sábado, 6 de outubro de 2007

Cordel e música popular brasileira

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GENILDO COSTA E O CORDEL DE LUIZ CAMPOS

Acabei de falar ao telefone com meu amigo Genildo Costa - o criador do Canto Potiguar - e fiquei surpreso com a coincidência. Eu ia pedir a ele autorização para por neste blog o áudio de ME ENGANEI COM MINHA NOIVA, junto ao cordel de Luiz Campos, quando ele falou que estava se dirigindo para a TCM - TV a CAbo Mossoró - para gravar uma entrevista junto com o poeta Luiz Campos, sendo que, no programa iria cantar exatamente essa música.
É coincidência demais para ser coincidência. Acho que são os deuses do cordel e da música popular que estão em paz conosco. Leia o texto abaixo, e não deixe de ouvir a música. Vale a pena!
ME ENGANEI COM MINHA NOIVA

Quando solteiro eu vivia
Era o maior aperreio,
Devido ser muito feio
As moça não me queria.
Quando pr’um forró eu ia
Com qualquer colega meu,
Eles confiava neu
Ia beber e brincar
No fim da festa ia arengar
Quem ia preso era eu.

E pra arranjar namoro
Eu toda via fui mole.
Eu cantei samba, eu puxei fole,
Usei um cabelo louro,
A boca cheia de ouro,
Chega brilhava de dia.
Quando pr’um forró eu ia
Cheirava que nem uma rosa,
Mas, se eu caçava umas prosa,
As moça não me queria.

Aí eu dizia: “É catimbó
Que alguém botou, mas não sai,
Que mamãe casou com papai,
Vovô casou com vovó,
Inté meu irmão Chicó,
Que é muito mais feio que eu,
Namorou, casou, viveu
Com duas mulher, inté,
Só eu não acho muié
Que queira se esfregar neu.

Um dia Deus descuidou-se,
O satanás se esqueceu,
Que Vicença olhou pra eu
Com uns oião de bico dôce,
Nossos ói se amisturou-se
Como feijão com arroz,
Se abufelemo nós dois
Num amor tão violento
Que marquemo o casamento
Pra quatro dias depois.

No dia de se amarrar,
Se arrumou, eu e ela.
Dei de garra na mão dela
E fui pra igreja casar.
Cheguei no pés do altar,
Recebi a santa bença,
Jurei não ter desavença
Entre eu e minha estposa,
O padre disse umas côsa
E fui viver com Vicença.

Cheguei em casa mais ela,
Fui logo me agasalhando
Que mermo que eu ia pensando
Que ia dormir na costela.
Vicença fez a novela
Por dentro da camarinha,
Quebrou uns troçim que eu tinha,
Me ameaçou na bala.
Ela foi dormir na sala
Eu fui dormir nca cozinha.

Da vida perdi o gosto
Porque Vicença fez isso.
De manhã fui pro serviço,
Mas pra morrer de desgosto.
Cheguei em casa, o sol posto,
Vicença me arrecebeu,
Inté um café freveu,
Botou pra nós dois cear,
Mas, quando foi se deitar,
Nem sequer olhou pra eu.

De Deus perdi a crença,
De nome chamei uns trinta,
Botei uma faca na cinta,
E fui conversar com Vicença.
Vicença deu uma doença
Quando falei em amor,
Aí ela me perguntou:
“Cê pensa que eu sou o que?
Eu me casei com você
Pra lhe fazer um favor”.

Bati com ela no chão,
Puxei a lapa de faca,
Cortei o cóis da casaca
E o elástico do calção.
Vicença tinha razão
De não querer bem a eu.
Não era com nojo deu,
Ou porque não fosse séria,
Sabe Vicença quem era,
Era macho que nem eu.

Eu muito me arrependi
Porque me casei com ela.
Falei logo com o pai dela
E de manhã devolvi.
Muito desgosto eu senti,
Que quase morri inté,
Homem trajo de muié
Tem muito de mundo afora,
Só caso com outra agora
Logo sabendo quem é.

14 comentários:

  1. Já assinei o RSS.
    Muito bom, gostei do blog! Parabéns

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  2. kkk meu nome é Vicença, mais sou mulher, ouvi essa musica era pequena, e meu pai se acabou de rir que saudades..

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  3. nossa.. muiro criativo!! Gostei, tem toda uma moral cara... haha

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  4. Na sujeira colocaram a PUREZA.
    Acima de qualquer motivo de TRISTEZA.
    A PUREZA se fez sujeira em nosso lugar.
    Tudo isto por muito nos amar.
    TUDO ISTO era visto e consentido pelo PAI
    Que em seu grande AMOR e JUSTIÇA,
    Vê aquele tenebroso ato de injustiça
    Como a garantia do AMOR E DE SUA JUSTIÇA.
    Este presente maravilhoso nunca será esquecido
    Por aqueles que aceitaram o motivo deste preço.
    Assim,vivamos neste mundo esquisito
    Com a certeza de que derramar um sangue puro
    Foi de certo o melhor jeito
    Para nos tirar de certo do escuro.

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  5. O título do poema é EU E VICENÇA

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  6. Essa é um clássico da nossa literatura de cordel, quem não sabe o que é cordel, por favor, nem opine, vocês calados ainda não sabem o que dizem.

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  7. Lembro-me dessa música desde criança,mais tinha esquecido um trecho dela e percebo que algumas mudanças foram feitas, mas ainda rimou, agora relembrei graças a esse blog maravilhoso que ainda valoriza a nossa cultura.Parabéns!!!

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    1. Você ainda lembra do cantor? Avise-me se puder porque não lembro mais! Obrigada!

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  8. Adorei recordar a minha infância e tenho até hoje na minha memória essa relíquia popular, embora tenha notado algumas modificações! Parabéns pela iniciativa!

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