é um desafio

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Comentário de José Romero ao cordel de Antonio Francisco


As causas da fome na visão 
do cordelista Antônio Francisco
José Romero Araújo Cardoso
Geógrafo e Professor da UERN

A desnutrição crônica é um drama que aflige milhares de pessoas em todo mundo, sobretudo na mais carente região do planeta, conhecida por terceiro mundo desde que o demógrafo francês Alfred Sauvy enfatizou classificação conforme o grau de desenvolvimento dos países, tomando como referência os estamentos da Assembléia Nacional Francesa pré-revolucionária.


A voz de um brasileiro que se tornou cidadão do mundo denunciou o flagelo da fome como produto da exploração do homem pelo homem. Josué Apolônio de Castro se notabilizou pela intransigência com que defendeu o acesso pleno de toda a população do globo a uma quota alimentar diária compatível à dignidade humana, exigindo a abolição dos contrastes que separam ricos e pobres. Pregou ainda, com entusiasmo, a adoção de um modelo sócio-econômico que privilegiasse o verdadeiro desenvolvimento humano sem agredir o meio ambiente.


A Coleção Queima-Bucha de Cordel nº 21 destaca uma preciosidade da cultura popular com profundos vínculos com a mesma essência que marcou a produção científica de Josué de Castro. Tem o título de A Casa que a Fome mora, de autoria do menestrel da Literatura de Cordel mossoroense de nome Antônio Francisco.


Buscando o rosto da fome, o autor envereda nas trilhas da exclusão, intuindo encontrar àquela que tantos estragos tem causado à vida dos marginalizados. Em aglomerados sub-normais tenta a todo custo identificar o verdadeiro e real sentido que enfatiza suas causas, não o percebendo em razão deste não estar vinculado à decisão daqueles que estão à margem dos benefícios do processo e construção social.


Os efeitos são identificados através de semblantes destroçados pelo doloroso drama que assola a humanidade, mas a casa onde a fome mora passa longe dos guetos, becos e vilas das favelas tristemente célebres como cenários de dor e desilusão.


Há de ressaltar que quando da publicação de Geografia a Fome, em 1946 e da Geopolítica da Fome, em 1951, havia maior parcela da população terceiromundista habitando a zona rural, ao contrário de hoje, quando países como o Brasil apresenta mais de 80% de seus habitantes no espaço urbano, o que personifica verdadeiro caos em que a desnutrição assume papel preponderante dentro dos problemas sociais verificados na conjuntura.


Antônio Francisco, com invulgar brilhantismo, primando por sua indisfarçável preocupação humanitária, esboça o pavor de quem enxerga com clarividência as distorções interclasses como os mais graves distúrbios sociais responsáveis pela fome e pela miséria que encarcera seres humanos com sonhos e anseios nos grilhões da exclusão fabricada perversamente a fim de garantir a manutenção do status quo, dos privilégios de uma minoria acintosamente beneficiada.


O cordelista, afinal, consegue identificar a casa onde a fome mora, caracterizada pela opulência e pela ganância, estruturada na injustiça e no descaso com os dramas dos semelhantes. A fome aparece como uma mulher divinamente bem vestida, bem nutrida, ao contrário do que imaginava, não era magricela e nem desdentada, mas muito formosa e cheia de vida, alimentada com os frutos perniciosos auferidos com a corrupção e com a falta de amor ao próximo.


Não é nas favelas onde a casa da fome se localiza, mas na high society, no circuito poderoso que abriga os donos do poder, de cujos pensamentos se voltam plenamente à manutenção da continuidade da exclusão como forma de garantir privilégios, dando ênfase a métodos escusos e desprovidos a fim de implementar tal tendência universal.




A CASA QUE A FOME MORA
Antonio Francisco
Coleção Queima-bucha de Cordel, Mossoró-RN, Outubro de 2006


Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão,
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe vi a cor
Da casa que a fome mora:


Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmãos dos raios da lua,
Com as costas semi-nuas
Tatuadas de caliça
Pedindo um pão da justiça
Do outro lado da rua.


Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão


Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela,
O jejum numa janela
Dizendo: aquí ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas, não vi o rosto dela.


Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava
Amolecia e matava
E ninguém matava ela?


No outro dia eu saí
De novo á procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.


Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?


Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome.
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.


Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pros bolsos dos marajás
E me escondo por tráz
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população.


Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida,
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.


Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas
Nunca vão me encontrar,
Eu vou continuar
Usando meu terno xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da burrice de vocês.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Poesia de Anizão


AS INJUSTIÇAS DA VIDA

//Anízio, 17/04/2011
Campina Grande


A vida é muito injusta
Do jeito que ela termina
Começa tudo novinho
Mas veja como ela finda
Pegado em uma bengala
Tremendo as pernas e a fala
E querendo viver ainda.
*
A vida era muito boa
Vivida toda ao contrário
Começando em um asilo
E terminando num berçário
Mamando os peitos durinho
De uma mãe com carinho
Em um bonito cenário.
*
Ser do asilo chutado
Por estar forte e robusto
Estando já homem forte
Seguir outros estatutos
Tendo mulher pra casar
Ter filhos para criar
Vivendo a fase de adulto.


Voltava para os estudos
Com gatas pra namorar
Transando sem compromisso
Pois não mais ia casar
Esse tempo já passou
Sua vida regressou
Bem mais novo vai ficar.
*
Assim a vida seria
Bem melhor aproveitada
Vinha logo o sofrimento
Vivendo a vida passada
Findava na mocidade
Zerando a sua idade
Num mar de felicidade.
*
Mas se tudo é diferente
Vamos a Deus agradecer
Viver alegre o presente
Para bem melhor viver
Sabendo que na velhice
Vamos fazer babaquice
A espera pra morrer.
*

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Causo de Luiz Berto sobre Orlando Tejo


UM CAUSO BEM CONTADO


De tantas coisas boas que já li no Jornal da Besta Fubana, uma das melhores foi, sem dúvida, um caso contado por Luiz Berto Filho, o Papa Berto I, sobre o poeta Orlando Tejo. De vez em quando volto ao JBF só para reler o causo. Então resolvi trazer para o Mundo Cordel, pelo menos assim compartilho com os leitores deste blog.


Para quem não sabe muito sobre Orlando Tejo, seguem alguns dados que pesquei do Jornal da Poesia:


ORLANDO TEJO, (Campina Grande, PB, 1935), é jornalista, ensaísta , boêmio e poeta. Colaborou em inúmeros jornais, destacando-se: Dário da Borborema, Campina Grande, Jornal do Commércio, Recife, Diário de Pernambuco, Recife, Correio Braziliense, Brasília, entre outros. Escreveu vários livros,  dentre os quais: Zé Limeira – Poeta do Absurdo, (ensaio), A hora e a vez do jumento, (teatro), As noites do Alvorada (poesia) e, ainda inédito, Se não foi eu cegue, (memórias). Tem textos, crônicas, poemas, crítica literária, dispersos em vários jornais e revistas no Brasil e no exterior. Alguns poemas seus foram musicados por grandes interpretes da música popular brasileira. Sobre seu livro Zé Limeira – Poeta do Absurdo, afirmou José Américo de Almeida, “o poeta Orlando Tejo expõe uma matéria nova para ser analisada pela crítica moderna”. Orlando Tejo reside atualmente em João Pessoa. (2009)


Segue a histporia:


ORLANDO TEJO E O AGIOTA
Luiz Berto

Era manhã de segunda-feira e Orlando Tejo invadiu minha sala num aperreio que não era de seu costume.


- Berto, tô encalacrado.


Não sei se vocês sabem, mas Orlando Tejo é o sujeito mais calmo e descansado desse mundo, incapaz de se aperrear até dentro de uma casa em chamas. Mas naquela manhã, o homem estava mais agoniado do que bacorinho em caçuá.


A tranqüilidade habitual, emoldurada pelas serenas baforadas no cachimbo, fora substituída por um avexamento que, francamente, deixou-me curioso. E largou o seu problema sem mais demoras:


- É o seguinte: o novo gerente da Caixa Econômica é meu leitor e se tornou meu amigo. Assumiu a agência e me deu um cheque especial na sexta-feira. Resultado: já estourei o limite em trinta mil cruzeiros neste fim-de-semana.


Conhecedor da total inabilidade de Orlando para gerir suas finanças, para mim não foi surpresa o estouro no limite do cheque especial. Surpreendente era a velocidade com que isso se dera. Recebera o cheque na sexta-feira e na segunda já estava pendurado. Em verdade, suas habilidades aritméticas limitavam-se à soma das mais alegres lembranças, à subtração de tristezas, à multiplicação da imensa legião de amigos e à divisão de uma ternura e de um lirismo que só mesmo pessoas encantadas como Tejo estão autorizadas a ter.


Expliquei-lhe que estava duro e não poderia ajudá-lo no momento. Estava sendo tão franco quanto, com a mesma franqueza, lhe arranjaria imediatamente a miserável quantia, caso a tivesse, para não vê-lo naquele sufoco. Funcionário público só vê a cor do dinheiro no fim do mês e, por infelicidade, estávamos ainda no início da segunda quinzena. Tentei explicar-lhe isso com tranqüilidade, mas ele parecia insensível a qualquer argumento.


- Mas eu não posso é ficar desmoralizado perante o gerente, que é meu conterrâneo da Paraíba e me deu o cheque especial em confiança, por amor aos meus escritos. Um admirador, em resumo. Vai ser muito chato…


Expliquei-lhe que pessoalmente não podia fazer nada. Mas lembrei-lhe que, como em toda boa repartição pública, a Câmara tinha o seu agiota de plantão para socorrer os desesperados naquelas precisões agoniosas. O anjo da guarda dos necessitados, acudidor de precisões prementes, tão injustamente malhado pelas pessoas gradas, mas capaz de salvar um vivente de um sufoco sem fazer fichas, preencher cadastros, telefonar para o SPC ou exigir promissórias registradas em cartório. E dei a indicação ao Tejo:


- É só você procurar o Canindé.


Meu amigo João Canindé Tolentino Ribeiro entrou nessa história como Pilatos entrou no Credo. Tão lascado quanto qualquer um de nós, apenas estabelecia o contato entre o agiota e os possíveis fregueses, não ganhando nada com isso, salvo o fato de se beneficiar com um juro mais baixo quando também precisasse de dinheiro. Orlando Tejo não sabia quem era Canindé, mas já tratou-o com uma familiaridade que era bem do seu estilo.


- Então ligue logo para esse filho-da-puta desse Canindé, e diga que eu preciso de trinta.


Liguei para Canindé e ele disse que só poderia dar a resposta de tarde. Estávamos ainda no começo da manhã. Tejo não gostou mas teve que se conformar e, logo após o almoço, já estava de novo na minha sala à espera de notícias. Francamente, nunca lhe vira tão agoniado.


- Ligue logo para esse filho de uma égua, pelo amor de Deus.


Canindé mandou dizer que, se o dinheiro saísse, só sairia no dia seguinte. terça-feira. Transmiti o recado ao Tejo e ele desesperou-se.


- Explique a esse filho-da-puta que desse jeito vai ser tarde demais. Os cheques que emiti devem entrar hoje à noite.


Desolado com o drama do meu amigo, acompanhei com o olhar a sua saída nervosa, pitando furiosamente o cachimbo e maldizendo a sorte. A aura de lirismo que marcava sempre sua figura estava seriamente arranhada pela agonia que transpirava dos seus poros. Pobre Tejo, necessitado de trinta neste vasto mundão de meu Deus e ninguém para acudi-lo…


No dia seguinte, quando cheguei à minha sala, já o encontrei de plantão, sorrindo, esperançoso.


- Acabei de me informar no banco: nenhum cheque entrou ainda. Ligue logo para esse miserável desse Canindé.


Liguei. Canindé informou que só à tarde. Transmiti a informação ao Tejo.


- Assim não dá! Esse filho-da-puta quer me matar.


Na primeira hora da tarde volta Tejo avexado.


- Ainda não entrou cheque nenhum. Ligue de novo.


Liguei e Canindé disse para ligar dai a meia hora. Transmiti a informação. Tejo deu uma puxada no cachimbo e caminhou um pouco pela sala sem falar nada. Ficou de costas para mim, olhando um ponto indefinido na parede em frente. Sentou-se numa poltrona.


E, então, baixou o santo: Tejo ficou calmo de repente, me pediu uma folha de papel e começou a rabiscar. Eu acompanhava com um rabo-de-olho e procurava não perturbar, pois sabia que ele estava em pleno processo de criação. A mão corria devagar pelo papel e, de vez em quando, ele fazia pequenas pausas como se estivesse conferindo o que já havia escrito. Estava tranqüilo e era outro homem, bem diferente daquele que há poucos instantes necessitava desesperadamente de trinta.


Levantou-se e me passou umas folhas naquela sua caligrafia miserável que eu já estava habituado a decifrar. A letra de Tejo, qual moderna Pedra da Roseta, exige as habilidades de um novo Champollion para trazê-la ao entendimento dos mortais comuns.


Comecei a ler e me dei conta da preciosidade que tinha em mãos. Aquilo, realmente, era uma obra de Tejo e ali estava o seu espírito paraibano, nordestino, poético, moleque, imprevisível por inteiro. Dar uma trégua ao aperreio para parir um negócio daqueles, só mesmo vindo dele.


Para se entender o acontecido, vale ressaltar que a história se passava na Câmara dos Deputados, cujo presidente, à época, era o Deputado Flávio Marcílio e que Delfim Netto era o então Ministro da Fazenda. Um tempo tão da porra que ninguém jamais será capaz de esquecer…


Vou transcrever do jeito que ele me deu.


LOUVAÇÃO A CANINDÉ


Estando sem um tostão
E me encontrando bem perto,
Fui procurar Luiz Berto
Para alguma solução.
Berto disse: “Meu irmão,
Eu também queria até
Fazer um querrequequé
Daquele que o diabo pinta
Para ver se arranco trinta
Do bolso de Canindé.


E toca a telefonar
E Canindé a correr,
Mas não pôde se esconder
E teve que tapear:
“Pela manhã não vai dar,
Porque de tarde é que é
Bom para a coisa dar pé.
Aguarde, portanto, amigo”.
Berto ficou de castigo
Esperando Canindé.


E eu que necessitava
Também da mesma quantia
Me fiei nessa franquia
Que Canindé propalava
Quando eu menos esperava
O safado, de má fé,
Filho de puta ralé,
Disse que hoje não tem nada…
Ah! uma foice amolada
No chifre de Canindé.


Eu já podia notar
E mudar de interesse
Que um cabra com um nome desse
Não poderia prestar.
Entretanto, vou esperar
Até amanhã com fé.
Se ele me deixar a pé,
Juro por Nossa Senhora:
Corto de pau uma tora
E vou matar Canindé.


O cabra fuma e não traga
Faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
Que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
Pra um sujeito de fé,
Já que esse indivíduo é
Um tratante e delinqüente
Haja chumbo grosso e quente
No rabo de Canindé.


Por capricho do destino
De Satanás ou Deus Brama,
O bicho também se chama
Coisa e tal e Tolentino,
Doido, avarento e mofino,
Não conhece a Santa Sé,
Faz da cola o seu rapé,
Vive da desgraça alheia,
Devia estar na cadeia
Esse tal de Canindé.


Não sei como Luiz Berto
Este escritor inspirado,
Toma dinheiro emprestado
A um ladrão tão esperto,
Que representa um deserto
De trabalho, amor e fé,
Que anda de marcha ré
Pela estrada da virtude
E além de covarde e rude
Se assina por Canindé.


Antes quero outro “pacote”
Desemprego, moratória,
Ver Delfim contar história,
Comer carne de caçote,
Levar chumbo no cangote,
Me abraçar com jacaré,
Beber caldo de chulé,
Dar o rabo a marinheiro,
Do que tomar um cruzeiro
Emprestado a Canindé.


Corri para a máquina de escrever a fim de botar em letra de forma a tradução dos garranchos e, quando comecei a datilografar, o telefone tocou.


Fiquei incomodado com o toque da campainha. Atendi a contragosto , com a esperança de que a conversa fosse breve. Era o Canindé.


- Diga ao seu amigo que o dinheiro saiu. Pode vir apanhar.


Ai eu ri gostoso! Depois daquela “louvação”, eu queria ver qual a reação do meu amigo diante da liberação do dinheiro.


Acabaram-se os aperreiros. O mundo voltava ao normal e tornava a correr nos eixos. Dei a notícia ao Tejo e ele me olhou morrendo de alegria. Parecia um menino.


- Saiu? Então me dê ai outro papel que eu vou escrever de novo.


Mandei alguém ir buscar o dinheiro enquanto Tejo se ajeitava num canto e começava a escrever novamente. Parece que a boa noticia fazia-o escrever mais ligeiro. A caneta deslizava sem interrupções sobre o papel. Até as baforadas do cachimbo boiavam coloridas. Olhou a sua obra, deu um sorriso maroto e me passou a papelada.


Saiu o seguinte:




NOSSO AMIGO CANINDÉ


Um sujeito despeitado,
Desses de baixa maré,
Inventou que Canindé
É um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
Com a informação ralé,
Porém não perdi a fé
Em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
Na fronte de Canindé.


Tenho dito e sustentado
(Todo mundo sabe disso)
Que na Câmara, esse cortiço,
Há um cidadão honrado,
Pai de família extremado,
Homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
Que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
E em Brasília, Canindé.


Sei que o Papa tem razão,
Mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
Que se dirá de um cristão
Porém a fofoca não
Atinge um homem de fé.
E se eu descobrir quem é,
Meto a mão no pé do ouvido
Do sem-vergonha enxerido
Que falar de Canindé.


Canindé - nome decente!
Tolentino - ô nome macho!
Ribeiro - lindo riacho
Que mata a sede da gente!
Honrado, amigo e valente,
Subiu da glória o sopé…
A Virgem de Nazaré
Já lhe envolveu com seu manto,
Por isso um caminho santo
Vai trilhando Canindé.


Canindé pra ser beato
Só falta mesmo a batina,
Pois tem vocação divina
Pureza, fé e recato!
Por isso ele é o retrato
Mais fiel de São José
E já se comenta até
Que Frei Damião Bozano
Sugeriu ao Vaticano
Canonizar Canindé.


Mas sabem por que razão
Já querem canonizá-lo?
É por causa de um estalo
Que recebeu nosso irmão
Lá nas margens do Jordão,
Ao lado de São Tomé,
Quando dava cafuné
Numa velhinha doente
E morreu a penitente
Nos braços de Canindé.


Nesse chão onde ele pisa,
Por ser grande patriota,
Se faz até de agiota
Pra ajudar a quem precisa.
Mas não comercializa
A sua alma de fé!
Jamais ganhou um café
Pelo dinheiro que empresta…
A caridade é uma festa
Para a alma de Canindé.


Santo Agostinho, dos santos
Foi o mais puro entre os ermos
Que consolava os enfermos
E lhes enxugava os prantos.
Obrava milagres tantos,
Pela pureza e a fé
Pois acreditava até
Em fala de passarinho.
Mas sabem? Santo Agostinho
É pinto pra Canindé.


E mais não disse e nem lhe foi perguntado.