quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cordel de Amazan




Considero este um dos cordéis mais divertidos que já li e ouvi. 
Essa interpretação está muito boa:

O TRANCA RUA
Amazan



Eu ainda era menino
A premera vez que vi
O cabocão lazarino
E nunca mais esqueci
Seu nome era tranca rua
Pois quando a vontade sua
Era fechar a cidade
Dava ordem pra trancar
Mercado, bodega, bar
E até a casa do padre


Quatro, cinco, seis soldado
Para ele era perdido
Uns ficava istrupiado
Outros ficava estendido
De modos que a cidade
Não tinha tranqüilidade
No dia que ele bebia
Pois quando se embriagava
Dava a gota bagunçava
E prendê-lo ninguém podia


Tranca rua era um caboco
De dois metros de artura
Os braço era aqueles tôco
As pernas dessa grossura
Não tinha medo de nada
Pois até onça pintada
Ele sozinho caçava
Pegava a bicha com a mão
Depois com um cinturão
Dava-lhe uma pisa e matava


E eu cresci-me escutando
Falar do cabra voraz
O tempo foi se passando
E eu tormei-me rapaz
Mole que só a mulesta
Pois até pra ir uma festa
Eu era discunfiado
Se acaso visse uma briga
Me dava uma fadiga
Eu ficava todo mijado


Quem hoje olha pra mim
Pensa até que eu tô inchado
Mais eu nunca fui assim
Naquele tempo passado
Eu era um cabra mufino
Desses do pescoço fino
Da cabeça chata e feia
No lugar onde eu morava
O povo só me chamava
De caboré de urêia


Por artes do mangangá
Um dia eu me alistei
Num concurso militar
E apois num é que eu passei?
E me tornei um sordado
Mago feio e infadado
Nem cum revóve eu pudia
Porém se o chefe mandasse
Prendê alguém qui errasse
Dava a gota mais eu ia


Um dia de madrugada
Eu estava bem deitado
Quando chegou Zé buchada
Com os óio arregalado
Foi logo chamando a gente
Depois deu parte ao tenente
Relatou o desmantelo
Traça rua ontem brigou
Portanto agora o Senhor
Vai ter que mandar prendê-lo


O tenente olhou pra mim
Eu chega tive um abalo
Disse: - Amanhã bem cedim
Você vá lá intimá-lo
Disse isso e foi se deitar
Eu peguei logo a ficar
Amarelo e mêi cansado
Deu-me uma tremedeira
E eu disse é a derradeira
Viagem desse soldado


No outro dia bem cedo
Eu pus o pé no camim
Ia tremendo de medo
E cunversando sozim
Aqui e acolá parava
Fazia um gesto insaiava
O que diria pra ele
E saí me maldizeno
Nove hora mais ou menos
Eu cheguei na casa dele


Fui chegando com cuidado
A casa estava trancada
Eu fui olhando de lado
Vi ele numa latada
Tava dum bode tratano
Eu fui lá me aprochegano
Pra perto do fariseu
Minha garganta tremia
Eu fui e disse assim: Bom dia!
Ele nem me arrespondeu


E eu peguei conversando
E me aprochegano mais
E ele lá trabaiano
Sem me dá nenhum cartaz
Eu disse: - Bonito dia
Eihm! Seu Toím quem diria
Que esse ano ia chuver
Eita qui bodão criado
É pra vender no mercado
Ou mode o senhor cumê 


Aí ele olhou pra mim
Eu peguei logo a surri
Ele diche bem assim
Qui diabo tu qué aqui?
Aí eu diche não sinhô
É qui eu sou um caçador
Qui moro no pé da serra
Me perdi de madrugada
Não achei mais a estrada
E saí nas suas terra


Aí ele me interrogou
Então cadê seu bisaco?
Eu diche ah! Não sim senhor
Caiu dentro dum buraco
Ele diche sente aí
Qui eu tô terminando aqui
Qui é pra mode conzinhar
E você chegou agora
Portanto só vai imbora
Adispois qui armoçá


Quando nóis tava armonçando
Ele pegou cunversar
E diche: -Faz vinte anos
Qui moro nesse lugar
Sem mulé e sem parente
As vezes tomo aguardente
Faço papel de bandido
Eu sei qui é covardia
Mas quando é no outro dia
Eu to munto arrependido


Então eu disse é agora
Qui faço a minha defesa
Peguei a fera na hora
Dum momento de fraqueza
Aí disse: - Realmente
O sinhor é diferente
Quando istá imbriagado
Mais dexe isso pra lá
Qui a vida vive a passar
E o qui passou ta passado


Viu seu Antoim tem mais uma
Eu nunca fui caçador
Tombem istô cum vergonha
De tê mentido ao sinhô
Eu sou um pobre sordado
Qui as orde do delegado
Meu devê é dispachar
Porém prefiro morrer
Do que dizer a você
Qui vim aqui lhe intimar


Se o delegado achar ruim
Pode tirar minha farda
Mais intimar seu Toím
Deus me livre intimo nada
Nisso Ontoim se levantou
Bebeu água se sentou
Dispois pegou preguntar
Quer dizer qui o sordado
Pur orde do delegado
Veio aqui mi intimar


Eu fui falar mais não deu
Peguei logo a gagejar
Nisso Ontoim oiou pra eu
Disse: -Pode se acalmar
Resolvi ir com você
Pra cunversar e saber
O qui quer o delegado
Pois se eu não for camarada
Vão tirar a sua farda
E eu vou me sentir curpado


E vamo logo si imbora
Enquanto eu tô cum vontade
Mais ou menos quatro hora
Fumo entrando na cidade
De longe eu vi o tenente
Assentado num batente
Cum uns cabra a cunversar
Qui quando viu nóis gritou:
-Valei-me nosso Senhor
Ispie só quem vem lá


Eu só tou acreditando
Porque meus óio estão vendo
Tranca rua vem chegando
Caboré vem lhe trazendo
O cabra é macho demais
Nisso eu fui e passei pra trás
Que é pra chamar atenção
E só pra me amostrar
Eu resolvi impurrar
Tranca rua cum a mão


Esse nêgo camarada
Ficou meio enfurecido
Deu-me uma chapuletada
Por cima do pé do uvido
Qui eu saí feito um pião
Rodano sem direção
Pru cima de pedra e pau
Graças a Virge Maria
Só acordei no outro dia
Na cama dum hospital


Não sei o qui se passou
Dispois qui eu dismaiei
Por que ninguém me contou
E eu tombem não perguntei
Eu só sei qui o delegado
Até hoje é aleijado
E qui esse uvido meu
Nunca mais iscutou nada
Adispois da bordoada
Qui Tranca rua me deu.!

8 comentários:

  1. o único tranca rua q eu já ouvi falar e o diabo vc tem pacto com ele e ?

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  2. Caro anônimo,
    como diz o ditado, "Não há só uma Maria no mundo". Também não deve existir apenas um Tranca Rua. Acho que esse da história não é o mesmo que você conhece.
    Quanto a ter pacto com o Diabo, ele bem que tentou, mas não deu certo. Já contei essa história em "O advogado, o diabo e a bengala encantada", que você pode ler aqui mesmo em Mundo Cordel, na URL http://mundocordel.blogspot.com/2007/08/literatura-de-cordel-na-expocom.html.

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  3. Querido Mairton,
    Viajo com frequencia para o Ceará e o que mais me encanta no interior é acordar cedinho e ligar o rádio que ainda encanta, e muito, o interiorano.

    E o Amazan com suas historias engraçadas está sempre presente no rádio fazendo a alegria daqueles que têm um sorriso guardado esperando apenas a primeira ocasião para que ele possa brotar.
    Parabéns pela postagem super engraçada e por divulgar as graças do Nordeste.
    Carinhosamente,
    Dalinha

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  4. Um show o seu espaço.bjs e paz.

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  5. grande poeta, é assim mesmo que agente vai levando a cultura cordelista brasileira pra todo canto do mundo.
    De novo... parabens.
    Carlos Silva

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  6. Êitcha que esse é de verdade um dos puemas que eu mai gostei, mai da ota vei que eu uvi tinha uma parte que eu jarmai me esquecerei, logo dispois que o caboco se diz arrependido de tanta cachaça e desmantêlo, ele relata uma confusaão em que ele mermo é o vilão e só num vai lá pedir perdão por que esta de cara no chão.
    Era mar o meno assim:
    Onten mermo eu fiz umas prezepadas pois começei a beber cana com lambu assada depois perdi os sentidos fiz o maior despanpido na fazenda de João Tonha hoje me sinto com culpa só num vou lá pedir desculpa porque estou com vergonha.
    Realmente eu num vi no computador nenhum puema com essa parte que eu to contando ao Sinhô, vai vê eu nem caçei tão bem assim, vai vê o puema com essa parte deve tá lá pelas banda do fim. E se o Sinhô quiser incruir essa parte que eu lhe contei no puema que o Sinhô já tem, eu ficarei muito grato e creio que o povo que lê vai ficar grato também.
    Abraço forte que nem leite de jumenta preta, de seu amigo Lion Antônio.

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  7. Gostei muito um dos melhores poemas que ja li... Parabéns autor...

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